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'Chocolate Yanomami' é aposta para evitar que garimpeiros recrutem jovens indígenas na Amazônia

G1 - https://g1.globo.com/
03 de mar de 2020

'Chocolate Yanomami' é aposta para evitar que garimpeiros recrutem jovens indígenas na Amazônia

Indígenas têm usado cacau nativo da Terra Yanomami como alternativa de geração de renda. Primeiro lote da iguaria esgotou no lançamento; segunda remessa deve ser lançada ainda no primeiro semestre deste ano, com acréscimo de até 50% na produção.

Por Fabrício Araújo, G1 RR

Para evitar que jovens indígenas sejam recrutados para garimpos ilegais, os povos que vivem na Terra Yanomami passaram a investir na produção de chocolate. O cacau usado no doce é nativo dos municípios de Amajarí e Barcelos, em Roraima e Amazonas.

Com a produção do chocolate, feito apenas com cacau e rapadura orgânica, os índios pretendem criar um impacto econômico na região nos próximos cinco anos e, assim, mostrar aos mais jovens que existem possibilidades para geração de renda fora dos garimpos.

O produto é desenvolvido pelas comunidades indígenas Yanomami e Ye'kuana com apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e supervisão do especialista em chocolate César de Jesus Mendes, o De Mendes.

"Este cacau diferente e natural só existe porque os índios estão protegendo a floresta e manejando ela há milhares de anos", explica Moreno Martins, representante do ISA, em Boa Vista.
Em Roraima não há garimpos legalizados. No entanto, a Fundação Nacional do Índio (Funai) estima que há entre 7 e 10 mil garimpeiros atuando na terra Yanomami. Para se ter uma ideia, em três anos o estado exportou 771 kg de ouro - a alta é considerada um recorde no último ano.

"Há muitos garimpeiros que chegam armados e com grandes quantidades de dinheiro nas comunidades indígenas aliciando os jovens para irem trabalhar no garimpo", frisa Martins.

A exploração ilegal na região já foi denunciada em carta aberta pelos povos indígenas. Eles apontaram o risco de massacre e exigiram a saída de garimpeiros da terra. A Terra Indígena Yanomami é a maior do país, com quase 10 milhões de hectares e população de 27 mil índios.

A primeira safra do cacau Yanomami rendeu mil barras de chocolate. O produto foi apresentado em dezembro de 2019 no Mercado de Pinheiros, em São Paulo, e esgotou logo no lançamento. Uma segunda remessa deve ser lançada ainda no primeiro semestre de 2020 com um acréscimo de até 50% na produção.

O cacau usado no "Chocolate Yanomami" pode ser ainda uma descoberta inédita. De acordo com o especialista em chocolates, De Mendes, existem mais de 35 mil tipos de cacau no mundo, todos com características específicas de sabor, textura, quantidade de polpa e sementes.

No caso do fruto nativo da Terra Yanomami, as características vão além da fertilidade da floresta amazônica.

"Tem notas de amêndoas, que é um sabor doce, tem um cheiro bastante adocicado também. É muito saboroso, lembra nozes e frutas secas. Sensorialmente falando, ele é muito elegante e sofisticado", descreve o especialista.
Ritual do cacau Yanomami

A receita para se chegar ao Chocolate Yanomami leva 69% de cacau, 2% de manteiga de cacau e 21% de rapadura orgânica - um tipo doce de cana-de-açúcar com sabor similar ao de açúcar mascavo.

A versão indígena da iguaria à base do elixir dos deuses - nome científico do cacau - foi desenvolvida por De Mendes.

O cacau passa por um verdadeiro ritual antes de se tornar o chocolate: os frutos são colhidos e depois separam-se os verdes dos muito maduros. Os selecionados são quebrados e fermentados por até nove dias, depois expostos ao sol para secar. Tudo no meio da floresta.

A produção indígena é transportada à cidade de Santa Bárbara, no Pará, onde fica a fábrica de chocolates de De Mendes. Já a rapadura orgânica é produzida por um movimento de sem terras do Paraná.

"O açúcar tradicional não oferece nutrientes, é só caloria, por isso escolhemos esta rapadura para este chocolate", explicou De Mendes. É na fábrica que a mistura ganha o formato da barra de chocolate.

Oficinas para indígenas
Visando um aumento na produção e impactos reais na economia em até cinco anos, os indígenas estão começando a plantar o cacau. Para isso, eles têm participando de oficinas desde 2018 com o especialista em chocolate, que os ensina a manejar a arvore que dá o fruto.

As aulas ocorrem na comunidade Waikas, em Amajarí, e costumam durar até doze dias. Entre homens, mulheres e crianças de todas as idades, são reservadas 50 vagas para que os indígenas aprendam a como fazer a poda e limpeza do cacaueiro. Uma nova oficina está programada para abril deste ano.

De Mendes também trabalha com pesquisas sobre chocolate e acredita que o fruto usado para produzir o chocolate Yanomami ainda não está catalogado. O fruto tem como características específicas a casca fina, grande quantidade de polpa e baixa acidez, o que é incomum na Amazônia.

Nativo da Amazônia brasileira, o cacau já se espalhou por outros lugares, como na Mata Atlântica. Para adaptar o cacaueiro em novos biomas, os produtores precisaram fazer cruzas genéticas - híbridos - do fruto, que resultaram em diversas ramificações.

G1, 03/03/2020, https://g1.globo.com/

https://g1.globo.com/rr/roraima/natureza/amazonia/noticia/2020/03/03/ch…

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