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Cadê a responsabilidade com as questões sociais?'

O Globo, Razão Social, p. 4-6
Autor: SCANNAVINO NETO, Eugenio
03 de Jul de 2006

Cadê a responsabilidade com as questões sociais?'

Entrevista/Eugenio Scannavino Neto, fundador do GTA

Por Amélia Gonzalez

Fundador do Grupo de Trabalho da Amazônia, que reúne 608 entidades no local, médico infectologista, ongueiro, e atualmente palestrante de vários fóruns sobre responsabilidade social, Eugenio Scannavino Neto fez uma pausa na administração da ONG Saúde e Alegria e está no Sul com uma missão: aproximar os empresários daqui da Amazônia. Para isso, quer como aliados os publicitários. O médico empreendedor social, que ganhou o prêmio Schwab de 2005, quer mostrar que a Amazônia não precisa só de investimento no meio ambiente, mas também na área social. Scannavino fala ainda sobre o papel das empresas socialmente responsáveis e alerta: "É preciso ver o custo social que o aumento de consumo traz".

O Globo:Na sua visão de ongueiro, pode dizer o que tem mudado na postura dos empresários nos últimos dez anos?

Eugênio Scannavino Neto: Eu acho que a questão da responsabilidade social está crescendo, está se tornando um marco de qualidade das empresas. Mas está muito mais no marketing do que na realidade e ainda precisa que elas vejam também a questão da responsabilidade ambiental. O futuro do mercado é este e quem não se alinhar agora não vai conseguir competir quando, por exemplo, os produtos corretos forem submetidos à legislação. Acho que as empresas ainda não compreendem muito o que significa isso.

O Globo:E o que significa isso?

Scannavino Estou falando da responsabilidade ambiental, veja bem. Porque a social é muito mais forte, causa mais impacto. Hoje em dia ninguém quer comprar de empresas ambientalmente ruins. E as empresas que estão olhando para isso têm um marketing melhor, uma marca mais moderna. Para manter o nome com seus pares e também para atender, gerar um nível de solidariedade dos funcionários dela e da comunidade do entorno. Mas, cadê a responsabilidade com programas sociais, estratégias e investimentos sociais? Vejo que existe ainda muito interesse de lucro, não propriamente o financeiro, mas ainda são ações de interesse.

O Globo:Você acredita que isso vai mudar? Que as pessoas vão conseguir pensar em preservar a natureza pela natureza e não para o homem poder desfrutar mais e mais?

Scannavino Vai sim, por imposição. O homem não consegue dar um passo certo sem ter dado todos os errados antes. A gente erra em tudo, quando não tem mais como errar, a gente vai no certo.

O Globo:Quais são os nossos maiores erros?

Scannavino Tem algumas coisas óbvias que estão na nossa frente. Por exemplo: a globalização é baseada em consumo. Um mundo com seis bilhões de pessoas que tem como modelo aumentar o consumo é inviável. A China desenvolveu 10%, mas olha o modelo, vai ver o que aquela sociedade está gerando: gera-se uma ilusão de consumo nos excluídos e cria em 90% das pessoas desejo e frustração, normalmente acompanhado de ódio e violência. Além do lixo e tudo o mais. Mesmo assim, não se fala, ou pouco se fala, em projetos para distribuir riqueza, mas para gerar emprego e mais consumo.

O Globo: Qual o modelo ideal?

Scannavino Não tem modelo ideal, tem que ter a sustentabilidade na cabeça e responsabilidade no sentido de inclusão de pessoas.

O Globo: Qual o papel das empresas nisso?

Scannavino Elas têm sensibilidade de que já tiveram muito lucro e precisam retornar isso para os consumidores. Só que, como o lucro é voltado para si mesmo, ela vai voltar com alguma coisa para gerar mais lucro, agregar uma área social. Não é uma ação que faz parte da globalização, mas das preocupações da globalização, ou seja, de incluir muita gente no mercado. Eu acho correto ter capacidade de consumo, mas tem que ver a outra ponta: o custo social, ambiental, desta produção.

O Globo:Qual o custo social?

Scannavino Não adianta dar capacidade de consumo para uma pessoa que não tem capacidade de consumir conscientemente. O desnutrido vai continuar desnutrido se não for ensinado a se alimentar melhor. No Brasil, hoje, existe a fome oculta: pessoas gordas, que comem muito carboidrato.

O Globo: Como você, com esta visão, se tornou referência neste meio globalizador?

Scannavino Primeiro porque tenho vinte anos de ONG, sou médico mas odeio ser chamado de médico bonzinho que dedicou a vida aos pobres porque não é isso. Temos um projeto para melhorar o mundo: eu não posso ver uma criança com diarréia sabendo que o cloro que pode evitar isso não custa nada. Por outro lado, nosso grande desafio na Amazônia é sair um pouco da dependência do governo, de entidades cooperantes, chegar mais junto justamente do segundo setor, das empresas. Porque eles querem fazer responsabilidade, a gente precisa de recurso. Essa aproximação é muito útil porque a gente sabe como fazer e eles querem saber. Ainda não existe um financiamento em larga escala para absorverem nossas tecnologias, mas está começando.

