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Caminho de Peabiru mobiliza debate indígena após falsos documentos e pressão turística

Brasil de Fato - www.brasildefato.com.br
Autor: Clarissa Londero
28 de Abr de 2026

O plenarinho da Assembleia Legislativa de Santa Catarina foi palco para discussões a respeito do Caminho de Peabiru, a trilha ancestral guarani que ligava o oceano Atlântico ao Pacífico, na última sexta-feira (24). O trajeto se iniciava em Santa Catarina e rumava a noroeste até o atual Chile, conectando saberes ancestrais no que diz respeito à navegação, cultura tradicional, tempos naturais e espiritualidade.

Segundo o pesquisador em arqueoastronomia, o guarani Karaí Vydju, a palavra Peabiru significa "abrir caminhos de luz". Para ele, "entender a profundidade dessas palavras originárias" e levar para a Assembleia de Santa Catarina, "onde todos têm voz, é uma oportunidade ótima e ajuda que o caminho seja respeitado".

O seminário foi promovido pelo gabinete do deputado estadual Marquito (Psol) e articulado pela Rede Brasileira de Trilhas SC, no intuito de esclarecer o tema após a divulgação de falsos documentos que visavam efetivar a exploração turística das trilhas. O deputado considera o tema sensível e em constante disputa. "Por isso, promovemos reuniões ampliadas, audiências públicas e agora este seminário, para dar transparência e trazer luz ao debate."

Rosana Bond, autora de cinco livros sobre o Peabiru e considerada uma das maiores especialistas no assunto, levou ao seminário a análise do laudo do Ministério Público que investigou os falsos documentos que estão sendo divulgados desde 2021. Segundo ela, os envolvidos na publicação são da extrema direita e não possuem "qualquer embasamento teórico ou prático que demonstrasse domínio sobre os temas relacionados a documentos históricos e patrimônio arqueológico."

Valorização da fala dos povos indígenas

A organização do seminário declarou a importância de serem ouvidas as lideranças indígenas sobre o tema, tanto no dia do encontro quanto na regulamentação do uso das trilhas. Durante a manhã do evento, tiveram espaço de fala os representantes das culturas tradicionais que estudam a história e os saberes ancestrais dos seus povos.

Vydju é pesquisador dos símbolos e das histórias do Caminho de Peabiru e considera ser papel de quem sabe "levar adiante os ensinamentos" que os antepassados do seu povo "guardam a sete chaves". Tanto o caminho quanto os saberes que dele surgiram deixaram de ser estudados pelos Guarani após a colonização, e, portanto, necessitam ser novamente trazidos para a cultura desses povos.

O resgate dos saberes que envolvem Peabiru estão sendo acessados a partir de conversas e pesquisas junto ao ancião Alcindo Werá Tupã, já falecido. Vydju conta que esses ensinamentos estão adormecidos e cabe a sua geração "acordar e lembrar".

Em seu trabalho de pesquisa, o arqueoastrônomo está acessando histórias, compilando conhecimento e catalogando simbologias que o Caminho de Peabiru promovia. Segundo ele, o trajeto era uma bússola ancestral e de uma tecnologia sutil e avançada, que permitia acessar respostas sobre a vida, a espiritualidade, os tempos de colheita e semeadura, os caminhos a seguir e muitas outras respostas para a existência humana.

Esses conhecimentos eram lidos a partir das estrelas, da via láctea e do sol, como um mapa em que os povos antigos originários se baseavam. "Era o GPS e o relógio, dizia os caminhos e onde nascia e se punha o sol. O caminho do Peabiru, se olharmos para o céu, está em um ponto no meio da via láctea", afirmou ele.

Segundo a mediadora da mesa indígena do seminário, Kerexu Yxapryry, o conhecimento contido no caminho é sobre a vida do seu povo. "Se não entendermos isso, vamos andar perdidos por aí, perambulando. Vamos pisar em algo que não deveria, vamos sofrer."

Para ela, o movimento de exploração turística das trilhas não pode invisibilizar o real propósito de Peabiru e sua origem indígena, sem considerar a questão sagrada que existe nesse trajeto. "Esse seminário é importante pra mostrar que a gente é. Existimos agora e precisamos ser ouvidos nesse assunto", afirma.

A mesa indígena foi composta também pela doutora em arqueologia e liderança Laklãno Xokleng, Walderes Priprá. Para ela, os conhecimentos sobre Peabiru estão ainda sendo resgatados e ainda é necessário muito tempo de pesquisa, rodas de conversa e construção coletiva junto ao povo Guarani.

"Para garantir direitos nessa sociedade, precisa ser um trabalho científico, e ainda temos muito pouco disso sobre o caminho, precisa ser construído e isso leva tempo", afirma. A arqueóloga percebe pressa por parte dos brancos nesse tema, "como se precisasse haver uma canetada logo". "Para nós é preciso ter tempo, para que então possamos afirmar o que é o Caminho de Peabiru. Nós indígenas não temos interesse econômico nesses caminhos. Para os parentes Guarani, é o caminho sem males, é outra cosmovisão", ressalta ela.

História, arqueologia e pesquisa científica

A parte da tarde do seminário reuniu peritos para trazer as informações com embasamento científico que envolvem o Caminho de Peabiru. O professor de arqueologia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) falou sobre a importância de grandes caminhos trilhados pelo mundo, como o de Santiago de Compostela.

Em seu trabalho pessoal, estuda os caminhos das Missões Jesuíticas, no RS, cujo trajeto e uso turístico é regulamentado e protegido por órgãos públicos como Iphan. "Não devemos objetificar um caminho e nem tornar ele uma exploração do capital, e sim possibilitar que as pessoas acessem informações de uma interpretação do passado", avalia.

As áreas de arqueologia, antropologia e história podem, para ele, contribuir com a estruturação de caminhos turísticos por meio do compartilhamento de estudos embasados em pesquisas científicas. Isso permitiria disseminar apenas informações fundamentadas e ajudar na criação de políticas públicas que protejam e divulguem de forma responsável esses trajetos.

Turismo responsável

A última mesa do seminário reuniu profissionais da área do turismo ecológico e de aventura. Os profissionais trouxeram a necessidade de não seguir as buscas pelas trilhas do Caminho de Peabiru sem que antes os povos originários sejam ouvidos. O guia Geovane da Silva ressaltou a importância de construir uma rota turística junto com os indígenas. Ele contou que já se realiza um percurso simbólico que homenageia o caminho, no qual mais de 300 turistas passaram até hoje.

O Caminho do Peabiru é considerado uma das mais importantes redes de trilhas pré-colombianas da América do Sul e já há estruturação turística da rota nos estados do Paraná e de São Paulo. Para Sara de Moraes, representante da Rede Brasileira de Trilhas, esse tipo de turismo ajuda no desenvolvimento socioeconômico na região, quando feito com responsabilidade ambiental e cultural.

Os presentes na mesa concordaram que qualquer ação de turismo na rota precisa ser preparada e organizada junto aos Guarani para que as pessoas possam saber da história do caminho e a conexão com os povos indígenas e sua cosmovisão.

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