CB, Economia, p. 8 e 10
10 de Abr de 2005
Chegam os gringos
Empresários americanos, franceses, russos, alemães e chineses ocupam ou pretendem cultivar terras baianas, boas para o plantio de soja e algodão. Região cresce mais do que qualquer país
Carlos Alberto Jr.
Enviado especial
Nos últimos anos, o oeste baiano tem se consolidado como um dos principais pólos de atração de investimentos estrangeiros para o agronegócio brasileiro. Grupos de empresários dos Estados Unidos, Bélgica, Suíça, França, Rússia, China, Argentina e Alemanha são presença constante na região. Querem conhecer pessoalmente o local que registrou, nos últimos dez anos, taxa de crescimento médio anual de 10% (nenhum país tem essa marca, nem mesmo a China) em área cultivada e de 22% em produção.
Desde 2001, mais de US$ 100 milhões foram injetados na economia regional. Além de grandes corporações, fazendeiros e investidores individuais têm visitado fazendas nos municípios de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, atraídos pela qualidade e baixo custo da terra, condições climáticas excelentes para o cultivo de culturas como soja e algodão, custo de produção competitivo e altas taxas de retorno.
Há duas semanas, um grupo de 15 americanos e um sul-africano passou cinco dias em fazendas no eixo Barreiras-Luís Eduardo Magalhães. A maioria era de pequenos e médios fazendeiros do meio-oeste e noroeste dos Estados Unidos. Levantaram preços de algumas propriedades, opções de financiamento, diferenças na legislação e a possibilidade de contratar um administrador profissional para gerenciar um eventual investimento no país. "Gostei do clima, da qualidade da terra e vou investir no Brasil", conta o fazendeiro Dennis Kasparbauer, 52 anos. Nascido e criado na pequena Manning, no estado de Iowa, Kasparbauer decidiu procurar algum fundo de investimento especializado no agronegócio brasileiro (leia texto na página 10).
Os estrangeiros costumam ficar fascinados com o que encontram no Brasil. "Não acreditava no que via. Terras disponíveis e baratas, temperatura perfeita para o cultivo de algodão, o período de chuvas acaba na hora correta e a taxa de retorno sobre o investimento é o dobro da que conseguimos nos Estados Unidos", avalia Luke Harris, agricultor do Alabama. A família de Harris cultiva mil hectares de algodão nos EUA, mas o contínuo aumento dos preços da terra e a perspectiva de redução dos subsídios pagos pelo governo americano inviabilizam o aumento da área de plantio. Em 2001, Harris veio conhecer o Brasil.
"Há 20 anos tenho vontade de vir para cá, mas a instabilidade econômica não permitia investimentos", diz o americano de 49 anos, que avalia a possibilidade de arrendar ou comprar uma área de mil hectares para plantar algodão.
A Secretaria de Agricultura de Luís Eduardo Magalhães, a 90 quilômetros de Barreiras, contabiliza 28 grupos brasileiros e estrangeiros na região. "Nossa maior deficiência é a de infra-estrutura para escoar a produção", diz Eduardo Yamashita, secretário de Agricultura, Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente. Estradas ruins e armazéns insuficientes são alguns dos entraves ao crescimento mais acelerado da região. Um dos projetos em andamento para reduzir os gargalos é a construção de uma ferrovia entre Luís Eduardo e o porto de Salvador ou o de Campinho, no sul da Bahia. "Os estudos de viabilidade econômica estão sendo conduzidos por alguns consórcios internacionais", afirma Yamashita. Há grupos da Alemanha, Itália e China interessados no empreendimento.
Infra-estrutura
Proprietário de uma área de 22 mil hectares de soja e algodão, o empresário Walter Horita, do grupo Horita, também aponta a falta de infra-estrutura como um dos principais problemas. "O ritmo seria bem maior se houvesse melhores condições de escoamento da safra", avalia. Este ano, o grupo deve colocar no mercado 2,4 milhões de toneladas de soja e 300 mil toneladas de algodão em pluma. Cerca de 40% da produção é exportada.
Sem condições de expandir a produção nos EUA, os americanos têm buscado oportunidades em território brasileiro para escapar do alto preço da terra em seu país, da dificuldade de ampliar a área plantada e da provável redução dos subsídios oficiais à produção de soja e algodão. No mês passado, a Organização Mundia do Comércio (OMC) decidiu a favor do Brasil numa disputa com os EUA relacionada aos subsídios à exportação concedidos aos produtores de algodão. Segundo a OMC, o apoio financeiro do governo americano provoca distorções no preço internacional do produto, prejudicando agricultores em diversos países.
