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Autor: Gil Sóter
11 de Nov de 2025
'A resposta à crise climática vem dos povos da floresta': caravana percorre 3 mil km para levar lideranças indígenas e ribeirinhas à COP30
Travessia percorreu estradas e rios da Amazônia trazendo 320 lideranças indígenas, ribeirinhas, quilombolas e agricultores familiares. A caravana leva a Belém experiências de proteção territorial e agroecologia para o debate climático.
A Amazônia apresenta iniciativas em curso de enfrentamento à crise climática, com foco em produção agroecológica, proteção territorial e comunicação comunitária. Essas experiências serão levadas a Belém pela Caravana da Resposta, que chega à cidade nesta terça-feira (11), durante a COP30.
Ao longo de nove dias e cerca de 3 mil quilômetros por estradas e rios, a caravana reuniu 320 lideranças indígenas, ribeirinhas, quilombolas e agricultores familiares. O grupo apresenta resultados como autodemarcação de territórios, cadeias de sociobiodiversidade e formação de jovens comunicadores, com ênfase em práticas que conciliam conservação ambiental e geração de renda.
A travessia começou em 3 de novembro, em Sinop, no Mato Grosso, cidade conhecida como a capital nacional da soja, e refaz a chamada "rota da soja", corredor de exportação do agronegócio que liga o norte de Mato Grosso ao oeste do Pará. Mas agora a rota é feita, de forma inédita, por uma comitiva de lideranças de movimentos sociais que denunciam os impactos desse modelo de desenvolvimento sobre territórios do Cerrado e da Amazônia, e defendem alternativas baseadas na agroecologia e na proteção da floresta.
"Quando se planta soja para exportação, agrava-se a crise climática e a população paga caro por comida com agrotóxicos. Isso afeta todo o povo brasileiro", diz Pedro Charbel, da Aliança Chega de Soja, entidade coordenadora da caravana, que reúne mais de 40 organizações e povos.
"Mas não viemos só denunciar, viemos anunciar alternativas. Trazemos alimentos da agroecologia e boas práticas de movimentos sociais. Aproveitamos a jornada até Belém para nos conectar e sair fortalecidos. Nossa luta não começa nem termina na COP: vai muito além. Temos respostas a oferecer: a floresta em pé, a agroecologia, a força dos movimentos sociais e uma infraestrutura pensada para o povo, não para empresas multinacionais", destaca.
A caravana pretende dar visibilidade a soluções que já acontecem nos territórios: cadeias de sociobiodiversidade, agroecologia, governança local e formação de novas lideranças. Em Belém, o barco funcionará como cozinha solidária e alojamento coletivo durante a Cúpula dos Povos e a COP30, garantindo presença popular nos debates climáticos.
Entre os temas do debate está a Ferrogrão (EF-170), ferrovia planejada para ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA), integrando o escoamento de grãos pelo rio Tapajós. Enquanto defensores do empreendimento argumentam que a ferrovia aumentaria a eficiência logística e reduziria custos de transporte, organizações socioambientais afirmam que a obra pode intensificar pressões sobre a floresta e comunidades tradicionais. Defensores do empreendimento argumentam que a ferrovia aumentaria a eficiência logística e reduziria custos de transporte. A Caravana leva essa oposiçãos aos grandes projetos à arena pública durante a COP30.
Confira o trajeto de 3 mil km até a COP30
A caravana seguiu por terra de Sinop, no Mato Grosso, até o sudeste do Pará, cruzando o território Kayapó, e parou em Trairão, no sudoeste paraense, para atividades com agricultores familiares e lideranças Munduruku. Em seguida, avançou até Miritituba, distrito portuário de Itaituba, às margens do rio Tapajós, onde realizou ato público. Depois, o grupo seguiu para a Ilha das Ilage, território sagrado do povo Tupinambá, no oeste do Pará, onde ocorreu o Grito Ancestral, ação cultural em defesa dos rios e dos territórios.
No dia 8, a comitiva chegou a Santarém, cidade na confluência dos rios Tapajós e Amazonas, e embarcou em um ferryboat de três andares para a etapa fluvial. A partir dali foram cerca de 1.600 quilômetros de navegação até Belém, ao longo de quatro dias em que o barco se transformou em uma aldeia flutuante, com assembleias, rodas de conversa e partilha de alimentos da agricultura familiar.
Respostas que vêm dos povos tradicionais
Autodemarcação em defesa do povo Tupinambá
À bordo da Caravana, nossa reportagem pode conhecer de perto exemplos vitoriosos de mobilização dos povos da floresta. O cacique Gilson Tupinambá, liderança do Baixo Tapajós, conduziu um processo de autodemarcação do território tradicional de seu povo - área que se sobrepõe à Resex Tapajós-Arapiuns, em Santarém, oeste do Pará. De acordo com o cacique, a decisão surgiu diante da demora e da inação do poder público e da FUNAI, enquanto avançavam pressões do agronegócio, madeireiras e garimpo. Ao demarcar fisicamente os limites, os Tupinambá reivindicam o reconhecimento oficial do território ancestral e a proteção do modo de vida e do meio ambiente, mirando a segurança das próximas gerações.
