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Chance na floresta

O Globo, Opiniao, p.6
12 de jun de 2005

Chance na floresta

O crescimento acelerado do processo de devastação da Floresta Amazônica, ano após ano, pode não ser incontrolável como parece. Embora os precedentes recomendem a precaução de evitar mesmo a mais tímida manifestação de otimismo, pelo menos há no cenário um fato novo e de vulto: a prisão de cerca de cem pessoas envolvidas no desmatamento, em seis estados e no Distrito Federal, como resultado da Operação Curupira.

Voltada para a exploração ilegal de madeira, esta foi a maior investigação na história da Polícia Federal, e produziu a chocante revelação de que altos funcionários do Ibama estavam envolvidos num esquema de corrupção que permitiu, em dez anos, a extração de quase dois milhões de toras de madeira. Somente nos dois últimos anos, as fraudes permitiram o desmatamento de 43 mil hectares.

A operação foi montada a partir de dados obtidos pelo procurador da República em Mato Grosso, Mário Lúcio Avelar, que em entrevista ao GLOBO não hesitou em afirmar que o crime organizado tem o controle do Ibama na Amazônia Legal. Controle que é, ou era, exercido no vácuo da inércia dos governos federal e estaduais — por cumplicidade ou, no primeiro caso, por desorganização e incompetência.

Cabe agora ao poder central demonstrar que, se a Operação Curupira, como parece fora de dúvida, foi montada como reação à imensa repercussão que teve a notícia da destruição recorde da floresta nos 12 meses anteriores a agosto de 2004, pelo menos o afastamento dos chefes do esquema de fraudes que dela resultou permitirá que se opere uma mudança real no panorama.

Com o Ibama livre da quadrilha que o dominava, principalmente em Mato Grosso, o governo tem a oportunidade de revelar uma competência administrativa que até agora não foi vista e começar a exercer uma fiscalização realmente eficaz. Não se trata de tentar ingenuamente manter a floresta intocável, nem de ignorar que há muito outros fatores em questão, além das madeireiras — o avanço da fronteira agropecuária, as queimadas, a grilagem de terras etc. — mas de dotar de um mínimo de eficiência os instrumentos disponíveis para conter o avanço da destruição.

O Globo, 12/06/2005, Opinião, p.6

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