Isto É, Brasil, p. 50-53
01 de Nov de 2006
Cacique do Brasil
Megaron, o poderoso líder dos caiapós, é recebido em palácios dentro e fora do País na luta para preservar suas terras. Mas a globalização não minou a solidariedade. Foi peça-chave para que as vítimas do acidente com o avião da Gol pudessem ser resgatadas
Por Hugo Marques (MT)
Um olhar menos apurado pode esbarrar na miopia e só enxergar o bravo Megaron como mais um cacique que pinta o corpo para a guerra e se integra à natureza exuberante do Xingu do mesmo jeitinho que veio ao mundo. Megaron tem mostrado que faz jus à tradução de seu nome e é, de fato um "Espírito Grande". O poderoso líder dos caiapós administra uma reserva natural de 8,5 milhões de hectares, o equivalente a três Bélgicas. O imenso território corta os Estados do Pará, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Como se não bastasse, é banhado por veios de ouro e florestas intactas de mogno. Megaron é um guerreiro que luta pela preservação das áreas de seu povo. Nessa batalha, ele não abre mão da tecnologia de ponta, como câmeras digitais, modernos notebooks e celulares. Sem esses equipamentos seria impossível manter uma linha direta com as assessorias do imperador do Japão e dos presidentes da França e dos Estados Unidos, que financiam projetos nas aldeias da região, uma área habitada por quatro mil guerreiros que adoram colecionar armas e detestam ONGs.
Aos 56 anos, Megaron conhece 50 países. É ele o sucessor de seu lendário tio Raoni, o "Onça Sábia", que tem 80 anos, segundo cálculos feitos com base no desgaste do terceiro molar. O perfil globalizado de Megaron não o impede de exercer seu lado mais nobre: ser um índio. Descalço e com o corpo pintado, o cacique contrariou os militares ao entrar, junto com seus comandados, na mata que conhece como ninguém para ajudar a resgatar os restos mortais das vítimas do acidente com o Boeing da Gol. O jato espatifou-se em suas terras, que servem até hoje de cemitério para três centenas de garimpeiros e madeireiros que se atreveram a invadi-la.
Megaron, 86 quilos de músculos distribuídos por 1,78 m de altura, também coloriu o corpo de preto e vermelho para outra batalha: a que trava no governo para impedir a exploração de madeira e minérios nas aldeias. "Não vou aceitar que invadam nossa terra", adverte o guerreiro. No dia 18 de agosto, Megaron e o tio Raoni tiveram audiência com a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Ellen Gracie. Entregaram a ela uma "carta-denúncia" contra a Funai. Raoni narrou uma série de "irregularidades", cometidas "em detrimento da sociedade indígena". O velho cacique diz ter sido vítima de tentativa de envenenamento pela cúpula da Funai. Ele pediu à ministra mais controle sobre a ação das mineradoras e madeireiras. Megaron, no entanto, já tinha enviado à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, no início do governo, um alerta sobre a venda de madeira apreendida nas aldeias sem edital, o que causou "sérios conflitos entre comunidades indígenas". Já na denúncia apresentada ao STF, os caciques pediram a substituição da direção da Funai. E também denunciaram que os depoimentos de índios refugiados estão sendo omitidos em processos de demarcação de terras indígenas. Ellen Gracie ficou de encaminhar a denúncia ao Ministério Público Federal.
No conselho indígena dos caiapós, formado pelos anciãos, dizem que Megaron "saiu da aldeia para aprender a amansar os brancos". Ele é administrador executivo regional da Funai em Colíder, em Mato Grosso, há dez anos. É nas reuniões com os conselhos indígenas que ele administra o Xingu. Megaron e Raoni viajaram pelo mundo em 1989, para recolher dinheiro e montar o Parque do Xingu, na companhia do cantor britânico Sting. O primeiro administrador do Parque foi Megaron. Agora, uma das primeiras iniciativas do governo ao saber da contrariedade dos caciques foi mobilizar a Agência Brasileira de Inteligência para monitorar os negócios com madeira nas reservas. Apesar da retaliação, Megaron é considerado pela cúpula do governo como uma peça importante para tentar administrar e pacificar a região. O cacique preserva 100% da integridade cultural dos caiapós. Come carne de macaco e jacutinga, anda nu quando está nas aldeias, se embrenha na floresta. Além disso, adquiriu grande poder de negociação. Somente 10% dos caiapós falam português. Desde adolescente, Megaron foi assistente do sertanista Orlando Villas Bôas. Nos contatos com tribos indígenas no Xingu, "Espírito Grande" ajudava na tradução das línguas e na interpretação do pensar de 14 aldeias, hoje unificadas. O sertanista ensinou Megaron a falar português, a negociar. E, principalmente, reagir: "O Orlando nos orientava que a gente tinha de se reunir e lutar, senão ficaríamos sem a nossa terra", confirma o cacique Paiê Caiabi, amigo de Megaron.
