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Chega de humilhação, queremos respeito!

Dourados News-Dourados-MS
Autor: * PAULO CÉSAR GOMES "TERENA"
04 de Jan de 2006

Durante os últimos dias do mês de dezembro/05, acompanhamos estarrecidos, matérias com referência ao novo "Capitão" - Cacique, da reserva indígena Jaguapirú. Onde o órgão que deveria nos proteger, apoiar e participar, sequer deu atenção, e mencionou ser "grupo isolado" e, portanto, não seria reconhecida por ela. Como coordenador da campanha interna da reserva indígena - disse INTERNA, para o processo de escolha do novo capitão através de voto secreto, ao término de todo o processo eleitoral até a contagem de votos, recebi agradecimentos, congratulando com a lisura da eleição, sem qualquer incidente, enfim, uma eleição que todos elogiaram, até porque não tivemos a interferência externa para realizarmos a eleição.

E sem dúvida alguma, os méritos são de todos que colaboraram, desde os candidatos aos fiscais. Rebatemos a Funai quando diz que os guaranis e caiuás são manipulados pelos terenas. Não é verdade, tanto é que o eleito, cacique Renato de Souza, é Guarani, sobrinho de um dos maiores líderes indígenas que o Brasil já teve, Marçal de Souza - Tupã-Y, que sempre defendeu os povos indígenas neste Brasil afora. Sempre que as matérias veiculadas na imprensa local reportando que a Funai não reconhece e não tem legitimidade a eleição, informava que "a chefia" local não reconhece, não mencionando o nome da pessoa entrevistada. Falta de respeito para com nosso povo, até porque quando vamos reivindicar, ou mesmo criticar dizemos nossos nomes.

A Funai não tem que opinar através da mídia o que nós precisamos, o que nós queremos, o que ela "acha" que é bom para nós. Como tutora tem que nos apoiar, e acima de tudo respeitar nossas vontades, pois não foi um grupo isolado que organizou todo o processo eleitoral e convocação da comunidade para votar. Ela sim foi omissa em não se fazer presente ou mandar representante para acompanhar as eleições. Falta de respeito para com as 600 pessoas que foram votar e creio que 600 pessoas não seja um grupo isolado, fruto de manipulação. A CF/88, Art. 1o, Parágrafo Único, diz "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos...".

Reconhecer ou não é um problema da Funai. Já estamos cansados de termos que engolir seco tudo o que ela "acha" que é bom para nós. Vem de "fora", para não dizer de Brasília, não conhece nossos problemas, não convive com nossas famílias, e "acha" que o que "maquinou" é o importante para nós.

Primeiramente, temos que ter respeito para podermos ser respeitados. E isso nos foi tirado. É ruim para todos essas declarações da Funai local. Causa insegurança, e descrédito. Respeito todas as lideranças indígenas, os caciques, até a Funai, apesar de tudo. Mas o meu respeito maior vem daqueles que nos ouviram, acreditaram em propostas para dias melhores, e foi, através de eleição, escolher o novo representante, democraticamente depositando seu voto, meio legal e legítimo de consagrar nossa vontade. Não foi um grupo isolado que trabalhou durante o período eleitoral, e sim o anseio da comunidade local.

Gostaríamos que ela se calasse, ao invés de dizer asneiras. Há mais de 500 anos somos humilhados, não temos DIREITO DE ESCOLHA, não somos ouvidos. É através deste tipo de procedimento que causa insegurança. Está prevista constitucionalmente a nossa vontade em escolher nossos representantes. A Carta Magna de 88 nos garante esta escolha. Não será a Funai que nos tirará isso. Não embasamos em pequenos grupos e anseio de minoria, mas sim da MAIORIA. Ela sim deveria, pelo menos, nos "RECEBER" e, juntos trabalharmos para a melhoria da nossa reserva. E não colocar empecilhos. Já passaram pelo "Núcleo" da Funai várias pessoas, cada qual com seu tipo e temperamento. Mas todos ouviram primeiramente o que nós pensamos. Ainda que a contragosto, mas ouviram.

