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Cana certificada já é realidade

OESP, Agrícola, p. 8-9
04 de Dez de 2008

Cana certificada já é realidade
Agricultores e usina de Bariri (SP) modificam sistemas para produzir, a partir de 2009, o álcool 'politicamente correto'

Chico Siqueira

Pequenos e médios produtores de Bariri, região de Jaú (SP), serão os primeiros do País a fornecer cana-de-açúcar certificada para a fabricação do álcool, já na safra 2009/2010. A produção deverá ser de 36 milhões de litros, parte deles possivelmente exportada para a Europa. Baseada num protocolo de gestão de normas agrícolas, sociais e ambientais adotado pela Associação dos Fornecedores de Cana da Região de Bariri (Assobari), a certificação abrangerá 4 mil hectares de cana, cultivada por 50 produtores, muitos agricultores familiares.

A partir de maio, eles começam a fornecer para a usina Della Coletta, de Bariri, 400 mil toneladas de cana certificada para a produção de 36 milhões de litros de álcool, processado dentro das exigências nacionais e internacionais de sustentabilidade. O protocolo foi possível a partir de uma parceria entre a Assobari, o Sebrae, a certificadora Organização Internacional Agropecuária (OIA) e a Usina Della Coletta.

TRABALHO COORDENADO

Os produtores seguem as normas de um sistema socioambiental introduzido pela OIA; o Sebrae fornece técnicos e cursos de qualificação e a usina processa e vende o álcool, tudo sob auditoria. O resultado final deverá ser um álcool diferenciado, com mais valor agregado e, futuramente, com maior preço de mercado e lucros divididos entre todos.

"Antecipamos as exigências européias para comprar o álcool brasileiro. Estamos comprovando que o Brasil pode ter um álcool sustentado, ao contrário do que foi apregoado no exterior", diz o presidente da Assobari, Fernando César Gregório. Ele explica que, além da parceria, o projeto só foi possível porque há cinco anos os produtores associados vêm perseguindo e cumprindo a legislação ambiental e de segurança no trabalho. "Com isso, foi mais fácil adotar a gestão de qualidade nas propriedades."

Segundo Gregório, a gestão prevê a introdução de boas práticas agrosocioambientais, que vão desde preparo do solo e preservação ambiental, passando pelo plantio e pela colheita até o acompanhamento final do produto a ser processado e vendido pela usina.

"Mais do que certificar, o nosso sistema ensina aos produtores como devem ser as mudanças na propriedade e a maneira de conduzir as atividades para cumprir as normas socioambientais brasileiras e internacionais", diz o diretor da OIA, Edegar de Oliveira Rosa. As práticas também tiveram de ser adotadas na própria Assobari, com novas técnicas de administração e de pessoal.

READEQUAÇÃO

A usina também se adaptou. O diretor-superintendente da usina, Roberto Della Coletta, diz que foi preciso readequar o controle ambiental e a gestão administrativa conforme o protocolo. "Na parte ambiental, foram R$ 10 milhões para destinação correta da vinhaça e mais R$ 2 milhões para reaproveitamento de água", diz.

O protocolo também prevê, na usina, uma auditoria para acompanhar o recebimento e processamento da cana e a fabricação e comercialização do álcool produzido. "Mas o mais importante foi o relacionamento estreito entre indústria e fornecedores, essencial para o sucesso do projeto", diz Coletta.

Na última terça-feira, Coletta se reuniu com compradores internacionais interessados no álcool sustentado. "Estamos em contato com certificadoras internacionais, sobretudo da Europa." Neste ano, a usina exportou 4 milhões de litros de álcool. Para a próxima safra, deve exportar 7 milhões de litros, sendo 4 milhões de álcool sustentado. Segundo o usineiro, dos 2 milhões de toneladas de cana que a usina vai processar na próxima safra, 400 mil toneladas serão certificadas. Na safra deste ano, a Coletta processou 1,7 milhão de toneladas, sendo 900 mil fornecidas pela Assobari, 700 mil de plantio próprio e 100 mil de produtores independentes.

Agricultor deve virar administrador
Registro de todos os custos e atividades realizadas na fazenda é uma das vantagens da certificação

Chico Siqueira

Para chegar ao álcool sustentado, os produtores cumpriram mais de 300 exigências de boas práticas ambientais, agrícolas, administrativas e sociais. As mudanças estão presentes na administração rural, com planilhas de custos, registros de volume de aplicação de agrotóxicos, fertilizantes e adubos, uso de máquinas e pessoal, e mapas de localização física georreferenciada.

