CB, Cidades, p. 35
16 de Mai de 2006
Caramujos perigosos
Moluscos gigantes, da espécie Achatina Fulica, são encontrados no Distrito Federal.
Nativos da África, eles causam danos ambientais e podem transmitir doenças graves
Érica Montenegro
Da equipe do Correio
Um caramujo gigante, nativo da África, começa a se multiplicar nos quintais e áreas verdes do Lago Norte. O Achatina fulica, nome científico do caracol-gigante-africano, já foi visto em locais diferentes do Distrito Federal e causa preocupação. Técnicos do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) explicam que se trata de uma espécie invasora, estranha ao ecossistema de cerrado. Além de provocar desequilíbrio ecológico, o caracol pode servir de hospedeiro a dois parasitas transmissores de doenças graves ao homem: o Angiostrongylus costaricensis e o Angiostrongylus cantonencis.
Os caramujos gigantes foram vistos também no Lago Sul e Sobradinho. 0 caracol-gigante-africano é um dos maiores moluscos terrestres encontrados na natureza. Pode medir 20cm e chega a pesar até 300 gramas. "É um animal impressionante, eu diria até que ele é bem bonito. Mas as pessoas não devem de jeito nenhum tocá-lo com as mãos", explica Francisco Palhares, superintendente do Ibama no DE Ele acredita que o caracol africano tenha aparecido aqui depois de ter sido desprezado por criadores brasilienses de escargot (caracol francês que é considerado iguaria fina por gourmets).
O caracol-gigante-africano foi trazido da África para o Brasil no final da década de 80. Criadores de moluscos do Paraná pensavam em oferecê-lo como uma alternativa mais barata ao caracol francês, mas a carne do africano não foi bem aceita pelos consumidores brasileiros. Como o comércio não foi adiante, os empresários soltaram os caramujos exóticos em ambientes silvestres, que acabaram se adaptando bem ao clima brasileiro. "Eles comem de tudo e se reproduzem muito rápido. Então rapidamente for-. mam superpopulações", explica Maria Júlia Martins, professora do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB), especialista em moluscos.
A presença da espécie já foi registrada em praticamente todos os estados brasileiros. No Rio Grande do Norte e no Rio Janeiro, os departamentos de Vigilância Sanitária fazem campanhas para deter a proliferação da espécie. A preocupação maior é de que ele sirva de vetor para parasitas que causam a angiostrongilose abdominal-doença com sintomas como dor de barriga, diarréia e vômito, e a meningoencefalite - tipo de meningite que causa problemas de vista e pode levar até a morte.
Doenças
Contudo, pelo menos no Brasil, ainda não foram verificados casos onde haja relação imediata entre o Achatina fulica e essas doenças. Os casos de angiostrongilose abdominal registrados aqui não foram propagados pelo caracol-gigante-africano. Já a meningoencefalite causada pelo Angiostrongylus cantonencis jamais foi verificada no Brasil. Nas Américas, há registro da ocorrência dela apenas em Cuba e Porto Rico. Em Brasília, a Vigilância Ambiental - que trata do controle de espécies que ameaçam a saúde humana, ainda não incluiu o caramujo-gigante-africano em sua lista de prioridades. "Não fomos informados sobre a existência deste animal aqui, isso porque, por certo, ele ainda não é uma praga", afirma a diretora da Vigilância Ambiental, Miriam dos Anjos.
Francisco Palhares, do Ibama, avisa que não há motivos para a população se alarmar.
"Os registros ainda são poucos, então consideramos a situação sobre controle", afirma. O Ibama está formando uma comissão de estudos para avaliar como tratar a ocorrência do Achatina fulica no DF. Só depois dessa avaliação é que será criada a campanha de conscientização da população. "Faremos com muito cuidado. Não queremos promover uma caça às bruxas."
Segundo ele, em um dos municípios do Rio Grande do Norte a população local exterminou todos os caramujos por medo do caramujo-gigante-africano. "As espécies invasoras exigem todo um monitoramento prévio para que sejam tomadas decisões responsáveis sobre ela", explica Palhares. Outro exemplo de espécie invasora, monitorada no DF pelo Ibama, é o jacaré-açu, típico da Amazônia e que vive agora no Lago Paranoá.
Do ponto de vista ambiental, o prejuízo causado pelo caramujo gigante- africano é a perda de biodiversidade. Sendo um animal muito eficiente para se alimentar e se reproduzir, ele vence os animais nativos na competição pela vida. "As espécies que não têm tanta eficiência acabam sem alimento por causa dele", esclarece Maria Júlia Martins, especialista em moluscos da UnB. Também já foram registrados casos de prejuízos econômicos, como a destruição de plantações de subsistência, hortas e jardins.
A professora Maria Júlia Martins explica que o controle da espécie invasora é feito basicamente pela catação manual. "Usando luvas ou sacos plásticos, eles são apanhados. Depois, esmagados.
E, por último, incinerados." O Ibama-DF, entretanto, pede que a população espere a visita de um técnico antes de tome qualquer medida contra o animal. "É necessário ter certeza sobre a espécie do bicho, caso contrário, há o risco de se causar outro dano ambiental", ressalta Palhares.
Para saber mais
Espécie invasora
Espécies invasoras são animais que, apesar de estranhos a um ecossitema, adaptam-se muito bem a ele. Em algumas cidades, inclusive do Centro-Oeste, o Achatina fulica já é considerada uma espécie invasora. O caramujo-gigante africano também é conhecido como caracol-gigante-africano, caracol-gigante ou rainha da África. Além de danos ambientais, como a perda de biodiversidade, ele pode provocar prejuízos econômicos com a destruição de hortas domésticas, lavouras de subsistência e jardins.Apesar de ainda não terem sido confirmados casos no Brasil, o Achatina Fulica também pode servir de vetor de transmissão de duas doenças: a angiostrongilose abdominal e a meningoencefalite.
Como medidas de prevenção à essas enfermidades, o Ministério da Saúde recomenda: lavar bem hortaliças e verduras, não ingerir caramujos crus ou mal cozidos, não deixar que crianças brinquem com caramujos e, ao manuseá-los, utilizar sempre luvas e sacos plásticos.
CB, 16/05/2006, Cidades, p. 35
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