Torna-se inconcebível este tipo de procedimento, ela tem que saber respeitar a decisão da maioria. Chega de intolerância. Quando um representante não está a contento, torna-se questionável sua indicação. O diálogo é o melhor caminho para trilharmos. E RESPEITO não faz mal a ninguém. Não ignoramos a Funai, como matéria veiculada em jornal local, ela sim está nos ignorando e tirando nossa liberdade de escolha, o que é mais grave. Diz ainda que não será levada em consideração o resultado da eleição. Isso todos nós sabemos. Ela própria não nos considera como seres humanos, então porque considerar "um resultado eleitoral"?

Como disse aos presentes no dia da posse do capitão, que não penso só em minha pessoa, nos meus vizinhos, na minha comunidade. Penso e pretendo vislumbrar novos tempos e melhorias para os nossos filhos, netos que estão vindo. E tudo depende de nós lutarmos hoje, para colhermos alegrias e resultados amanhã. E não será este tipo de agressão que nos calará. Repito o que disse anteriormente, que o que nós queremos é RESPEITO PELA NOSSA DIGNIDADE. Pois não somos objetos. Pensamos, falamos e agimos. E ao pensarmos, falarmos e agirmos, nos são colocados obstáculos pelo órgão que deveria nos proteger.

Orgulho-me de ser índio Terena, nascido e criado na reserva indígena Jaguapirú. Gostaria de usar este espaço para compartilhar com todos bons momentos. E espero isso no decorrer do ano que se inicia. Finalizando faço um agradecimento a todos que nos apoiaram, incentivaram, e estão sendo solidários neste momento. Aos colegas de faculdade, advogados, empresários, a mídia como um todo. Agradecimento especial a você indígena que não mediu esforços e foi depositar na urna sua esperança de dias melhores.

Paulo César Gomes "Terena" é Acadêmico de Direito e foi o

* PAULO CÉSAR GOMES "TERENA"

