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Cenibra dobra producao e causa 'boom' florestal

GM, Agronegocio, p.A1, B12
22 de Set de 2005

Cenibra dobra produção e causa "boom" florestal
Fazendeiros de Minas concluem que plantar árvores rende mais que a pecuária bovina.
A Cenibra - Celulose Nipo Brasileira abate 60 mil árvores todos os dias, para atender à produção de 900 mil toneladas anuais de celulose em sua fábrica, localizada no município de Belo Oriente, a 250 quilômetros a leste da capital mineira. Em decorrência da sua decisão de duplicar a produção, anunciada há algumas semanas, a empresa está sendo assediada por fazendeiros, interessados em trocar a pecuária pela exploração da madeira, com o objetivo de fornecer parte das novas florestas para alimentar os seus fornos.
O interesse pela atividade decorre, segundo os proprietários rurais, da rentabilidade do negócio, pelo menos três vezes superior à da pecuária. Atualmente, 730 deles já estão plantando eucalipto - a espécie adotada. Um número ainda maior se candidatou à expansão. "Neste ano, oferecemos 2 mil hectares aos fazendeiros e em 2006 serão 10 mil. Apesar do aumento da área, não atenderemos à demanda", revela o engenheiro Germano Aguiar Vieira, superintendente florestal da companhia.
A empresa poderia terceirizar a produção florestal, como fazem as fábricas de papel e celulose da Finlândia, que não plantam uma única árvore, segundo informou. Mas, em Minas Gerais, a Cenibra enfrenta grandes concorrentes na utilização da madeira, que são as indústrias siderúrgicas e, principalmente, as 48 usinas de ferro-gusa. Estas últimas, nem sempre
Cenibra dobra produção e causa "boom"...
- possuem suas próprias florestas e, quando há grande demanda internacional do produto, saem pelas fazendas em busca de carvão vegetal, a qualquer preço.
Em 2003, o preço do ferro-gusa alcançou US$ 300,00 a tonelada. Como os valores do aço e da celulose também subiram, a tonelada de carvão vegetal foi à estratosfera, sendo cotada a US$ 100,00. E não se tratam de poucas, mas de imensas florestas plantadas no estado, que dariam para cobrir quase todo o estado de Sergipe. Ainda assim não foram suficientes. Muitos guseiros compraram carvão até no Maranhão e Mato Grosso, onde as árvores são abatidas para atender à expansão da fronteira agrícola.
O dilema da Cenibra é maior que a incerteza no fornecimento da madeira. A empresa faturou R$ 1,1 bilhão em 2005. Um único dia parado representa o prejuízo de R$ 3 milhões. Como é proprietária de 234 mil hectares. Para atender suas novas necessidades, a empresa decidiu, então, oferecer 10% das novas áreas plantadas aos fazendeiros, que já comprovaram a excelência em plantações experimentais. Atualmente, 3% da madeira são adquiridos de proprietários rurais. Técnicos da companhia pretendem propor acréscimo ainda maior, com a terceirização de 20% da expansão.
Ao assinar o contrato com a Cenibra, o fazendeiro recebe a garantia da aquisição de toda a madeira produzida, ao preço médio de R$ 53,00 por metro cúbico. O abate do eucalipto é feito sete anos após o plantio. A empresa oferece financiamento ao produtor. Se quiser, o proprietário participa apenas com a terra e a vigilância da fazenda. Em cada hectare são produzidos, em média, 240 metros cúbicos, dos quais 40 metros pagam o financiamento. Caso o fazendeiro deseje vender a madeira para outro comprador, terá apenas de pagar a dívida. Esse é o aspecto inibe o incentivo à terceirização.
Entre os fornecedores da Cenibra, está Roberto Carlos Alves, do município de São João Evangelista, que vendeu 2.300 metros cúbicos plantados em oito hectares. Recebeu R$ 35.000,00. O fazendeiro negocia a entrega de outros 13 hectares e tenta a inclusão do seu nome no programa de expansão.
O fazendeiro José Carlos Fernandes que plantou eucalipto em 280 hectares de sua propriedade em Governador Valadares, há sete anos. Dentro de alguns dias ele fará a primeira venda. Pelos seus cálculos, a rentabilidade será três vezes maior que a criação de gado de corte. Ele tenta contratar outros 220 hectares herdados da avó.
Muitos fazendeiros são recusados pela empresa porque suas terras estão localizadas a mais de 250 quilômetros da fábrica. Outros não legalizaram as terras. Há os que não se dispõem a atender às exigências ambientais, como a preservação de matas nativas ou proteção às nascentes.
Pesquisa indica que a madeira é a principal atividade para 31% dos fazendeiros. Muitos voltaram a residir na fazenda. É o caso do aposentado Jamir Mendes, que investiu sua indenização trabalhista numa propriedade rural no município de Naque. Nos últimos seis anos, ele cobriu 80 hectares com eucalipto. Por não ter experiência pretende terceirizar o corte.

GM, 22/09/2005, p. A1, B12

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