A mão-de-obra também mudou, pois os trabalhadores têm de ser qualificados - o Senar e Sebrae são responsáveis por isso, por intermédio de convênios - e a propriedade deve cumprir exigências sociais, como destinar convênios de saúde, ceder moradias, além de respeitar as normas de segurança e as obrigações trabalhistas. Atualmente, 62 famílias cultivam cana certificada.

Na parte agrícola, as propriedades adotam medidas ambientais, como preparo e manejo de solo e controle da erosão, proteção de fontes e nascentes, reflorestamento de mata ciliar e rotação de culturas. Ainda no campo, introduziram-se técnicas de aplicação de agrotóxicos, fertilizantes e adubos e destinação correta das embalagens, além de construção correta de curvas de nível, talhões e carreadores. Detalhe: cada propriedade teve de construir ou adaptar um depósito específico para armazenar agrotóxicos.

Segundo os técnicos da Assobari e da OIA, a nova situação mudou o perfil das propriedades. "O produtor está se transformando num administrador", diz o agrônomo José Reinaldo Schiavon, responsável pela gestão agroambiental e também canavicultor, mostrando as planilhas de duas propriedades, que juntas, têm 22 hectares de cana certificada.

"No meu caso o protocolo ajudou na preservação de áreas naturais", diz João Batista Foloni Filho, que deve colher em agosto 64 hectares de cana certificada. Ele explica a sua opção: "A certificação é o futuro; se quisermos continuar produzindo terá de ser assim." A grande vantagem da certificação é que o agricultor terá um "produto diferenciado" e "um controle maior da propriedade". Outro destaque da fazenda é a área de mata ciliar. "Cana e mata convivem harmoniosamente", diz.

A preservação da flora também é respeitada na Estância Bodoquena. "Fiz questão de isolar a área de mata", afirma Acácio Masson Filho. Ele fechou com uma cerca o acesso à mata, que fica próxima à plantação de 233 hectares de cana que pretende colher entre junho e agosto.

Um centro de convenções para a cana

Moacyr Castro

Sexta-feira, em Ribeirão Preto (SP), a cana-de-açúcar ganhou um centro de convenções. A idéia começou há 20 anos. Alguns cientistas que pesquisavam a cana passaram a se reunir uma vez por mês, para trocar resultados. Em pouco tempo, já eram mais de 20. O direito de participar das conversas continua: cada participante deve levar uma novidade, fruto de suas pesquisas. "Pouca gente sabe, mas o controle do vírus 'amarelinho' e da cigarrinha, além da variedade de cana SP-791011, a mais cultivada do País, nasceram dessas reuniões", diz o chefe do Centro de Pesquisa da Cana-de-Açúcar, Marcos Landell. Conforme os cientistas foram se incorporando, começou o sonho de transformar um barracão na Estação Experimental da Secretaria de Agricultura no centro de convenções, que tem auditório para 400 lugares, salas de estudos, cabines de tradução simultânea. Empresários e indústrias de fertilizantes e defensivos e cooperativas investiram R$ 800 mil, além da Secretaria da Agricultura, que colaborou com a pintura.

Produtor tem de cumprir todas as regras do protocolo

Chico Siqueira

No caso de Masson Filho, o certificado de um curso que será dado para o funcionário é o que falta para que a propriedade seja enquadrada definitivamente no protocolo. "Esse funcionário já está qualificado, mas ainda não tinha o certificado do curso de aplicação de agrotóxico", explica. "Agora ele vai fazer o curso e estará tudo certo", orgulha-se.

Para Masson Filho, uma das vantagens da certificação é que o produtor não pagará pelos erros dos outros. "Quando eu contratar pessoal para colher a cana, terá de ser de uma empresa registrada, certinha, conforme manda a lei. Se houver algum problema, quem deverá resolver é ela. Do jeito que estava o produtor ou a usina acabavam pagando o pato", diz Masson Filho.

Uma medida obrigatória é a construção, na propriedade, de um depósito para armazenamento de agrotóxico, de acordo com normas internacionais. O depósito deve ser feito com materiais antichama e ser padronizado para evitar que a água da chuva atinja os produtos e se espalhe pelo solo. No caso da Estância Bodoquena, o depósito existe, mas não será usado.

"Como a propriedade é perto da cidade, eu pego o agrotóxico no fornecedor, uso aqui e devolvo a embalagem ou o que sobrar no mesmo dia", diz. "Se precisar, vou lá e pego de novo", acrescenta. "Mas, mesmo assim, o protocolo obriga a existência do depósito, então ele ficará aqui, pois se o protocolo diz que deve ser assim, assim será", conclui.

Informações: Assobari, tel. (0--14) 3662-6180

OESP, 03/12/2008, Agrícola, p. 8-9

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