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Autor: Eliane Silva — Belém
24 de Abr de 2026
A expressão Sídia Wahiü, que significa mulher forte na língua do povo Xypaia, foi a marca escolhida para o primeiro chocolate indígena produzido na região do Médio Xingu, no Pará. Com 72% de cacau processado com pedaços finos de abacaxi, banana e pitaia é um dos destaques da 10ª edição do Chocolat Amazônia, que começou nesta quinta-feira (23/4) em Belém.
Katiana Xypaia, líder de sua comunidade em Vitória do Xingu, conta que o cultivo de cacau por lá vem desde a época do seu avô. "Ele colhia o fruto, moía e preparava chocolate para nós e também fazia licor com o mel do cacau."
A verticalizacao da produção atraiu parentes, aumentou as roças e, atualmente, a comunidade de Katiana maneja 20 mil pés de cacau, entre nativos e plantados. A oportunidade de gerar mais renda com a fabricação da própria barra surgiu em 2023, com a proposta da Coopatrans, cooperativa que produz o chocolate de origem com a marca Cacauway.
Após a colheita e seleção, as amêndoas são fermentadas na própria comunidade e enviadas para a agroindústria da cooperativa, em Medicilândia.
Com a agregação de valor, o cacau se tornou a principal renda da comunidade ribeirinha, que também comercializa frutas desidratadas como abacaxi e banana, seguindo o mesmo processo que era feito pelos avós de Katiana de secagem das frutas em pedras ao sol em um local sagrado.
Metade da produção vira chocolate de origem e outros derivados, 30% é comercializado como commodity e o restante é vendido para intermediários.
O chocolate da produtora, que se tornou também palestrante em eventos de chocolate no país, abriu caminho para o empreendedorismo indígena; surgiram mais quatro marcas indígenas de chocolate no Pará. Os produtos são vendidos em lojas da Cacauway, em feiras como a de Belém e também on-line.
Rita Aguiar, produtora de cacau e chocolatier da Cacauway, diz que a cooperativa reúne 40 famílias de agricultores familiares que têm no cacau sua principal renda. No total, eles cultivam 800 hectares em Medicilândia em SAF, sistema agroflorestal, com outras frutas.
Das cerca de 800 toneladas de cacau produzidas pelos cooperados, 15 vão para a fabricação do chocolate "tree to bar" (da árvore à barra).
Negócios e cotações
Com a participação de cerca de 300 produtores, a maioria da agricultura familiar, o Chocolat Amazônia tem a estimativa de movimentar R$ 15 milhões até domingo (26/4).
O empresário baiano Marco Lessa, idealizador e organizador do evento que terá edições neste ano também em Ilhéus, Salvador, Brasília, Altamira e em Portugal, disse que a feira tem como objetivo a geração de renda associada ao reposicionamento da cadeia, dando melhores condições aos produtores e expandindo o modelo de negócio brasileiro para o mercado internacional.
Lessa lembrou que o momento também é de reflexão sobre os rumos da produção cacaueira no Brasil, que enfrenta preços muito baixos neste ano.
"É necessário que a gente faça uma revisão sobre o cacau como commodity. Nós temos que ter um produto que impacte na vida dos produtores pagando melhor, estimulando a agroindústria a buscar o mundo."
Há um ano, o cacau era negociado na Bolsa de Nova York por cerca de US$ 8.000 a tonelada. Atualmente, o preço está por volta de US$ 3.000.
Produtores do Pará recebem das indústrias moageiras cerca de R$ 11,20 pelo quilo, que era vendido por R$ 44 no mesmo período de 2025, segundo cotação da consultoria Mercado do Cacau.
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