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Carlos Minc espera confirmação

CB, Política, p. 3
14 de Mai de 2008

Carlos Minc espera confirmação
Secretário de Meio Ambiente do Rio está de sobreaviso, mas Lula sonda nomes como o do ex-governador do Acre Jorge Viana. O presidente quer pressa para não ficar refém da ministra demissionária

Gustavo Krieger e Daniel Pereira
Da equipe do Correio

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aceitou ontem à noite pedido de demissão "em caráter pessoal e irrevogável" apresentado pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Antes mesmo de ler a carta na qual a auxiliar listou as razões para deixar o governo, Lula telefonou ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), e avisou que pensava em convidar o secretário estadual de Meio Ambiente, Carlos Minc, para o posto. "Deixe o Minc de prontidão que eu posso precisar dele", disse o presidente .
Minc é o favorito para o cargo, mas hoje Lula vai conversar com outro ministeriável, o ex-governador do Acre Jorge Viana (PT). O martelo será batido hoje pela manhã. Viana é muito próximo a Lula, mas já recusou outros convites para o governo.
Hoje ele é presidente da Helibras, fabricante de helicópteros. "O presidente está dividido", diz um auxiliar de Lula.
Lula ficou irritado com a maneira como Marina saiu. Ele só soube depois que a notícia vazou pela imprensa. Marina pegou o governo de surpresa. Ela não foi ao Palácio do Planalto entregar a carta de demissão. Mandou como portador o presidente do Ibama, Basileu Margarido. Ele chegou às 13h15 e entregou o documento ao chefe de gabinete da presidência, Gilberto Carvalho. O presidente tinha acabado de sair para um almoço no Itamaraty, e Carvalho não conseguiu avisá-lo. Lula só leu a carta depois das 16h, quando a notícia já tinha se espalhado.
Lula fez questão de demonstrar a interlocutores irritação com o fato de ela ter anunciado a demissão primeiro à imprensa, sem lhe dar chance de convencê-la a continuar na equipe.
Segundo ministros, Marina agiu assim na tentativa de valorizar o próprio passe e pressionar os governistas a clamarem, em público, para que ficasse no primeiro escalão da máquina federal.
Ciente disso, o presidente resolveu desautorizar qualquer negociação e realizar a troca no comando do ministério, a fim de não ficar refém da auxiliar. Os dois não conversaram ontem. Marcaram uma reunião de despedida para hoje.
Mangabeira
Militante histórica do PT, Marina deixou claro seu descontentamento em carta enviada ao presidente. Desde o primeiro mandato, a relação entre Lula e Marina se deteriorava a cada dia. A gota d'água para o rompimento foi a decisão do presidente de escolher o ministro extraordinário de Ações de Longo Prazo, Mangabeira Unger, como gestor do Plano Amazônia Sustentável (PAS). A decisão foi anunciada na cerimônia de lançamento do PAS, na quinta-feira passada, e pegou a ministra de surpresa, conforme relatos de auxiliares dela, que trabalharam na elaboração do pacote de medidas.
Um dia antes, Lula e Marina tiveram uma reunião tensa no Palácio do Planalto. Uma hora depois do encontro, estava prevista a participação dos dois na abertura de uma conferência. Lula desistiu da programação e foi descansar no Palácio da Alvorada. Antes disso, os dois acumularam uma série de conflitos, que levaram a ministra a cunhar uma frase que resume sua passagem pelo governo: "Eu perco a cabeça, mas não perco o juízo".
A demissão de Marina, que passou o dia reclusa em Brasília, pegou de surpresa também os governistas no Congresso. Senadores petistas ligaram ao Planalto pedindo informação. O ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, retornava, mas também para mostrar que nada sabia sobre o que estava acontecendo.

