VOLTAR

Calor faz História nos EUA

O Globo, Ciência, p. 26
10 de Jul de 2012

Calor faz História nos EUA
País enfrenta recorde de temperatura num momento em que extremos superam previsões

Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br

Extremos de calor, frio, seca e chuva associados a mudanças climáticas superaram as previsões dos cientistas. Análises de James Hansen, do Instituto Goddard Ciências Espaciais da Nasa, rastrearam extremos em todo o planeta a partir de 1951.
Entre os eventos mais significativos está a onda de calor que assola os EUA desde o fim de junho. De fato, os últimos 12 meses foram os mais quentes da história americana desde o início dos registros, em 1895, segundo a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (Noaa).
A mesma onda está associada a uma espécie de furacão terrestre, um fenômeno raro, chamado derecho.
Causado pelo encontro de uma massa de ar estável com outra extremamente quente, ele varreu mil quilômetros da Costa Leste americana, com ventos de 145 km/h, em 29 de junho. Deixou 4,3 milhões de pessoas sem luz. E nos últimos dias os EUA têm registrado temperaturas de 45 graus Celsius em estados subtropicais, como a Carolina do Sul.
As anomalias não foram registradas apenas nos EUA. O principal evento extremo de julho - até agora - aconteceu no Sul da Rússia, onde enchentes mataram 150 pessoas. E as mudanças climáticas não dizem respeito só o calor. O frio tem sido mais irregular e severo. O inverno passado no Hemisfério Norte fez com monumentos históricos sofressem rachaduras em Roma. Localizada na borda norte no Deserto do Saara, a capital líbia Trípoli foi coberta por neve em fevereiro, destacou a revista britânica "New Scientist".
- Na Rio+20, o clima recebeu tratamento marginal, apesar de citado no texto final - critica Carlos Rittl, coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, que participou das negociações. - Apenas reconheceram a importância de se discutir o tema.
Os prognósticos preveem que, até 2015, o mundo atingirá o pico das emissões globais de gases-estufa. Se o índice não foi reduzido a partir daí, a temperatura global aumentará mais de 2 graus Celsius em relação ao que era registrado na era pré-industrial, e entraremos em um cenário no qual ninguém tem ideia do que ocorrerá com o planeta.
Rittl, ainda assim, é otimista. Espera que o mundo defina, nos próximos três anos, que protocolo seguirá a partir da próxima década. E que os países desenvolvidos, agora motivados por ondas de calor e invernos extremos, tomem atitudes concretas.
Mais proteção para áreas vulneráveis
Países em desenvolvimento também têm sofrido com extremos climáticos, embora seja prematuro afirmar que estão relacionados a mudanças climáticas de longo prazo. O Brasil atravessa este ano secas severas no Nordeste e na Região Sul. Na Amazônia, o Rio Negro registra cheia recorde. Em janeiro de 2011 chuvas torrenciais na Serra Fluminense causaram o mais desastre natural da história do país. O incidente deixou 100 mil desabrigados e tornou-se a 311 maior catástrofe ambiental de 2011, segundo o Centro Norueguês de Refugiados, que monitora calamidades semelhantes em todo o mundo.
- A comunidade internacional deve preparar-se para responder e encontrar soluções para as suas áreas mais vulneráveis - ressalta Elisabeth Rasmusson, secretária-geral do CNR. - Estamos desapontados com o fato de que não houve menção a esse tema no documento da Rio+20.
Extremos climáticos provocam desalojamentos, que deixam crianças sem educação, pais desempregados e prejuízos óbvios à saúde e economia daquelas comunidades.
Segundo o CNR, mais de 14,9 milhões de pessoas foram desalojadas no ano passado devido a desastres naturais. A grande maioria (92%) das migrações internas deveu-se a extremos climáticos, como enchentes e secas.

O Globo, 10/07/2012, Ciência, p. 26

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.