Durante os últimos dias do mês de dezembro/05, acompanhamos estarrecidos, matérias com referência ao novo "Capitão" - Cacique, da reserva indígena Jaguapirú. Onde o órgão que deveria nos proteger, apoiar e participar, sequer deu atenção, e mencionou ser "grupo isolado" e, portanto, não seria reconhecida por ela. Como coordenador da campanha interna da reserva indígena - disse INTERNA, para o processo de escolha do novo capitão através de voto secreto, ao término de todo o processo eleitoral até a contagem de votos, recebi agradecimentos, congratulando com a lisura da eleição, sem qualquer incidente, enfim, uma eleição que todos elogiaram, até porque não tivemos a interferência externas para realizarmos a eleição.
E sem dúvida alguma, os méritos são de todos que colaboraram, desde os candidatos aos fiscais. Rebatemos a Funai quando diz que os guaranis e caiuás são manipulados pelos terenas. Não é verdade, tanto é que o eleito, cacique Renato de Souza, é Guarani, sobrinho de um dos maiores líderes indígenas que o Brasil já teve, Marçal de Souza - Tupã-Y, que sempre defendeu os povos indígenas neste Brasil afora. Sempre que as matérias veiculadas na imprensa local reportando que a Funai não reconhece e não tem legitimidade a eleição, informava que "a chefia" local não reconhece, não mencionando o nome da pessoa entrevistada. Falta de respeito para com nosso povo, até porque quando vamos reivindicar, ou mesmo criticar dizemos nossos nomes.
A Funai não tem que opinar através da mídia o que nós precisamos, o que nós queremos, o que ela "acha" que é bom para nós. Como tutora tem que nos apoiar, e acima de tudo respeitar nossas vontades, pois não foi um grupo isolado que organizou todo o processo eleitoral e convocação da comunidade para votar. Ela sim foi omissa em não se fazer presente ou mandar representante para acompanhar as eleições. Falta de respeito para com as 600 pessoas que foram votar e creio que 600 pessoas não seja um grupo isolado, fruto de manipulação. A CF/88, Art. 1o, Parágrafo Único, diz "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos...". Reconhecer ou não é um problema da Funai. Já estamos cansados de termos que engolir seco tudo o que ela "acha" que é bom para nós. Vem de "fora", para não dizer de Brasília, não conhece nossos problemas, não convive com nossas famílias, e "acha" que o que "maquinou" é o importante para nós.
Primeiramente, temos que ter respeito para podermos ser respeitados. E isso nos foi tirado. É ruim para todos essas declarações da Funai local. Causa insegurança, e descrédito. Respeito todas as lideranças indígenas, os caciques, até a Funai, apesar de tudo. Mas o meu respeito maior vem daqueles que nos ouviram, acreditaram em propostas para dias melhores, e foi, através de eleição, escolher o novo representante, democraticamente depositando seu voto, meio legal e legítimo de consagrar nossa vontade. Não foi um grupo isolado que trabalhou durante o período eleitoral, e sim o anseio da comunidade local.
Gostaríamos que ela se calasse, ao invés de dizer asneiras. Há mais de 500 anos somos humilhados, não temos DIREITO DE ESCOLHA, não somos ouvidos. É através deste tipo de procedimento que causa insegurança. Está prevista constitucionalmente a nossa vontade em escolher nossos representantes. A Carta Magna de 88 nos garante esta escolha. Não será a Funai que nos tirará isso. Não embasamos em pequenos grupos e anseio de minoria, mas sim da MAIORIA. Ela sim deveria, pelo menos, nos "RECEBER" e, juntos trabalharmos para a melhoria da nossa reserva. E não colocar empecilhos. Já passaram pelo "Núcleo" da Funai várias pessoas, cada qual com sue tipo e temperamento. Mas todos ouviram primeiramente o que nós pensamos. Ainda que contragosto, mas ouviram.
Torna-se inconcebível este tipo de procedimento, ela tem que saber respeitar a decisão da maioria. Chega de intolerância. Quando um representante não está a contento, torna-se questionável sua indicação. O diálogo é o melhor caminho para trilharmos. E RESPEITO não faz mal a ninguém. Não ignoramos a Funai, como matéria veiculada em jornal local, ela sim está nos ignorando e tirando nossa liberdade de escolha, o que é mais grave. Diz ainda que não será levada em consideração o resultado da eleição. Isso todos nós sabemos. Ela própria não nos considera como seres humanos, então porque considerar "um resultado eleitoral"?
Como disse aos presentes no dia da posse do capitão, que não penso só em minha pessoa, nos meus vizinhos, na minha comunidade. Penso e pretendo vislumbrar novos tempos e melhorias para os nossos filhos, netos que estão vindo. E tudo depende de nós lutarmos hoje, para colhermos alegrias e resultados amanhã. E não será este tipo de agressão, que nos calará. Repito o que disse anteriormente, que, o que nós queremos é RESPEITO PELA NOSSA DIGNIDADE. Pois não somos objetos. Pensamos, falamos e agimos. E ao pensarmos, falarmos e agirmos, nos são colocados obstáculos pelo órgão que deveria nos proteger.
Orgulho-me de ser índio Terena, nascido e criado na reserva indígena Jaguapirú. Gostaria de usar este espaço para compartilhar com todos bons momentos. E espero isso no decorrer do ano que se inicia. Finalizando faço um agradecimento a todos que nos apoiaram, incentivaram, e estão sendo solidários neste momento. Aos colegas de faculdade, advogados, empresários, a mídia como um todo. Agradecimento especial a você indígena que não mediu esforços e foi depositar na urna sua esperança de dias melhores.

Paulo César Gomes "Terena" é acadêmico Direito e foi o presidente da Comissão Eleitoral - pcgdireito@yahoo.com.br

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