Competição
Segundo um estudo do banco central americano, os subsídios concedidos por Washington representaram 43% do lucro líquido das fazendas em 2001. Sem tais incentivos, informa o documento, muitos agricultores seriam incapazes de honrar suas dívidas. Se os EUA reduzirem essa ajuda financeira, conforme decisão da OMC, grande número de fazendeiros não terá condições de continuar no negócio. Há dúvidas se a era do suporte oficial está perto do fim. "Os subsídios não vão acabar", diz Dan Mason, agricultor de milho e soja em Kempton, Indiana. O lobby de empresas e bancos não permitirá, pois é com esse dinheiro que os fazendeiros movimentam a cadeia do agronegócio norteamericano, comprando máquinas e equipamentos, terras e fertilizantes.
O movimento mais previsível é a transferência dos subsídios à exportação para outra etapa da cadeia produtiva. Os crescentes preços da terra nos EUA estão entre os principais motivos do desembarque dos gringos no Brasil. Enquanto um hectare custa cerca de US$ 7, 5 mil nos Estados Unidos, aqui pode ser comprado por valores entre US$ 750 e US$ 2 mil.
Melhora interesse estrangeiro
O interesse de americanos pelo agronegócio brasileiro tem crescido em ritmo acelerado. No Consulado-Geral do Brasil, em Chicago, o número de pedidos de vistos de fazendeiros do meio-oeste dos Estados Unidos dobrou nos últimos dois anos. Os principais destinos procurados são as regiões do oeste baiano, do Triângulo Mineiro e do Mato Grosso. Apenas nos últimos 45 dias, foram concedidos mais de 140 vistos para fazendeiros, empresários e pesquisadores que vieram conhecer as técnicas da Embrapa de combate à praga da ferrugem na soja. A doença atingiu lavouras de vários estados, mas nos EUA não havia tecnologia adequada contra sua propagação.
Para evitar problemas com as autoridades brasileiras, o consulado em Chicago passou a exigir dos fazendeiros a assinatura de um documento pelo qual eles se comprometem a não comprar terras no Brasil com visto de turista. Não há impedimento legal para estrangeiros comprarem imóveis ou realizarem qualquer tipo de investimento no país, desde que possuam o visto adequado. O Brasil possui uma modalidade de visto permanente, com duração de cinco anos, que credencia estrangeiros a investir no país legalmente.
Interesse de estrangeiros com dinheiro para investir em terras brasileiras justificou a criação de serviços especializados na identificação de boas oportunidades de negócios na área agrícola
Um atalho para vencer no Brasil
Carlos Alberto Jr.
Enviado especial
As oportunidades oferecidas pelo agronegócio têm permitido o surgimento de empresas especializadas em trazer fazendeiros e investidores estrangeiros ao Brasil. Uma das mais atuantes é a AgBrazil. Estabelecida no estado do Missouri, a empresa foi criada em 2000 pelo americano Philip Warnken, um ex-professor de economia agrícola da Universidade do Missouri. Um ano depois, Warnken levou ao oeste baiano um grupo de 15 agricultores dos Estados Unidos, Canadá, Zâmbia e Zimbábue. "Os interessados são, em geral, produtores bem capitalizados e com espírito de aventura para investir num país estrangeiro", explica Warnken. Desde 2001, mais de 500 estrangeiros, a maioria americanos, estiveram no oeste da Bahia por intermédio da AgBrazil. Menos de 5% deles decidiram investir na região. Os estrangeiros ficam atraídos pelo baixo preço da terra, mas quando descobrem que no Brasil não há subsídios como nos EUA nem financiamento a baixo custo, desistem. "Enquanto aqui o prazo de pagamento varia entre três e cinco anos, nos Estados Unidos é de 25 anos. Sem falar nas taxas de empréstimo, que lá são inferiores a 5% ao ano", diz.
Há dois grupos distintos de interessados no Brasil. O primeiro é de fazendeiros tradicionais em busca de terras mais baratas que permitam a expansão de seus negócios. O outro é de investidores. São profissionais liberais querendo diversificar suas aplicações financeiras. Colocam o dinheiro em fundos de investimento especializados no agronegócio ou contratam administradores locais para gerenciar uma fazenda em troca do lucro obtido com a venda da colheita. Como o custo do dinheiro é muito alto no Brasil, alguns investidores estão tomando empréstimos a taxas mais baixas nos EUA e trazendo os recursos para cá. É o caso de outro grupo americano em operação no Brasil, a Fazenda Iowa Ltda. Com farta publicidade em veículos de comunicação nos EUA, a empresa atrai interessados em investir no oeste baiano com o slogan "Expandindo as fazendas da América". No material de divulgação, a companhia explica que foi criada por agroindustriais insatisfeitos com a falta de oportunidades na agricultura norte-americana. O futuro, afirma o grupo, está no Brasil. As operações da Fazenda Iowa Ltda. são garantidas por investidores americanos. O grupo já conseguiu levantar US$ 13 milhões. O dinheiro é usado para financiar a compra e a operação de terras para o cultivo de milho, soja e algodão na região de Luís Eduardo Magalhães. O principal argumento da empresa para conquistar adeptos é financeiro. Devido ao baixo custo do capital americano, uma fazenda brasileira capitalizada por investidores americanos torna a propriedade mais competitiva do que uma unidade que recebeu recursos levantados no mercado financeiro do Brasil.
