O Globo, Ciência, p. 26
13 de Jul de 2010
Chuva destrói meio bilhão de árvores
Amazônia sofrerá ainda mais com aquecimento
Renato Grandelle
Em dois dias de tempestades, a Amazônia pode ter perdido até 663 milhões de árvores.
Um estudo inédito sobre o impacto das chuvas na floresta reacende o debate sobre o futuro da região, que, com as mudanças climáticas, pode receber precipitações ainda mais frequentes e severas nas próximas décadas.
Financiado pela Nasa e pela Universidade de Tulane, nos EUA, o estudo será publicado na próxima edição da revista "Geophysical University Letters". Pesquisadores americanos e brasileiros analisaram o estrago deixado, em janeiro de 2005, por uma linha de instabilidade tropical, como é chamado um aglomerado de tempestades em uma área que chega a mil quilômetros de extensão. As mortes de árvores, também atribuídas a ventos de até 140 km/h, fizeram a floresta deixar de capturar 23% do carbono mantido na região anualmente.
A área vitimada pelas precipitações foi mapeada por satélite e estudos de campo. Os pesquisadores estimam que as clareiras deixadas pelas tempestades são cobertas pelo crescimento da vegetação em até um ano.
- Este foi o primeiro projeto a mensurar a perda de árvores na Amazônia causada por uma série de tempestades - ressalta Carlos Raupp, um dos coautores do estudo e professor do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista. - A recuperação da floresta costuma ser rápida, mas sua velocidade varia de acordo com o regime de chuvas.
O mapeamento concluiu que entre 441 milhões e 663 milhões de árvores foram derrubadas em apenas dois dias de tempestades. É o equivalente a 30% da devastação anual da região de Manaus - cuja taxa de destruição da cobertura vegetal é uma das mais baixas de toda a floresta.
A pesquisa sobre a megatempestade nasceu no ano passado, quando outro levantamento, publicado pela revista "Science", calculou a perda de vegetação causada pela seca. De acordo com a publicação, a mortalidade da flora amazônica atingiu o pico em 2005, ano em que a floresta enfrentou uma das mais graves estiagens das últimas décadas.
Tempestade e seca no mesmo ano
Os pesquisadores, no entanto, não quiseram atribuir o pico de mortes apenas à seca - afinal, o fenômeno não atingira a Amazônia Central, área circundada por Manaus.
- Não queríamos culpar apenas a estiagem pela mortalidade crescente que chegou a certas partes da Bacia Amazônia - pondera Jeff Chambers, autor do levantamento sobre as tempestades e pesquisador da Universidade de Tulane. - Havia fortes evidências de que uma tempestade havia acabado com uma grande quantidade de árvores em uma área significativa da floresta.
Chambers e sua equipe, então, debruçaram-se sobre o impacto da linha de instabilidade que varreu a cobertura vegetal no início de 2005, o mesmo ano da seca recorde.
- É um fenômeno que ocorre com uma frequência considerável, principalmente entre dezembro e abril e do litoral norte para o sudoeste - explica Raupp. - As linhas chegam debilitadas a outras regiões do país, já que a duração dessas tempestades é de, no máximo, dois dias.
É possível verificar a causa mortis de cada árvore. Aquelas acometidas pela seca costumam definhar em pé e sem folhas; as vítimas da chuva normalmente estão caídas pelo solo.
Em regiões próximas a Manaus, até 80% das plantas devem sua morte aos temporais. Ainda assim, a Amazônia não conta com levantamentos indicando qual fator natural provocou mais devastação na floresta.
- Além das fraturas abordadas por este estudos, não podemos ignorar o desmatamento provocado pelo homem, cujas baixas podem chegar a dimensões ainda maiores com as mudanças climáticas - lembra Raupp.
A derrubada de árvores, independentemente da causa, faz com que a floresta capte menos carbono para fotossíntese. Uma quantidade maior de gases-estufa, portanto, é liberada para a atmosfera, contribuindo com o aquecimento global.
O aumento das temperaturas provoca maior vaporização. A formação de chuvas ganha frequência e severidade. E as linhas de instabilidade tendem a provocar impacto ainda mais significativo na Amazônia.
O Globo, 13/07/2010, Ciência, p. 26
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