Os antropólogos que acompanham os caiapós acham que o governo federal tem irritado muito os índios, construindo hidrelétricas em seus territórios. Outro problema que eles apontam é a falta de interlocução na esfera da cúpula federal. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu os caciques várias vezes. Ficava até duas horas ouvindo e contando histórias. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca recebeu Megaron no Palácio do Planalto. Acostumados a pisar nos tapetes vermelhos dos castelos europeus, os caciques vêem como desprestígio a falta de convite para subir a rampa do Planalto. "Os índios caiapós têm grande consciência política", diz o doutor em antropologia José Borges Gonçalves Filho, aluno do etnólogo Pierre Verger e que está há 30 anos ao lado dos caiapós. "Eles têm uma auto-estima muito elevada", atesta "Cabelo de Milho, como é chamado pelos índios por causa de seus cabelos loiros e lisos. Os índios do Xingu, explica o antropólogo, acreditam que o homem civilizado vai desaparecer, por ter quebrado a lógica do funcionamento do universo, abandonando a ecologia como sistema econômico e privilegiando o acúmulo de riquezas e o individualismo. "Os índios querem apenas se proteger do que eles consideram uma sociopatia", diz José Borges.
O espírito de solidariedade e dor foi o que mobilizou Megaron e os seus quando ele recebeu a notícia da tragédia do vôo 1907 da Gol. Ele deixou os oito filhos na casa de madeira de dois quartos em Colíder, em Mato Grosso, para se embrenhar na mata, à procura dos corpos dos passageiros. O cacique Bep Jay, da aldeia Piaraçu, enviou mensagem pelo rádio na tarde da sexta-feira 29 de setembro. "Moricó (avião) grande caiu." Megaron pegou um táxi aéreo, mas a Aeronáutica não permitiu que ele descesse em área próxima do acidente. O cacique voltou para Colíder. No sábado 30, às 20 horas, Megaron pediu um adiantamento em dinheiro e foi de carro ao local do acidente. Depois de percorrer 340 quilômetros, 240 deles de terra e buracos, chegou à aldeia Piaraçu na madrugada de domingo. Mais quatro horas de barco e uma longa caminhada na floresta, chegou ao local do acidente com 22 guerreiros.
Os índios ajudaram a fazer as clareiras que permitiram a descida dos helicópteros. Foram eles que localizaram restos mortais a meio quilômetro do local onde caiu a cabine do Boeing. "Fiquei impressionadíssimo com o trabalho dos índios", disse o major bombeiro Alessando Mariano, de Mato Grosso. "Os caiapós foram também grandes peritos, com uma sensibilidade muito aflorada para estender as mãos." Na terça-feira 10 de outubro, o cacique se preparava para desmontar acampamento. Mas oficiais da Aeronáutica receberam informações sobre uma invasão dos "ratos de rio", saqueadores que roubam jóias e pertences das vítimas. Desta vez, os militares pediram colaboração. "Tinha gente querendo entrar. Nós não deixamos", afirmou Megaron. O guerreiro ainda não deu a missão por encerrada. Ele vai levar parentes das vítimas da tragédia para um trabalho espiritual no local do acidente. "É estranho, mas é como se a gente continuasse ouvindo ecos de gritos no local da tragédia", diz Armando Sócrates, assessor da Funai que participou da missão. "Há muitos espíritos perdidos naquele local da selva", afirmou Megaron, para emendar: "O trabalho espiritual é para que as almas sejam libertadas e descansem.
Isto É, 01/11/2006, Brasil, p. 50-53
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