VOLTAR

Cemig coloniza 60 mil hectares

GM, Nacional, p.A1, A11
29 de Ago de 2005

Cemig coloniza 60 mil hectares
Embora sua atividade principal seja a de construir usinas hidrelétricas e explorar a comercialização de energia produzida, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), que pertence ao governo do estado, concluirá nos próximos dias o maior programa de reassentamento agrário já realizado em Minas e, provavelmente, um dos maiores em andamento no País. A empresa distribuiu, em média, 90 hectares para cada família deslocada de suas casas nas barrancas do Rio Jequitinhonha - ainda que não fosse proprietária do terreno ou morasse num humilde barraco. O objetivo é liberar o local para formação do lago que decorrerá da construção da usina de Irapé, no Rio Jequitinhonha, entre os municípios de Grão Mogol e Berilo.
Trata-se da primeira barragem construída no rio, em território mineiro, com investimento de R$ 1 bilhão, capacidade de 360 MW e que irá beneficiar uma das áreas mais atrasadas do planeta. A inundação alcançará 1.150 famílias, que tiveram ampla liberdade para escolher as terras onde desejam retomar suas vidas. Surpreendentemente, grande parte preferiu ir para bem distante, em terras férteis perto de Montes Claros, e para atender a essas solicitações a empresa adquiriu 103 fazendas, totalizando 60 mil hectares. A área é maior que a soma dos territórios de dois dos sete municípios que serão atingidos pela inundação.

Cemig coloniza 60 mil hectares.
Antes mesmo de ocuparem suas novas propriedades, muitos atingidos já estão ganhando dinheiro com a venda da produção das lavouras que estavam plantadas ou com o aluguel dos pastos. A postura da empresa foi de atender, quase a qualquer preço, as reivindicações dos desalojados, que preferiram serem transferidos para bonitas fazendas em atividades. Além disso, receberam doação das árvores das áreas a serem inundadas, que foram queimadas e vendidas como carvão para as grandes usinas siderúrgicas. Em decorrência dessas transações, muitos agricultores conquistaram o sonho de comprar um automóvel.
No sábado, dia 20 deste mês, o presidente da Cemig, Djalma Moraes, esteve na região para inaugurar um arraial para reassentados, de aparência cinematográfica e com a bucólica denominação de Peixe Cru. O povoado abriga os 170 moradores da vila de mesmo nome e já desocupada, na beira do rio. Mesmo aqueles que moravam em casebres sem banheiro receberam uma casa de alvenaria, em terreno de 300 metros quadrados, todo murado, louça sanitária e chuveiro com água quente. As ruas são pavimentadas e até um bar foi edificado, cuja gestão foi entregue ao proprietário da antiga birosca, para combater o tédio e facilitar a camaradagem nas noites daquele imenso planalto.
O cuidado com a qualidade de vida dos moradores foi completo: a igreja foi desmontada e transferida para a nova vila. Como o local está distante das águas do rio, também foi construído um clube com piscina para que ninguém manifeste saudades daquelas águas barrentas e freqüentemente contaminadas de mercúrio da exploração de ouro e diamantes. A Cemig investiu R$ 200 milhões nas obras de reassentamento, segundo o seu presidente. "Temos compromisso com os moradores da região", explicou.
Na frase seguinte do seu discurso, porém, veio a ressalva: "Temos também o compromisso de construir a usina". Tratava-se ali, de um recado com endereço certo: as várias organizações não-governamentais que tentaram impedir e, por último, retardar construção da barragem. Os embargos era realizados por meio de exigências dos atingidos, envenenados pelo palavrório rabugento contra a luz elétrica.
Mas o feitiço às vezes se volta contra o feiticeiro. Muitos dos atingidos preferiram se mudar para longe, desmontando a argumentação de que o reassentamento iria romper cadeias de solidariedade baseada em relações de parentesco e vizinhança. A vila Porto Corís, que foi convencida a ser tratada como remanescente de um quilombo, também sofreu seu revés. Os moradores foram impedidos de receber a escritura de suas propriedades, pois naquelas históricas comunidades não havia propriedade privada; tudo era coletivo. Esses e outros episódios, como as manifestações dos que preferiam manter o rio sob o domínio de garimpeiros, minaram o prestígio das organizações.
A aparente generosidade de uma empresa que não deseja se deparar com problema na construção de suas usinas acabou gerando situações curiosas. A poucos quilômetros abaixo de Irapé será construída outra hidrelétrica, a de Murta, sob a responsabilidade de um consórcio liderado pela Logos Engenharia. Preocupada com as extravagantes reivindicações apresentadas pelos futuros atingidos pelas inundações, a empresa procurou se aconselhar com a Cemig.
Os técnicos da estatal recomendaram-lhe uma solução simples e eficiente: bastava recuar o local da barragem em alguns quilômetros. Nenhuma vila seria atingida. Agora, os dirigentes da Cemig estão sendo assediados por comissão de moradores para manterem a usina em sua antiga demarcação. Em compensação, as indenizações seriam discutidas em termos mais amenos.
Maior investimento público já realizado no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, a hidrelétrica de Irapé, antes mesmo de ficar pronta, está proporcionando desenvolvimento para essa pobre região. A usina vai gerar 360 MW, energia suficiente para iluminar os lares de 1 milhão de habitantes. Os investimentos totalizam R$ 1 bilhão, do qual cerca de R$ 600 milhões são aplicados em obras de infra-estrutura. Mensalmente são gastos R$ 4 milhões na folha de pessoal. Boa parte mora na região.
As cidades e vilas mais próximas também estão recebendo benefícios. O povoado de Lelivéldia, a cinco quilômetros do canteiro de obras e que acolhe grande parte dos trabalhadores, recebeu encanamento para água e esgoto e calçamento nas ruas principais. As sete cidades que terão suas terras atingidas pelas águas - na verdade atingida pela sorte - receberão cerca de R$ 100 milhões anuais com a receita do ICMS pela venda de energia e indenizações pelas inundações. Algumas delas, hoje, não tem empresas com dez empregados com carteira de trabalho.
Ninguém sabe, ao certo, dimensionar a safra que virá dos reassentamentos. A Cemig contratou uma outra estatal, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), que vai acompanhar as atividades dos agricultores por seis anos. Também foram distribuídas sementes, fertilizantes e defensivos. Agora, tudo depende do trabalho dos lavradores para que tudo dê certo na nova terra.

kicker: A usina de Irapé, no Vale do Jequitinhonha, vai gerar 360 MW, energia suficiente para iluminar os lares de 1 milhão de habitantes

GM, 29/08/2005, p. A1, A11

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.