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Cidade se opunha a freira, dizem fazendeiros

FSP, Brasil, p. A8
24 de fev de 2005

Cidade se opunha à freira, dizem fazendeiros
Extração de madeira é base da economia da cidade, que sofre com estradas atoladas pela chuva nesta época do ano

Laura Capriglione
Enviada especial a Anapu (PA)

A irmã Dorothy Stang, pequena no seu 1,60 m, voz mansa, que percorria as ruas enlameadas de Anapu e os travessões da Transamazônica, sempre de bermudas, camiseta e boné ("Ela parecia um menino", diz a comerciante Lenir Mendonça), colecionou inimigos durante os mais de 20 anos que morou na cidade.
"Agora querem fazer todo o povo crer que ela era uma santa, mas de santa ela não tinha nada. Estão dizendo que fazendeiros eram grileiros assassinos, mas quem invadia terras e incentivava a violência na cidade era ela, a irmã Dorothy", protestava ontem, sem dentes na frente, Afonso Luís Bolz, 46, o Catarina Construtor, filho de russos, na região há dez anos, vindo de Santa Catarina.
Ao lado dele, Deolindo Antonio Hiille, 44, fazendeiro em cujas terras fica o aeroporto de Anapu, capixaba loiro de olhos azuis, tentava uma estatística: "Pelas minhas contas, 95% da cidade é contra esses PDS [Projetos de Desenvolvimento Sustentável, a principal bandeira levantada pela freira]. Ela queria tomar as terras de quem já estava produzindo, aí não é possível, não é?".
Reunidos no supermercado do Zuzu (Elton de Jesus Franco, 42, que chegou a Anapu em 1972), os homens protestavam contra a cobertura do assassinato da freira que vêem na TV e ouvem na rádio Nacional, do sistema Radiobrás -em Anapu não chegam jornais impressos. "Querem transformar toda a população anapuense em assassina. A gente não é", diz Catarina Construtor.
"O verdadeiro mandante do crime foi o Lula; o Incra foi o pistoleiro", emenda Zuzu. "A gente vive de promessas, sendo enganada. Dizem que vão melhorar a vida deste lugar e só nos enrolam. Uma hora, estoura. A culpa é de quem apertou o gatilho ou de quem não fez nada para evitar que isso acontecesse?", pergunta.

5.000 campos queimados
Os adversários da irmã Dorothy querem se fazer escutar. Julio Cesar Ferreira, 44, fazendeiro de Sanclerlândia, a 120 km de Goiânia, convidou a reportagem da Folha para visitar a fazenda Brasil Central, que adquiriu há três anos e que fica dentro da gleba Bacajá, a mesma onde a freira foi assassinada no último dia 12.
Ele diz que já derrubou 40% das florestas da fazenda de 12 mil hectares. Em números redondos, uma área de quase 5.000 campos de futebol de mata fechada virou fumaça, para dar lugar a 3.500 cabeças de gado. Dentro de quatro meses, serão 6.000. Apenas 15 funcionários cuidam da propriedade, mais o pessoal que vem e vai em trabalhos temporários, como construção de cercas, curral.
Os poucos empregados, Ferreira atribui às características da região e da criação que escolheu. "A gente desmata com fogo, joga as sementes de capim de avião, espera germinar, põe o gado e é só. O clima ajuda a manter o pasto verde o ano todo. Os funcionários são para cuidar de uma ou outra rês machucada e para levar as cabeças para Belo Monte, onde embarcarão em balsa até Belém."
Ao todo, Ferreira diz já ter investido R$ 5,5 milhões na Brasil Central. O retorno deve começar a vir a partir do segundo semestre de 2006. É uma vida dura. A sede da fazenda é construída em tábuas de castanheira, madeira macia e fácil de trabalhar. Tem cinco cômodos e fogão a lenha, de onde saem o arroz com feijão e a carne, cardápio do almoço e do jantar.
Em volta da casa, uma criação de galinhas vive solta, para tentar combater os escorpiões amarelos e pretos e as aranhas saltadeiras, supertóxicas, que antes viviam na floresta, mas dela saíram por causa das queimadas. Mais medo fazem as cobras bico-de-jaca, assim nomeadas por causa da pele com escamas grossas, a bico-de-papagaio, que emite um som parecido com o dos papagaios depois de picar sua presa, a combóia e a jararacuçu, que andam em volta.
Ferreira diz que, antes da construção da sede, dormiu muitas noites sob lona preta, como a que se vê nos acampamentos de sem-terra. Com ele, todo o tempo, estava o gerente da fazenda, Deusimar José Mendonça, 33, o Pastel, que também saiu de Sanclerlândia para o Pará.
Para chegar às terras da Brasil Central, passa-se por uma estrada com atoleiros de meio quilômetro de extensão e por áreas inundadas pelos igarapés que transbordam nesta época do ano. Só se vencem os 40 km que separam a Brasil Central do centro de Anapu com caminhonetes diesel, como a L-200 Mitsubishi de Ferreira, que não tem velas de ignição. Não há ignição possível debaixo d'água.
"É justo termos acreditado nestas terras, investido e trabalhado para dotar a região de um mínimo de infra-estrutura e, depois, vir um PDS dizer que tudo isso é deles que não fizeram nada?", pergunta o fazendeiro.
De manhã, Pastel e a mulher, Andréia de Fátima Mendonça, 26, sintonizavam as ondas da Rádio Nacional, para acompanhar a novela radiofônica "Anapu - Vida e Morte", produzida pela Radiobrás, ligada ao governo federal. "É só preconceito contra nós, que estamos trabalhando. A gente ouve para se aborrecer", diz Ferreira.
Reconstituição do crime deve reunir 70 pessoas
Da Agência Folha, em Altamira (PA)

Ao menos 70 pessoas, entre peritos das polícias Federal e Civil e oficiais e soldados do Exército, fazem hoje a reconstituição do assassinato da missionária Dorothy Stang, em Anapu, oeste do Pará.
"A reconstituição é uma prova auxiliar. Neste caso é mais importante porque não foi feito um laudo do local da morte. Podemos descobrir contradições no caso", disse Antonio Carlos Figueiredo dos Santos, perito criminal da PF.
Segundo Santos, a PF traçará um croqui do crime, com ajuda de equipamentos de localização por satélite, como o GPS. Uma produtora contratada pelo governo do Pará vai filmar, com duas câmeras, a reconstituição. As fitas serão usadas no inquérito.
De acordo com o delegado Waldir Freire, da Polícia Civil, também devem participar da reconstituição, que deve começar às 12h e durar até quatro horas, quatro testemunhas e os três acusados presos. Ontem, nove peritos em criminalística de Belém viajaram para participar da operação.
Peritos do Centro de Perícias Criminais Renato Chaves, em Belém, recolheram ontem a arma do crime e os quatro projéteis que estavam dentro do revólver para análises. (MS)

FSP, 24/02/2005, Brasil,, p.A8

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