O Globo, Ciência, p. 30
25 de Mai de 2010
Censo das plantas brasileiras
Pesquisadores fazem cadastro inédito, com dados sobre 41.121 espécies da flora
Renato Grandelle
As mais de 41 mil espécies de flora distribuídas país adentro ganharam um ponto de encontro. Todas foram listadas por um exército de 400 pesquisadores e publicadas no site do Jardim Botânico.
A iniciativa, uma das exigências impostas aos signatários da Convenção sobre a Diversidade Biológica da ONU, sucede a um levantamento realizado mais de 100 anos atrás pelo botânico Carl Von Martius - que, em 1906, foi o primeiro, e último, a publicar um trabalho sobre as espécies de plantas conhecidas até então (eram 22 mil).
Idealizada pelo Ministério do Meio Ambiente, a lista foi elaborada pelo Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), vinculado ao Jardim Botânico. O projeto, iniciado há pouco mais de um ano, fez do dinamismo a sua palavra de ordem. E não poderia ser de outra forma, considerando que, no Brasil, uma espécie nova de planta é descrita a cada dois dias em trabalhos científicos.
- Estima-se que o Brasil tenha quase 15% de todas as espécies de flora cuja descoberta já é reconhecida - revela Gustavo Martinelli, coordenador do CNCFlora. - Uma estimativa aceita pela literatura é de que o país teria entre 50 mil e 60 mil espécies. Há um mundo inteiro a ser descoberto. Por isso desenvolvemos um sistema online para que nossos especialistas atualizem constantemente a lista desenvolvida. E assim o trabalho continua vivo.
A dimensão do território nacional atrasou a publicação de um trabalho que substituísse o clássico Flora brasiliensis, de Von Martius, pioneiro na descrição de muitas espécies conhecidas atualmente. Mesmo com as realizações do botânico alemão, o Brasil ainda era considerado, até a semana passada, o único país de importante biodiversidade que não contava com uma lista geral de suas plantas.
- Houve uma defasagem muito grande do trabalho de Von Martius, porque, desde o início do século passado, nunca se conseguiu fazer uma obra que abrangesse todo o país, embora alguns trabalhos regionais tenham sido publicados - explica a botânica Paula Leitman, assistente de coordenação da Lista de Espécies. - A dificuldade de articulação dos cientistas só foi superada agora, em nome de uma adequação do país às metas de registro da biodiversidade impostas em acordos internacionais.
Etapa vencida, vamos às próximas: uma delas será a atualização das espécies ameaçadas de extinção, revista pela última vez em 2008. Outra é avaliar o estado de conservação das espécies. Um workshop internacional será realizado no mês que vem para determinar como cumprir esta proposta.
Entre as 41.121 espécies descritas pelos taxonomistas brasileiros, destacam-se os grupos de angiospermas (31.258) e fungos (3.633) - aqueles que são associados a plantas foram incluídos na lista, seguindo uma metodologia adotada em levantamentos de outros países. Junto ao nome científico de cada uma há sua distribuição geográfica, a forma como é conhecida e informações adicionais - por exemplo, se a espécie é ou não endêmica (exclusiva do território nacional).
Amostras digitais chegarão ao Rio
Quartel-general do levantamento, o Jardim Botânico do Rio receberá reforços em seu acervo nos próximos meses. Será nele a sede do Herbário Virtual das Espécies Brasileiras de Plantas, que contará com R$ 3 milhões de investimento do Fundo de Amparo à Pesquisa do Rio (Faperj). O herbário é resultado de um convênio entre o CNPq e instituições europeias, que vão digitalizar cerca de 10 milhões de suas amostras vegetais, boa parte de interesse estratégico para o Brasil, por terem sido colhidas aqui em expedições científicas desde o século XVII. A iniciativa tem apoio do Museu Nacional de História Natural da França e do inglês Royal Botanic Gardens.
O Globo, 25/05/2010, Ciência, p. 30
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