Entenda o caso
Desgaste por todos os lados

Leonel Rocha
Da equipe do Correio

Depois de preparar todo o Plano Amazônia Sustentável (PAS), junto com sua equipe, por mais de cinco anos, Marina Silva, que deixou ontem o Ministério do Meio Ambiente, não se conformou que a coordenação geral de um dos seus projetos mais importantes ficasse com o colega Mangabeira Unger, de Assuntos Estratégicos. Essa decisão, tomada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva momentos antes de anunciar o PAS, na última quinta-feira, pegou Marina de surpresa. Ela ficou irritada com mais uma demonstração do Palácio do Planalto de que as suas idéias não eram prioritárias para o Programa de Aceleração do Crescimento(PAC). Foi a gota d'água.
Para implantar mais rapidamente as obras de infra-estrutura do PAC, o Palácio do Planalto precisa antecipar a emissão de licenças ambientais emitidas (ou não) pelo Ibama. Apesar da adoção do Plano Amazônia Sustentável e de outras medidas de avanço na área ambiental, Marina foi sempre voto vencido nos embates entre o setor que representava e os que desejam crescimento econômico acelerado, com mais flexibilidade nas questões ambientais.
Marina deixou o cargo pelo conjunto de problemas que enfrentou com vários colegas de ministério. Entre eles o da Agricultura, Reinolds Stephanes, e a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. O primeiro defende a utilização de áreas desmatadas na Amazônia para a utilização na agropecuária. Marina é contra e defende o reflorestamento da região. A ministra Dilma é a favor da implantação de três usinas nucleares para gerar energia, outras termelétricas e várias hidrelétricas em rios da Amazônia. Propostas inadmissíveis para a ambientalista Marina.
Na carta que enviou ontem ao presidente Lula, a ministra demissionária admite: "Esta difícil decisão, senhor presidente, decorre das dificuldades que tenho enfrentado há algum tempo para dar prosseguimento à agenda ambiental federal". Marina não conseguiu barrar a implantação das duas hidrelétricas programadas para o Rio Madeira. Engoliu uma solução alternativa para possibilitar a subida dos bagres rio acima para a desova. Na quinta-feira da semana passada, já magoada por ter perdido a coordenação do PAS, lembrou em discurso que foi chamada várias vezes dentro do próprio governo de ministra do bagre, em referência à sua resistência às hidrelétricas do Madeira. Saiu do Planalto decidida a pedir demissão.

Um nome forte para o cargo

Ricardo Miranda
Da equipe do Correio

Rio - A possível escolha do carioca Carlos Minc para suceder Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente demonstra não só uma tentativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manter um nome de peso da área ambiental na pasta como a força política e a ascendência sobre o presidente do governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), que já emplacara antes o ministro da Saúde, José Gomes Temporão.
Minc deixa a Secretaria Estadual do Ambiente, para onde fora indicado como uma escolha pessoal de Cabral, mais do que um representante do PT em seu secretariado.
Fundador do Partido Verde com Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis, Minc foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 1986, em coligação com o PT.
Reeleito, já pelo PT, em 1990, 1994 e 1998, recebeu em 1989 o Prêmio Global 500, concedido pela ONU aos que se destacam mundialmente nas lutas em defesa do meio ambiente. A principal diferença da morena, magrinha, de cabelos longos, Maria Osmarina Silva Souza, líder seringueira no Acre, do performático e bronzeado Carlos Minc, 57 anos, conhecido pelos coletes coloridos e estilo afável a apaziguador, é que a primeira era uma ambientalista rural, da escola sindical de Chico Mendes, e o segundo é o típico verde do asfalto, com mais traquejo e instinto de sobrevivência política.
Há 20 anos na defesa da causa ambiental, Minc tem marcado sua passagem pela Secretaria do Meio Ambiente do estado do Rio por medidas para reduzir a burocracia nos processos de licenciamento ambiental, uma das principais reivindicações dos chamados desenvolvimentistas, que propõem proteção ao ecossistema com desenvolvimento econômico. "Nossa filosofia é destravar o desenvolvimento", tem dito.
Impacto ambiental
Um processo de pedido de outorga pelo direito de uso da água, que levava até três anos para ser analisado, agora é finalizado em três meses. Só para se constituir um grupo de trabalho para estudo de impacto ambiental era necessário esperar 120 dias.
Agora, a comissão forma-se em oito dias. Para descentralizar, reduziu poderes da Fundação Estadual de Engenharia de Meio Ambiente (Feema) e delegou poderes às próprias prefeituras do estado para fazer o licenciamento ambiental de projetos com impacto local, como postos de gasolina, oficinas mecânicas e empresas de informática. Minc também está afinado com o discurso do presidente Lula na área estratégica do biodiesel, já que defendia a expansão de projetos no estado.
Casado e pai de dois filhos, formou-se em economia e é professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Minc foi líder estudantil, preso em 1969, com 18 anos, tendo vivido 10 anos exilado entre Cuba, Chile, França e Portugal. Eleito em 2006 com 79 mil votos, em seu sexto mandato consecutivo de deputado estadual, aceitou pela primeira vez, no governo Cabral, afastar-se da vida parlamentar, onde conseguiu aprovar 126 leis de sua autoria. Ali, ficou conhecido pelas ações ruidosas em defesa do cumprimento delas, como a campanha do Cumpra-se.

CB, 14/05/2008, Política, p. 3

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