O Globo: Você foi convidado para ir ao Forum de Davos este ano. Como vai ser sua participação?

Scannavino Existem soluções na sociedade para todos os tipos de problemas. Pretendo dizer a eles: já estamos agindo localmente, e aí? Vocês não vão agir globalmente? É uma proposta mesmo, para tentar articular soluções e divulgá-las em larga escala.

O Globo: A questão da comunicação também preocupa você, não é?

Scannavino Nós, do terceiro setor, somos amarrados ao preciosismo do conceito. Ando evitando falar de conceitos meio batidos. O que eu quero é aprender com as empresas a fazer o marketing que elas fazem. Olha, para mim, uma inovação maior do terceiro setor seria a entrada dos publicitários na causa. Porque está tudo muito localizado. A responsabilidade das empresas, a sustentabilidade das cadeias produtivas, a experiência das ONGs... nós já estamos na mesma festa mas ninguém se conhece.

O Globo: Qual o plano, então?

Scannavino Tem que ter estratégias mais contundentes, botar os marqueteiros em cima e trazer o governo a reboque. Porque quando empresas e ONGs se juntarem, o governo, que é quem tem a capacidade de realmente realizar em grande escala, vai ter que vir atrás. A Amazônia não se relaciona muito com as empresas.

O Globo: Onde é que as empresas podem entrar?

Scannavino Esta é a minha área, por isso estou aqui em São Paulo, para tentar aproximar a Amazônia do setor privado. Para você ter uma idéia, fundei um grupo que se chama Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA), que tem 608 entidades que não têm dinheiro, não têm estrutura, estão isoladas, mas são elas que estão defendendo a Amazônia na prática. Elas é que moram lá, não deixam invadir, botam lei para os pescadores, não deixam entrar caçador. E precisam de dinheiro. Minha idéia é levar um grupo de empresários aqui do Sul para a Amazônia em novembro. Porque eles têm que assumir a Amazônia como sua responsabilidade e forçar o empresário de lá a tomar pé. Porque os empresários de lá respeitam os grandes líderes, que são os empresários aqui do Sul. O governo não tem tem capacidade de fazê-los se submeter.

Saia justa e boas promessas
Empresa acusada de desmatamento se encontra cor ONG do Pará

Por Amélia Ganzalez

Eugenio Scannavino protagonizou um momento polêmico na Conferência Internacional do Instituto Ethos realizada no fim do mês passado em São Paulo. Ele foi convidado para participar da; mesa-redonda onde se discutiria se é possível evitar o desmatamento da Amazônia. Com ele estavam o presidente do Grupo Orsa, Sergio Amoroso um dos diretores da Vale do Rio Doce Maurício Reis; o secretário de Biodiversidade do Ministério de Meio Ambiente, João Paulo Capobianco e o presidente da Cargill, Sergio Alair Barroso. Ocorre que a Cargil é uma das empresas contra as quais Scannavino mais tem se batido por causa da devastação causada pelo plantio' dá soja no bioma amazônico, Como,era de se. .esperar, a saia justa foi imensa diante de uma platéia que tinha cerca de mil pessoas.

Já seria uma situação constrangedora pela simples presença dos dois antagonistas na mesma mesa. Ficou ainda mais quando Scannavino pediu licença à platéia para fazer com que um vídeo "falasse" por ele. Era uma reportagem do programa "Fantástico",
da Rede Globo, exibida no dia 18 de junho, que mostrava a situação de tensão permanente na Amazônia entre sojeiros e habitantes da região. A soja desmata, destrói a terra, não dá emprego para os moradores e exporta toda sua produção, segundo a reportagem da Globo. E uma das empresas citadas no vídeo era justamente a Cargill que, segundo o Ministério Público, construiu ali um porto ilegal.

Sergio Barroso teve direito a réplica. Disse que a. empresa não foi procurada pela reportagem do "Fantástico" e que eram inverídicas as acusações, do Ministério Público. Acrescentou que a expansão da soja no bioma amazônico é pequena e que é um direito brasileiro usar os rios. Defendeu uma auditoria externa na Amazônia e disse que a empresa apóia a iniciativa de ONGs: Scannavino; por sua vez, afirmou que não é contra a plantação de soja, desde que não seja no bioma amazônico. E lembrou que, diferente mente do que acredita a Cargül, o povo do Pará não é miserável nem precisa ser salvo.

- Eles estão lá porque querem. E são os verdadeiros guardiões da Amazônia - disse Eugenio, que foi aplaudido de pé durante uns cinco minutos, :antes de informar que os paraenses estava acompanhando a palestra via site da Ethos.
- Tem centenas, de pessoas em volta de uma tela no Pará nesse momento, ouvindo tudo o que é dito aqui - acrescentou o médico.

