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Cachaça Ypioca ameaça lagoa de Indígenas - RACISMO AMBIENTAL EM SELOS ORGÂNICOS

Freitag - o jornal de Berlin
Autor: Norbert Suchanek
12 de jan de 2007

Quase todo garçom conhece a cachaça Ypioca: Com 4.000 hectares de lavoura ela é a maior produtora e exportadora de aguardente de cana, ingrediente principal da caipirinha que está na moda na Alemanha. Na sua página da web a empresa se apresenta como defensora do meio ambiente, por não transformar todo o terreno à sua disposição em monoculturas de cana-de-açúcar e por ter proclamado 40 hectares nas proximidades da Lagoa Encantada como área de proteção da Mata Atlântica. Mas a realidade é bem outra, critica o cientista Jeovah Meireles professor da Universidade Federal do Ceará (UFC). Segundo o qual a Ypioca explora e polui as reservas de água dos índios locais e está destruindo o ecossistema da lagoa.

No decorrer do primeiro seminário sobre racismo ambiental realizado em novembro do ano passado no Rio de Janeiro, Jeovah Meireles relatou pela primeira vez os fatos entorno do gigante da cachaça. Sem interrupção a Ypioca estaria retirando a água da lagoa para a produção de aproximadamente 80 milhões de litros de álcool por ano e para irrigar sua monocultura. Ao mesmo tempo a empresa que, diga-se de passagem, também produz garrafas em PVC, nocivas ao meio ambiente, para o seu empreendimento de água mineral que está em pleno auge, contamina através de seus efluentes as reservas de água dos índios Jenipapo-Kanindé.

"Há quatro anos trabalhamos em estrita cooperação com os Jenipapo-Kanindé", informa Meireles. "A lagoa é sua base ecológico-cultural". A exploração dos recursos aqüíferos pela Ypioca estaria ameaçando a sobrevivência física e cultural deste povo indígena, fato que já levou os nativos a denunciar a empresa. Não obstante isso, o Instituo Demeter brasileiro o Instituto Biodinâmico (IBD) não se conteve em condecorar a cachaça Ypioca com um selo orgânico, visto que a empresa também aplica as bio-normas em uma pequena parte de sua monocultura de cana-de-açúcar, aproximadamente dez por cento. Em meados de dezembro de 2006, após a ameaça à lagoa se tornar pública o IBD retirou o selo orgânico da produtora de cachaça. A Ypioca teria perdido o selo por "motivos técnicos", assim foi a justificativa do bio-certificador brasileiro. O instituto sujeitará a partir de agora a produtora de álcool a uma fiscalização minuciosa que incluirá o problema da lagoa e sua população indígena.

Não obstante isso outros latifundiários e companhias latino-americanas exibem o selo orgânico da versão brasileira do Demeter. Também o maior produtor de óleo de palmeira (dendê) da América Latina e precursor do Brasil em negócios bio-diesel ou "diesel de palmeira", o grupo Agropalma. Por isso, em outubro passado, a companhia foi habilitada a se apresentar como empresa "ecologicamente correta" na Biofach América Latina em São Paulo. Segundo informação da própria empresa, a companhia possui atualmente 105.000 hectares de terras na Amazônia no Estado do Pará. Em 34.000 hectares ela já está cultivando suas palmeiras - uma planta nativa do oeste da África; em outros 5.000 hectares no Pará o cultivo é feito por "pequenos produtores". A companhia fornece 80 % de toda a produção de óleo de palmeira (dendê) do Brasil.

Porém "plantações para a extração de bio-diesel (do óleo de palmeira) promovem o desmatamento, o conflito de terras, a fome e a carência de água potável", reclama há tantos anos a organização alemã para a proteção das florestas tropicais "Rettet den Regenwald" (salvem a floresta tropical). Ao invés de cobrir com um "manto verde" o bio-diesel, dever-se-ia proibir a produção industrial de energia obtida através de plantas tropicais.

Carlos Alberto de Castro, representante de aproximadamente 15.000 pequenos produtores organizados em cooperativas também entende que o bio-diesel obtido do óleo da palmeira ou da soja representa um dos maiores perigos da Amazônia. O bio-boom geral, critica Alberto de Castro, atualmente passa por cima dos pequenos produtores e dos produtores realmente eficazes (persistentes) no Brasil, sobretudo por causa das taxas elevadas para obter o certificado impostas por uma empresa internacional de emissão de certificados ou por uma associação de cultivo orgânico: "Uma certificação custa na média R$ 10.000,- (cerca 3.500,- €). Como é possível para as famílias de pequenos produtores comprarem o selo orgânico quando conseguem produzir apenas alguns vidros de geléia por semana ?". Por isso sua associação de pequenos produtores intenta conceber nos próximos anos um "eco-selo" próprio com um sistema de certificação apropriado.

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