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Cientista acusa o Brasil de impedir pesquisa

OESP, Vida, p. A16
08 de Nov de 2005

Cientista acusa o Brasil de impedir pesquisa
O americano Craig Venter, um dos que seqüenciaram o genoma humano, reclama que não pode coletar microorganismos no País; funcionário do governo nega

Cristina Amorim

O cientista e empresário americano Craig Venter, que encabeçou a corrida pelo seqüenciamento do genoma humano na década de 1990, afirmou ontem em São Paulo que o Brasil não faz parte de seu mais recente projeto por resistência do governo. O Ministério do Meio Ambiente, que seria responsável pela parceria, nega qualquer contato.
Venter roda o mundo atualmente em seu navio Sorcerer II ("feiticeiro", em inglês) coletando micróbios na água e no ar - atividade chamada de bioprospecção. Ele deseja formar um catálogo genômico de microorganismos que apresentam valor científico e comercial.
Na rota originalmente desenhada, ele passaria pela costa brasileira, especificamente a amazônica. Ontem, antes de dar sua palestra na Expo Management 2005 (encontro de executivos sobre gestão de negócios), ele disse aos jornalistas que o trajeto foi alterado porque o governo queria deter todas as informações que fossem adquiridas sobre os organismos encontrados lá, inclusive futuras e possíveis patentes.
"O País queria todos os dados do que flutuasse a 200 milhas da costa", afirmou o cientista. "Não é uma questão de ganância privada, mas da nacional: eles querem ser donos de todos os organismos." Segundo Venter, o governo brasileiro também teria pedido a patente de micróbios. "Temos acordos com outros governos dizendo que não vamos patentear."
O secretário executivo do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen), Eduardo Vélez Martin, nega qualquer contato do americano. O órgão é o responsável pela autorização de pesquisas sobre a biodiversidade. "Estou surpreso com o comentário dele."
Segundo Martin, a legislação do País não exige a patente, mas o compartilhamento de benefícios comerciais gerados por qualquer descoberta. "Se há fins comerciais envolvidos, o sigilo sobre informações sensíveis é resguardado neste contrato." Ele acha improvável que Venter tenha contatado qualquer outro órgão governamental, pois o Cgen é interministerial, com representantes espalhados em diferentes pastas.
AO SABOR DO VENTO
Venter também afirmou que é contra a patente de genes. A afirmação é uma inversão de valores para quem, há cinco anos,patenteou genes humanos com a empresa que ajudou a lançar, a Celera Genomics. "O gene não tem valor comercial. É a proteína que deve ser patenteada."
Contudo, não é uma posição totalmente inesperada. A própria Celera desistiu de vender informações genéticas neste ano, para focar no desenvolvimento de medicamentos. Venter foi demitido em 2002.
O cientista também negou que exista muita especulação em torno da medicina genômica. "Não acho que o futuro seja inventar mais remédios. O futuro da medicina está na invenção de tecnologias." Um ferramenta que ele propõe é a criação, em dez anos, de um software que forneça o genoma individual em cada vez menos tempo.
A questão aqui é se tal tecnologia teria aplicação. Em 2000, assim que o mapa genético do homem ficou pronto, a área foi apontada como seu principal filhote, pois permitiria que cada indivíduo fosse tratado de acordo com seu perfil genético. Hoje, cinco anos depois, conhecer os genes se mostrou pouco prático para ser usado em terapias: no máximo, ajuda em poucos diagnósticos e em estratégias de prevenção.
Porém, vindo de Venter, é no mínimo adequado ficar atento quando a pauta é tecnologia. Afinal, nos anos 90, ele rompeu com o consórcio do Genoma Humano, formado por cientistas de todo o mundo, por discordar da técnica aplicada. Ele criou um método que acelerou o processo e, apesar de críticas sobre a qualidade do serviço, reduziu pela metade o tempo do projeto.

FUNDO DO MAR
Hoje, o cientista foca o projeto Sorcerer II. Segundo ele, 8,3 milhões de seqüências de DNA já foram obtidas, algo em torno de 6 milhões de novos genes. "Os micróbios compõem metade da biomassa da Terra."

OESP, 08/11/2005, Vida, p. A16

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