Pioneiro
O americano Clay Earl, 43 anos, foi para Barreiras com os pais no início da década de 70. Numa área de 4,5 mil hectares, a família plantou diversas culturas durante mais de 20 anos. Sem capital para investir, há alguns anos Clay decidiu arrendar as terras da família, algumas para americanos trazidos pela AgBrazil. O próprio Clay é um associado da empresa. Além de ajudar na organização das viagens pela região, começou a administrar uma fazenda para um investidor dos EUA e tem levado outros interessados para identificar possíveis oportunidades no Piauí. "Geralmente sou procurado por estrangeiros que já estiveram na região e voltaram para obter mais detalhes antes de decidir se vão investir no país", afirma Clay. O fim da inflação e a abertura da economia brasileira também colaboraram para criar novas oportunidades de negócios. Há sete anos no Brasil, o neo-zelandês Stuart Donald especializouse no desenvolvimento de projetos para empresas interessadas em investir no país. De sua consultoria em Valinhos (SP), a Agrifrontier Management, Consultancy & Investment in Agribusiness, Donald também identifica oportunidades em Mato Grosso e na Bahia para estrangeiros dispostos a correr algum risco com a economia brasileira. Seu próximo empreendimento é a criação de um fundo em agronegócios. Segundo ele, cerca de dez pessoas já manifestaram intenção de participar da empreitada. "São necessários cerca de US$ 10 milhões para começar um projeto de porte", afirma. A criação de gado leiteiro é apontado por ele como um dos negócios de grande potencial na região de Barreiras.
Aventura americana
Luís Eduardo Magalhães Criado numa fazenda no estado do Missouri, o americano Brian Willott vive no Brasil sua maior aventura. Filho de agricultores, Willott, de 32 anos, conheceu a região do oeste baiano em 2003, por intermédio da AgBrazil, empresa especializada em trazer investidores e fazendeiros americanos em busca de oportunidades no país. Identificada a possibilidade de bons retornos financeiros, Willot conseguiu quatro sócios e deixou os Estados Unidos para cultivar soja e algodão numa área arrendada de 400 hectares em Luís Eduardo Magalhães (BA). O investimento inicial de US$ 1,25 milhão deve ser recuperado já nesta primeira safra, e irá garantir o arrendamento de uma área maior no próximo período de plantio. "Vim pela oportunidade de obter bons lucros. Espero um retorno mínimo de 20% sobre o investimento", afirma Willot.
Depois da decisão de mudar- se para a Bahia, Willott passou dez meses estudando a legislação brasileira e as diferenças entre o cultivo da soja aqui e nos EUA. "Cresci numa fazenda e conheço o processo de produção. Quando meus pais se casaram, alguns convidados jogaram arroz nos noivos. Outros jogaram soja", conta, como exemplo de que domina o assunto. "Mesmo com todo o conhecimento, é preciso humildade para reconhecer que a soja no Brasil é diferente. Aqui há mais insetos e mais doenças.
Essa é a primeira dificuldade que o agricultor americano precisa superar ao decidir vir para cá. Não pode ser cabeçadura", explica, numa mistura de português e inglês. (CAJr)
Arma contra ajuda financeira irregular
Formado em economia agrícola pela Universidade do Missouri e com um mestrado na área, o americano Brian Willott trabalhou entre 1989 e 2005 para o Instituto de Pesquisa de Política em Alimento e Agricultura. A entidade, patrocinada pelo governo, é encarregada de estudar o impacto dos subsídios agrícolas na economia americana para o Congresso. Ali, Willott ajudou a melhorar o modelo que analisa o suporte financeiro oficial aos produtores de soja, arroz, milho, trigo, algodão e cevada. "Além de prever como os subsídios vão afetar o mercado num prazo de dez anos, o modelo permite ao governo decidir quanto pretende gastar anualmente com os agricultores", explica. O fato curioso nessa história é que o governo brasileiro utilizou o modelo de Willott na disputa com os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC). Graças ao estudo, o Brasil conseguiu comprovar que os subsídios concedidos pelos americanos distorciam o preço internacional do algodão e causavam prejuízos aos produtoresnacionais. Os EUA também usaram partes do modelo para tentar provar que o apoio financeiro não provocavadanos ao setor. "Fiquei chateado quando soube, porque o trabalho não foi feito para isso. É um modelo matemático para ajudar o governo a ter informações que garantissem, por meio dos subsídios, a oferta de produtos no mercado", analisa.
Willott não tem data para deixar o Brasil. Para ele, estar aqui é um desafio pessoal . Os 400 hectares arrendados em Luís Eduardo representam o dobro do que sua família sempre cultivou nos EUA. (CAJr)
CB, 10/04/2005, Economia, p. 8, 10
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