OESP, Internacional, p. A16
Autor: LASERNA, Roberto
25 de Jan de 2009
'Carta oficializa divisão entre indíos e não-índios'
Para especialista, controle estatal da economia e dos recursos naturais é séria ameaça a investimentos no país
Entrevista: Roberto Laserna: sociólogo e analista político
O sociólogo e analista político boliviano Roberto Laserna alerta que a Carta submetida a referendo hoje divide os bolivianos em duas categorias de cidadãos: indígenas e não-indígenas. Ex-professor das universidades de Princeton e da Califórnia, nos EUA, e consultor da ONU, hoje ele é pesquisador do Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social da Bolívia. Laserna falou ao Estado por telefone:
Quais os aspectos mais polêmicos dessa Constituição?
Talvez o mais difícil de assimilar seja a divisão dos bolivianos em indígenas e não-indígenas. A Carta dá privilégios aos membros dos 36 povos originários, como cotas no Congresso e no Judiciário. Eles votarão duas vezes: uma como bolivianos e outra para preencher tais postos.Também intervirão em decisões sobre a exploração de recursos naturais de seu território.
Quais as mudanças no Judiciário? Os juízes da Suprema Corte e do Tribunal Constitucional serão eleitos, o que, na prática, politiza a Justiça do país. É complicado pensar em qual vai ser a relação desses juízes com os partidos. Além disso, os 36 povos indígenas terão seus próprios sistemas de Justiça.
Eles poderão julgar crimes?
Isso. E aí temos outro problema: em certas regiões da Bolívia, onde a polícia o Judiciário não chegam, linchamentos são comuns - uma forma de a população fazer justiça com as próprias mãos. Não raro inocentes são queimados, apedrejados ou enforcados. A intenção de quem redigiu a Carta não era institucionalizar tal prática, mas esse é o resultado.
Há ameaças à propriedade privada, como denuncia a oposição?
A propriedade será respeitada se cumprir função social - formulação incluída em nossa legislação em 1938. A ameaça vem do fato de o Estado ser definido como o principal gestor da economia e o dono de todos os recursos naturais do país, desde o petróleo até o ar que respiramos. O governo pode declarar qualquer setor estratégico, de utilidade pública. Evo já disse que devemos esperar novas nacionalizações.
Como ficam as empresas estrangeiras?
Se a Carta for aprovada, as concessões do setor de mineração terão de ser revistas. No caso do gás e petróleo, também é possível que haja renegociação de contratos, porque as empresas estrangeiras só poderão prestar serviços para a estatal YPFB e muitas mantém outros tipos de associações e parcerias.
O projeto permite a reeleição do presidente, mas por uma só vez. Evo pode tentar derrubar esse limite mais tarde?
Sim. A nova Carta estabelece caminhos mais curtos para as reformas e emendas constitucionais. Pelas regras atuais, as mudanças só valem para o mandato seguinte. Pelas novas, podem beneficiar o governo de turno. É uma tentação para o presidente.
Em que aspectos podemos dizer que há avanços?
A Carta enumera muitos direitos novos para os bolivianos nas áreas de saúde e educação, por exemplo. Cria expectativas, mas o governo não tem recursos para atendê-las.
OESP, 25/01/2009, Internacional, p. A16
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