A autodemarcação tornou-se instrumento de pressão legítima e símbolo de resistência garantida pela Constituição. Mesmo com conflitos, ameaças e tentativas de criminalização de lideranças como Gilson, a mobilização segue firme e inspira outros povos: mostra que, diante de processos lentos e judicializados, a organização comunitária pode abrir caminho para a regularização fundiária e manter a pauta da demarcação no centro das prioridades nacionais.
Apesar da vitória histórica, a luta do cacique continua diante dos impactos da crise climática. Ele relata que poços e igarapés secaram mesmo sobre o aquífero de Alter do Chão e que a fumaça das queimadas agravou doenças respiratórias. "A água dos poços começou a secar e os rios recuaram quilômetros além do normal", afirma. "Vamos à COP30 para denunciar e para que nossas lideranças sejam ouvidas e respeitadas."
Comida sem agrotóxico que gera renda na floresta
Dona Francisca, de Trairão, sudoeste do Pará, lidera uma rede de agroecologia que cultiva sem veneno, troca sementes crioulas e mantém o uso de ervas medicinais e práticas de homeopatia nas comunidades. Nesta viagem, o grupo doou 100 quilos de alimentos livres de agrotóxicos, da própria produção, para alimentar a comitiva e ajudar a abastecer a Cúpula dos Povos. A experiência mostra, na prática, que é possível garantir comida de qualidade e renda local sem depender de insumos químicos.
Francisca Barroso é uma das vozes que puxam a retomada da Rede de Agroecologia de Trairão, criada em 2006 por agricultoras e agricultores familiares e fortalecida por organizações sociais do município. Depois de ter reunido quase 400 associados, a Rede encara o pós-pandemia e a ausência de políticas públicas como um desafio e também como motor de reorganização: hoje, quase 50 produtores já estão inscritos, com forte protagonismo das mulheres na mobilização e na coordenação. Desde 2013, a rede abastece o PNAE com 21 agricultores e agricultoras e 28 produtos cadastrados, levando comida de qualidade para as escolas e ocupando conselhos de políticas públicas no município.
Na prática, o movimento combina esperança com técnica: articula parcerias para difundir a "homeopatia da terra", reduzindo o uso de agrotóxicos e impulsionando a produção agroecológica. A nova Rede Agroecológica do Município do Trairão ampliou o alcance para comunidades da BR-163 e já promoveu ações de comercialização solidária, como a distribuição de 300 cestas de 19 kg, aproximando campo e cidade.
Os resultados aparecem no cotidiano: famílias que migraram do veneno para o manejo agroecológico viram a renda crescer, com casos de produtores que chegam a faturar R$ 700 por dia com hortaliças orgânicas. É um exemplo vivo de organização comunitária que reergue circuitos locais de comercialização e afirma a agricultura familiar como caminho de saúde, renda e soberania alimentar.
"Na nossa região, o calor aumentou muito, ao mesmo tempo, começou a ter muiro raio. Um vizinho nosso morreu ao ser atingido. A natureza está diferente, e isso tudo impacta no plantio e na colheita, prejudicou muito", lamenta. "Mas também apontamos uma repsosta, que é trabalhar sem veneno para cuidar da terra e da saúde", destaca.
Cinema como resistência
Entre os jovens, Bepmoroi Metuktire, do povo Kayapó, transforma o audiovisual em ferramenta de defesa cultural. Cineasta e comunicador, ele atua na linha de frente da defesa de seu território, a Terra Indígena Capoto/Jarina, no Mato Grosso. Chefe de esquadrão da brigada local, ele também participa de ações de prevenção e combate a incêndios, unindo o conhecimento tradicional de seu povo com práticas modernas de proteção ambiental. Sua atuação combina arte, comunicação e resistência, inspirando outros jovens indígenas a ocuparem espaços de fala e decisão.
Integrante da Rede Xingu+ e do Coletivo Beture de cineastas Mebêngôkre, Bepmoroi usa o audiovisual como ferramenta de memória e denúncia, registrando o cotidiano e as lutas de sua comunidade. Também colabora com o Instituto Raoni, liderado por seu parente e referência mundial, o cacique Raoni Metuktire. Em eventos como a COP30, ele leva a visão dos Kayapó sobre o clima e a floresta, reforçando que o futuro da Amazônia passa pela escuta das juventudes indígenas - herdeiras e guardiãs da sabedoria ancestral.
Ele também aponta os efeitos do desmatamento nas nascentes e nas roças, e vê na formação de jovens comunicadores uma forma concreta de resistência e preservação. "A gente tem voz e capacidade de lutar", diz. "Daqui para frente, nós, jovens, estaremos na linha de frente para que esse sofrimento não continue."
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