CB, Brasil, p.14
21 de Jan de 2004
Caiovás-guaranis em pé de guerra
Armados, índios anunciam que vão resistir à ordem judicial para que desocupem 14 fazendas na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Polícia Federal pede reforço para realizar a operação
Os índios caiovás-guaranis têm armas de fogo e estão prontos para resistir à desocupação das 14 fazendas que ocupam nos municípios de Iguatemi e Japorã, na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Quem se aproxima é recebido com tiros na Fazenda São Jorge, em Iguatemi, invadida desde dezembro. Pelo menos dois índios entre as dezenas que estão no local não carregam apenas arcos, flechas e bordunas.
A ordem de despejo foi dada no último dia 16 pelo juiz federal Odilon de Oliveira, do Fórum de Dourados, e o prazo para a saída pacífica venceu ontem. A operação de despejo está sendo preparada pela Polícia Federal. O superintendente da PF em Mato Grosso do Sul, Wantuir Jacini, está negociando o envio de reforços, uma vez que não haveria estrutura local suficiente para efetuar a retirada dos índios.
Resistência
No fim da tarde de ontem, cerca de 3,7 mil índios continuavam nas fazendas invadidas e seus líderes avisavam que haverá luta e mortes caso haja tentativa de retirá-los. ''Tem gente aqui que quer a carne de branco. Nós conhecemos o mato, o branco não conhece. Podem matar muitos de nós, mas muitos deles também vão morrer'', disse o cacique. Ele não quis se identificar nem mesmo na sua língua. O cacique disse que os índios foram abandonados pela Fundação Nacional do Índio (Funai). ''Onde estão? Sumiram todos'', afirmou.
De acordo com o cacique, os índios estão armados por causa das ameaças feitas pelos fazendeiros. ''Soubemos que eles estão armando uns duzentos jagunços para tirar a gente à força daqui. Eles que venham, podem matar a gente, mas muitos vão tombar.'' Segundo ele, as informações dão conta que os ''brancos'' iriam fechar as estradas de acesso às áreas invadidas ontem à noite. ''Se barrarem, a gente vai passar assim mesmo.''
Um grupo de fazendeiros reuniu-se ontem em Iguatemi para discutir a questão. Segundo o produtor rural Márcio Margatto, eles querem que a decisão do juiz Oliveira seja cumprida de forma imediata. ''Há um consenso de que precisamos fazer alguma coisa, pois parece não haver interesse em realizar o despejo determinado pela Justiça.'' Os índios já invadiram mais de 9 mil hectares e, segundo Margatto, estão matando bois.
Negociações
Em Roraima, as negociações para a homologação da reserva Raposa Serra do Sol começam na sexta-feira, quando integrantes do grupo de trabalho interministerial criado pelo governo federal desembarcará no estado. Estão previstos encontros com representantes do governo estadual, dos índios favoráveis e contrários à homologação, da Igreja Católica, dos evangélicos, do Ministério Público Federal e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Representantes dos produtores do estado preparam documento a ser entregue aos técnicos dos sete ministérios. O presidente da Comissão Indigenista e de Terras da Federação da Agricultura de Roraima, Ermilo Paludo, questiona se a Fundação Nacional do Índio (Funai) tem dinheiro suficiente para indenizar quem está na área da reserva e será despejado.
A preocupação do governo com a disputa entre índios e fazendeiros na Reserva Serra do Sol, em Roraima, levou ontem os ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, a se reunirem para tentar encontrar uma solução para o conflito. Antes do encontro, o ministro da Justiça evitou polemizar com os militares, que prepararam relatórios entregues ao Planalto advertindo sobre a ameaça à segurança nacional, caso a reserva seja demarcada em terras contínuas.
Para o antropólogo Paulo Santilli, que participou do trabalho de definição da área indígena, esse argumento não tem sentido. ''É um argumento antigo e sem sustentação'', diz ele, lembrando o debate que ocorreu durante o governo de Fernando Collor de Mello sobre a demarcação da reserva dos ianomâmis, também em Roraima.
CB, 21/01/2004, Brasil, p. 14
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.