O Globo, O Pais, p.19
26 de Set de 2004
Chico Mendes recebe Título de Herói da Pátria
Inclusão do seringueiro no livro do Panteão não passou pelo Congresso e pode ser alvo de ações na Justiça
BRASÍLIA. Dezesseis anos depois de ser assassinado, aos 44 anos, na porta de sua casa, o ecologista e líder seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, entrará na lista dos heróis nacionais, junto com Tiradentes, o duque de Caxias, Zumbi dos Palmares e Dom Pedro I. Seu nome será inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, no Panteão da Pátria e da Liberdade, localizado na Praça dos Três Poderes em Brasília.
Mas a consagração de Chico Mendes como herói nacional pode ser alvo de protestos e ações na Justiça. O alerta é do diretor do Patrimônio Histórico e Artístico do Governo do Distrito Federal, Jarbas Silva Marques. Segundo ele, não houve respeito a um dos critérios estabelecidos pela legislação: só podem entrar no livro do Panteão pessoas que morreram há mais de 50 anos.
Entre ser um líder ambientalista e um herói da pátria há uma diferença muito grande. O Panteão foi criado para homenagear os construtores da liberdade, mediante critérios rígidos, sendo os principais a aprovação pelo Congresso Nacional e 50 anos depois da morte disse.
Entre as pessoas que deverão protestar contra a homenagem estão os juscelinistas, disse Marques. Para ele, o prazo mínimo de 50 anos foi fixado pela ditadura justamente para evitar que o nome de Juscelino Kubitschek fosse incluído no livro.
Por que Juscelino não pode ser um herói? Foi o único governante do país que teve um plano de governo com um exercício democrático em todo o período republicano disse.
Projeto foi sancionado pelo presidente Lula
Autora do projeto que concedeu a Chico Mendes o título de herói nacional sancionado e publicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva quinta-feira passada, no Diário Oficial da União a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, disse ontem que a homenagem é motivo de satisfação. Segundo ela, muitas vezes brasileiros que deram a vida pela causa nacional, como é o caso do seringueiro, são mais reconhecidos internacionalmente.
Quando apresentei o projeto, os senadores reagiram com ironia, dizendo que uma nomeação desse tipo levaria entre 50 e 100 anos, como aconteceu com Tiradentes. Mas eu perguntava para eles: como, se o nome de Chico Mendes já é consagrado no mundo inteiro? contou a ministra.
Marina Silva ressaltou a importância de Chico Mendes para a criação no país de uma nova ordem sócio-ambiental. Ela destacou que foi a partir da militância do líder seringueiro, também fundador do PT no Acre, que foram criadas grandes reservas ecológicas, como a reserva Chico Mendes no Acre, com mais de um milhão de hectares, e as reservas Cazimbá-Iracema e Alto Juruá.
O cientista político David Flescher, professor da Universidade de Brasília, salientou que Chico Mendes foi assassinado por causa de sua luta pelos desfavorecidos. O seringueiro, disse Flescher, foi um mártir que se sacrificou em favor da pátria. Para o cientista político, a lista de heróis está pequena. Em sua opinião, poderiam ser incluídos na relação os ex-presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.
O administrador do Panteão da Pátria e da Liberdade, Lamartine Mansul, lembrou que, além de Chico Mendes, outros dois nomes estarão expressos até dezembro no livro de aço da instituição: Plácido de Castro, que conquistou o estado do Acre, tirando-o dos bolivianos, e o almirante Tamandaré, patrono da Marinha brasileira.
Uma vida em defesa da natureza
BRASÍLIA. Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, era seringueiro e dedicou sua vida à luta em defesa dos trabalhadores e dos povos da floresta. Participou da fundação dos sindicatos dos trabalhadores rurais de Brasiléia e Xapuri, no Acre. Também foi um dos fundadores do PT no estado do Acre e do Conselho Nacional dos Seringueiros.
Ele nasceu no seringal Porto Rico, em Xapuri, em 15 de dezembro de 1944. Começou a trabalhar como seringueiro ainda criança. Em 1977, participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e foi eleito vereador pelo extinto MDB. Foi naquele ano que Chico Mendes começou a sofrer ameaças de morte por parte dos fazendeiros.
Sua luta em defesa da floresta teve reconhecimento internacional e, por isso, foi premiado várias vezes. Em 1987, foi considerado pela ONU o mais importante defensor da natureza. Em sua luta, Chico Mendes combinava a defesa da floresta com a reforma agrária reivindicada pelos seringueiros. Foi assassinado em 22 de dezembro de 1988 na porta de sua casa.
Quem são os heróis da pátria
Quem já está no Panteão
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes:líder da Inconfidência Mineira, foi enforcado em 1792 e é considerado o mártir da Independência.
Zumbi dos Palmares: Desafiou os escravocratas liderando o famoso Quilombo dos Palmares. Preferiu se lançar de um penhasco a ser algemado e voltar para o cativeiro.
Marechal Deodoro da Fonseca: marechal do Exército, foi o primeiro presidente do Brasil e o proclamador da República. Nasceu em Alagoas (cidade) hoje Deodoro, no dia 5 de agosto de 1827; faleceu no Rio de Janeiro em 23 de agosto de 1892.
Dom Pedro I: herdeiro da Coroa portuguesa em 1801, filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, foi o primeiro imperador do Brasil, proclamou a Independência no dia 7 de setembro de 1822.
Luís Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias: patrono do Exército brasileiro. Chegou a ser chamado de Conselheiro da Paz e Pacificador do Brasil. Recebeu o título de duque em 1869 por conta dos serviços prestados na guerra contra o Paraguai.
Quem vai entrar
Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes: líder seringueiro, fundador do PT no Acre e ecologista, foi assassinado em 1988.
Plácido de Castro: gaúcho, foi o grande responsável pela conquista do Acre, que estava nas mãos da Bolívia. Foi assassinado numa emboscada, em 1908.
Joaquim Marques Lisboa, o marquês de Tamandaré: patrono da Marinha brasileira, lutou na Guerra do Paraguai.
O Globo, 26/09/2004, p. 19
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