Sergio Barroso ficou, vermelho, a voz quase sumiu. Oded Grajew, presidente do Conselho do Ethos e mediador da mesa, no entanto, pediu a palavra para lembrar que o movimento de responsabilidade social permite este tipo de discussão democrática:

- Sergio sabia.que a empresa seria criticada. E tudo o que aconteceu aqui vai servir como reflexão disse Oded, que conseguiu do empresário a promessa de que vai assinar o Pacto contra o Trabalho Escravo -Este é o nosso movimento. Ser associado ao Instituto Ethos não significa dizer que a empresa é boazinha. Nós não fazemos o papel de fiscais. Ajudamos as que se sentem" corri :desejo de seguir nossos indicadores. E -sabemos que, dessa forma, conseguimos também muitas mudanças comportamentais de empresas, que não sabiam como ser socialmente responsáveis e que se sentiram pressionadas em eventos como este a seguirem uma postura compatível com o que se espera de uma: corporação responsável.

O presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young, "ancorou" o empresário até a porta de salda. Mais tarde, 'contou que no caminho Sergio Barros disse que tomará providências daqui por diante para que as atitudes da Cargil no Pará sejam revistas.
A pressão provocada por uma platéia participativa, neste caso, arrancou pelo menos boas promessas do empresário. É o que se espera do movimento de responsabilidade social.

O Globo:Qual o custo social?

Scannavino Não adianta dar. capacidade de consumo para uma pessoa que não tem :capacidade de consumir conscientemente. 0 desnutrido vai continuar desnutrido se não for ensinado a se alimentar melhor. No Brasil, hoje, existe a fome oculta: pessoas gordas, que comem muito carboidrato.

O Globo: Como você, com esta visão, se tornou referência neste meio globalizados?

Scannavino Primeiro porque tenho vinte anos de ONG, sou médico mas odeio ser chamado de médico bonzinho que dedicou a vida aos pobres porque não é isso. Temos um projeto para melhorar o mundo: eu não,posso ver uma criança com diarréia sabendo que o cloro que pode evitar isso não custa nada. Por outro lado, nosso grande desafio na Amazônia é sair um pouco da dependência do governo, de entidades cooperantes, chegar mais junto justamente do segundo setor, das empresas. Porque eles querem fazer responsabilidade, a gente precisa de recurso. Essa aproximação é muito útil porque a gente sabe como fazer e eles, querem saber.
Ainda não existe um financiamento em larga escala para absorverem nossas tecnologias, mas está começando.

O Globo: Você foi convidado para ir ao Forum de Davos este ano. Como vai ser sua participação?

Scannavino Existem soluções na sociedade para todos os tipos de problemas. Pretendo dizer a eles: já estamos agindo localmente, e aí?
Vocês não vão agir globalmente? É uma proposta mesmo, para tentar articular soluções e divulgá-las em larga escala.

O Globo: A questão da comunicação também preocupa você, não é?

Scannavino Nós, do terceiro setor, sorvos amarrados ao preciosismo do conceito. Ando evitando falar de conceitos meio batidos. 0 que eu quero é aprender com as empresas a fazer o marketing que elas fazem. Olha, para mim, uma inovação maior do terceiro setor seria a entrada dos , publicitários na causa. Porque está tudo muito localizado. A - responsabilidade das empresas, a sustentabilidade das cadeias produtivas, a experiência das ONGs... nós já estamos na mesma festa mas ninguém se conhece.

O Globo: Qual o plano, então?

Scannavino Tem que ter estratégias mais contundentes, botar os marqueteiros em cima e trazer o governo a reboque. Porque quando empresas e ONGs se juntarem, o governo, que é quem tem a capacidade de realmente realizarem grande escala, vai ter que vir atrás. A Amazônia não se relaciona muito com as empresas.

O Globo: Onde é que as empresas podem entrar?

Scannavino Esta é a minha área, por isso estou aqui em São Paulo, para tentar aproximar a Amazônia do setor privado. Para você ter, uma idéia, fundei um grupo que se chama Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA), que tem 608 entidades que não têm dinheiro, não têm estrutura, estão isoladas, mas são elas que estão defendendo a Amazônia na prática. Elas é que moram lá, não deixam invadir, botam lei para os pescadores, não deixam entrar caçador. E precisam de dinheiro.
Minha idéia é levar um grupo de empresários aqui do Sul para a Amazônia em novembro. Porque eles têm que assumir a Amazônia como sua responsabilidade e forçar o empresário de lá a tomar pé. Porque os empresários de lá respeitam os grandes.líderes, que são os empresários aqui do Sul. 0 governo não tem capacidade de fazê-los se submeter.

O Globo, 03/07/2006, Razão Social, p. 4-6

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