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Caráter de refúgio deve ampliar irritação de Evo

OESP, Internacional, p. A18
18 de Jun de 2009

Caráter de refúgio deve ampliar irritação de Evo
Responsável pela decisão de acolher 120 refugiados, diz que medida não é apenas humanitária, mas também política, o que contraria La Paz

João Paulo Charleaux

A concessão de refúgio a 120 bolivianos que fugiram da violência política no Departamento (Estado) de Pando em setembro, cruzando a fronteira com o Estado do Acre, está colocando os governos do Brasil e da Bolívia em posições antagônicas.

A decisão brasileira desagradou ao governo do presidente Evo Morales que, há uma semana, disse esperar que Brasília ainda reconsidere a medida. "O Brasil nos assegurou que qualquer decisão será tomada unicamente por razões humanitárias", disse o vice-chanceler da Bolívia, Hugo Fernández.

Mas o presidente do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), Luiz Paulo Barreto, declarou ao Estado que "o refúgio é um instituto de natureza eminentemente política" e rejeitou a pressão de La Paz.

Barreto chegou a ser convidado pelo embaixador da Bolívia em Brasília, Mauricio Dorfler Ocampo, a dar explicações sobre a decisão tomada pelo Conare.

No encontro, ocorrido em maio, o presidente do comitê afirmou que, para o Brasil, "está claro que houve um confronto e uma instabilidade política na região (de Pando) que foi o que provocou a vinda de bolivianos para o lado brasileiro" da fronteira.

Em resposta, o embaixador boliviano lembrou que a Justiça do seu país ainda investiga os eventos ocorridos em Pando, em setembro, quando choques entre opositores e defensores de Evo provocaram a morte de 18 camponeses.

O diplomata sugere que o Conare possa ter se antecipado ao conceder refúgio ao grupo enquanto "as investigações para encontrar os culpados pelo massacre de Pando ainda estão em andamento".

"Esse tema é de enorme sensibilidade para o governo da Bolívia, já que se trata de um massacre. É preciso se ater à legalidade internacional e nacional. Cada país expôs seu enfoque sobre essas assunto. Agora, temos de trabalhar juntos nisso", disse Dorfler Ocampo.

O Brasil não revelou à Bolívia a identidade de nenhum dos refugiados. Uma cláusula de confidencialidade do Direito Internacional dos Refugiados dá ao governo brasileiro esse direito, mas o Conare promete cooperar caso La Paz prove que entre os refugiados há algum condenado pela Justiça.

PERSEGUIÇÃO

A decisão de conceder refúgio foi tomada em reunião do Conare, no dia 22. Membros do comitê presentes na reunião que decidiu pela concessão do refúgio disseram ao Estado que a data da votação foi antecipada depois que as famílias manifestaram temor de que Evo editasse um decreto confiscando os bens dos que pediram refúgio ao Brasil. A Embaixada da Bolívia em Brasília nega.

A medida de Evo poderia afetar os refugiados que ainda voltavam a Bolívia para vender seus bens e financiar o aluguel de imóveis, além dos gastos de subsistência no Brasil.

"Alguns dos que vieram para o Acre foram presos quando voltaram à Bolívia para buscar carros ou vender bens. Isso aumentou o temor das outras famílias", disse José Alvanir Lopes, da Secretaria de Articulação Institucional do Governo do Acre, que foi responsável por acomodar o grupo nos primeiros meses.

Grupo vive acampado no Acre

João Paulo Charleaux

O maior grupo a receber refúgio no Brasil desde 1992 vive atualmente nas cidades de Brasileia e Epitaciolândia, ambas no Acre. Os 120 bolivianos que fugiram de Pando no fim de 2008 foram instalados em ginásios esportivos e em sindicatos locais até conseguir alugar imóveis ou hospedar-se com parentes ou amigos. Além deles, 150 brasileiros que trabalhavam na Bolívia voltaram ao Brasil depois dos confrontos e agora vivem num assentamento de lonas plásticas em Xapuri (AC).

OESP, 18/06/2009, Internacional, p. A18

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