O Globo, Opinião, p. 6
17 de Mar de 2004
Cerco ideológico
Não é de hoje que a agricultura tem funcionado como o mais eficiente motor da economia brasileira. Ficou distante no passado aquele setor relegado a segundo plano, sinônimo de atraso, preocupado apenas em colher alimentos e despachá-los in natura para o consumo. As fazendas tornaram-se pólos de agronegócios, um sistema produtivo cuja cadeia beneficia, e muito, as cidades.
Hoje, 37% dos empregos na economia e 27% do PIB são gerados por essa cadeia. O superávit comercial da agropecuária mantém o país solvente diante dos credores externos - e continua a melhorar os indicadores externos da economia. Deve-se colher este ano mais uma safra recorde: 130 milhões de toneladas, 8% acima dos pouco mais de 120 milhões de toneladas do período anterior. Tudo em meio a enormes ganhos de produtividade: desde 1995, a produção mais que dobrou (125%), enquanto a área plantada expandiu-se apenas 14%.
No centro dessa revolução está a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), cujos projetos têm sido a mola propulsora dessa histórica explosão do agronegócio no Brasil. Pois, apesar disso, a Embrapa corre sérios riscos por causa da interferência política no seu trabalho, como noticiado no domingo pelo GLOBO. Grande usina geradora de soluções tecnológicas que passaram a situar o Brasil, segundo estudos da ONU, como o provável maior produtor de alimentos do mundo dentro de 12 anos, à frente dos Estados Unidos, a Embrapa já reduziu o ritmo das pesquisas, por causa da interferência de militantes sindicais. Um dado: em 2002, a empresa registrou 39 patentes; no ano passado, apenas 13.
A História ensina que ideologia não rima com ciência. E sempre que as duas se misturam, a ciência é derrotada. Tudo indica, é o que começa a acontecer na Embrapa. O assunto merece, no mínimo, uma reflexão por parte dos altos escalões do governo. Essa ameaça que paira sobre o futuro da agropecuária é maior que a de qualquer praga. O cerco ideológico à Embrapa, pela sua gravidade, também deve merecer atenção do Congresso e da comunidade científica. Estão em jogo questões estratégicas para o país.
O Globo, 17/03/2004, Opinião, p. 26
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