O Globo, Rio, p. 21
13 de Dez de 2013
Cenas de um filme que teima em se repetir
Acúmulo de lixo, ocupações irregulares, lentidão em obras e solos impermeáveis são enredo do caos
Misture a vista grossa de prefeitos à ocupação irregular das beiras dos rios - consideradas Áreas de Preservação Permanentes (APP) - à ausência de um sistema adequado de coleta de lixo. Adicione educação falha, uma pitada de morosidade na liberação de verbas para obras de engenharia e complete com a inexistência de sistemas de drenagem. Está pronta a receita que explica o caos provocado por chuvas na Região Metropolitana do Rio nos últimos anos. Num enredo tão repetitivo quanto cruel, o "fator climático" é apenas coadjuvante, avalia o chefe do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Escola Politécnica da UFRJ, Paulo Renato Barbosa.
- A chuva (de quarta-feira) está longe de ser inédita. A questão política é o pano de fundo da tragédia. O brasileiro, como um todo, não costuma fazer as obras necessárias. É uma conjunção de fatores: muita chuva, muito abandono, muita calha de rio assoreada. As casas estão no lugar errado e os solos estão a cada dia mais impermeáveis. Não há diretriz, não há preocupação com redes de drenagem. Levamos 60 anos para fazer o problema. Vamos certamente levar mais muito tempo para consertar - afirma Barbosa.
O acúmulo de lixo nos rios potencializou as enchentes que levaram caos à Baixada Fluminense e a bairros da Zona Norte. Ontem, o governador Sérgio Cabral expôs a preocupação com os vários pontos de despejo de resíduos em Belford Roxo e deu um puxão de orelhas no prefeito, Dennis Dauttmam.
O problema se repete em todas as cidades da Baixada. Camas, sofás, geladeiras e televisões são figurinhas fáceis dentro dos rios da região. O lixo acaba por represar esses cursos d'água, contribuindo para as cheias.
Obras ainda pela metade
Após sobrevoar os pontos atingidos pelas chuvas, nesta quinta-feira à tarde, o secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, criticou a falta de definição de pontos despejo de entulho da construção civil pelas prefeituras. E defendeu a prioridade do programa Minha Casa Minha Vida no reassentamento de famílias ribeirinhas:
- Um dos piores problemas é o lixo, os depósitos clandestinos de entulho de construção civil. Não adianta a gente dragar se os prefeitos não disponibilizarem ecopontos. São mais de duas mil famílias praticamente em cima do Rio Botas, e nossas máquinas não conseguem sequer entrar para fazer o serviço. Dragamos os grandes rios, mas os afluentes precisam de mais cuidado.
Importantes obras de macrodrenagem não caminham com a urgência necessária. O Projeto Iguaçu, que começou em junho de 2007, ainda está na metade. Segundo o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), executor das obras, já foram aplicados R$ 450 milhões em intervenções e no reassentamento de três mil famílias que viviam às margens dos rios Iguaçu, Botas e Sarapuí. Ainda faltam R$ R$ 440 milhões. As obras devem ser concluídas apenas em 2018.
A presidente do Inea, Marlene Ramos, afirma que os diques construídos para evitar inundações às margens do Rio Iguaçu funcionaram e evitaram uma tragédia ainda maior.
O prefeito de Nova Iguaçu, Nelson Bornier, em seu terceiro mandato, prometeu apertar o cerco às irregularidades. Ele estima que 30% da cidade tenha sido afetada:
- Vou para o pau contra as ocupações irregulares, custe o que custar. A partir de janeiro, formarei um grupo para tratar das desapropriações. Chega! Vou pagar o preço que for.
O Globo, 13/12/2013, Rio, p. 21
http://oglobo.globo.com/rio/enchentes-no-rio-cenas-de-um-filme-que-teim…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.