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Caçadores de cacau selvagem

OESP, Paladar, p. P7
14 de Abr de 2011

Caçadores de cacau selvagem
Nas margens do caudaloso Purus, morada de tucunarés e mosquitos vorazes, esconde-se o cacaueiro nativo da Amazônia. Só olhos treinados o veem. Seus frutos, pequenos e saborosos, são a própria alma do chocolate

Cíntia Bertolino
CANACURI, AMAZONAS

Procurar cacaueiros na floresta amazônica sem olhos treinados e um GPS interno - que só quem nasceu às margens de um grande rio e de uma floresta imensa tem - seria como tentar achar agulha num palheiro povoado por mosquitos enxeridos e formigas enormes.
Nada disso distrai Alisson Apurinã de seu trabalho. Há três anos, quando começa o mês de março, o jovem de origem indígena salta da cama ao nascer do sol, pega o barco e navega o Rio Purus em busca de cacaueiros nativos espalhados pela floresta do sul do Estado do Amazonas. Os cacaueiros, alguns muito antigos e altos, são parte do ecossistema e até pouco tempo davam frutos sem que ninguém se dispusesse a colhê-los. Por não terem sido plantados pelo homem, esses cacaueiros dão um fruto diferente, menor e de sabor mais forte que o das espécies cultivadas.
Menos amargo, o cacau selvagem, ou nativo, tem boa acidez e um gosto característico de chocolate. "Quando se pensa em chocolate, é isto aqui. Ele não é tão frutado, mas é a quintessência", diz o americano Frederick Schilling, um dos criadores do chocolate Amma em sociedade com o baiano Diego Badaró.
Achar os cacaueiros em meio às outras árvores não é tarefa fácil. Em março, quando tem início a coleta, que se estende até meados de maio, Apurinã começa a procurar os frutos às 7 da manhã. Chega de barco, ou canoa, à beira de um dos locais mapeados e, com quatro grandes sacos, saí à caça.
Alguns cacaueiros passam dos 25 m de altura - e aí não há podão que alcance. Só escalando a árvore, o que Apurinã faz com uma agilidade impressionante. Num dia bom, com os sacos transbordando, termina o expediente às 3 da tarde. E depois de colher ainda tem de levar a carga nas costas até o barco.
O trabalho seria mais fácil se a própria natureza não se encarregasse de impor obstáculos e brincar de esconde-esconde com os coletores. Os ribeirinhos explicam a equação muito conhecida entre eles: quando a coleta é boa numa região, no ano seguinte diminui consideravelmente. Essa lógica pode ser explicada de acordo com a região, o microclima e a idade das árvores. "Em 2009, deu muito cacau. Choveu tanto que o rio transbordou e inundou a floresta. A gente tinha de entrar de barco no meio das árvores para colher os frutos", diz Apurinã, ao comentar que a produção do ano passado foi menor.
Da Amazônia à Alemanha. Às margens do Purus há muito cacau. Mas os cacaueiros só nascem na varge, onde, de tempos em tempos, a terra é alagada. E não se iludam quanto às dimensões das margens. Na Amazônia tudo é amplificado: da nascente, na Serra da Contamana, no Peru, à foz, no Rio Solimões, são mais de 3.300 km. Os habitantes de 65 pequenas comunidades ribeirinhas coletam os frutos nativos ao longo de 1.000 km nas margens esquerda e direita do caudaloso e barrento Purus, morada de tucunarés, curuaçus, caracus, mandis, piramutabas e tantos outros peixes saborosos que nutrem os ribeirinhos.
A coleta começou a ser explorada comercialmente em 2005 pela Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus (Cooperar, tel. 97/3453-5135), que desde então vende toda a produção a um comprador alemão (leia abaixo).
Da floresta, o cacau vai de barco para um dos três locais de beneficiamento montados pela Cooperar ao longo do rio. Lá, as amêndoas são fermentadas e secas.
Em Canacuri, comunidade ribeirinha onde vivem 13 famílias e só se chega de barco, Jessivaldo Justino da Silva é o responsável pelo processamento. Revira as amêndoas oito vezes por dia para que sequem uniformemente. Vão para Boca do Acre e sacolejam num caminhão por quase uma semana até chegarem ao porto de Santos, onde viajam de navio para a Alemanha.
Tanto trabalho, segundo os especialistas, é compensado pela qualidade do fruto. "Eles estão fazendo um ótimo trabalho com o cacau. As amêndoas são lindas,limpas, sem pedaços de casca ou grãos duplos. São das melhores que já vi", diz Schilling.
"Ainda não tivemos lucro, mas esse trabalho representa um grande benefício para os ribeirinhos e para a floresta. Quando as pessoas descobrem que podem tirar a sobrevivência da mata, o desmatamento diminui", diz Jaime Passos Sass, da Cooperar.

Beneficiado, pode valer muito mais

Cíntia Bertolino

A região do Médio Purus e do Rio Juruá ainda tem cacau nativo para ser coletado e tratado corretamente. Quem afirma é o consultor Alexandre Carvalho Lins, que trabalha com o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e conduz oficinas para produtores de cacau no Rio Madeira e Alto Solimões.
"A coleta nessas regiões tem potencial para produzir centenas de toneladas de cacau, mas o problema é que os produtores só secam as amêndoas para vender para a grande indústria", diz Lins, que também trabalha com o sindicato dos engenheiros do Acre para desenvolver uma barcaça desmontável de secagem de cacau.
"Na região amazônica é muito difícil conseguir financiamento para obras em razão da falta de documentação de terras, especialmente nos vilarejos ribeirinhos", explica Lins.
Aos poucos, e com a ajuda das oficinas de capacitação, a ideia é mostrar aos produtores como o cacau bem tratado, fermentado e seco corretamente atinge um valor muito mais alto no mercado. "No futuro, o objetivo é que cada região tenha a própria cooperativa", diz o consultor.

Amargo ou ao leite, o gosto é intenso
Diretor da secular fábrica alemã Hachez ficou seduzido pelo sabor do cacau e associou-se a extrativistas do Purus

Cíntia Bertolino

Ao provar amêndoas de cacau nativo coletado às margens do Rio Purus, no Amazonas, o diretor da centenária fábrica de chocolate alemã Hachez levou um susto. "Nunca tinha experimentado um cacau com gosto tão intenso de chocolate", diz Wolf Kropp-Buttner em entrevista ao Paladar, por telefone, de Bremen.
Kropp-Buttner soube da existência de cacau nativo na floresta amazônica graças a um amigo do Regenwald-Institut (instituto alemão de preservação da floresta tropical) que lhe perguntou se não estaria interessado em fazer negócios na região. Estava - e o fato de o cacau nativo custar mais que o dobro do cultivado ser significantemente menor e ter produção imprevisível não o fez desistir do projeto.
Após a marcante "experiência selvagem de sabor", o fabricante alemão firmou uma parceria, em 2005, com a Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus (Cooperar), de quem arremata todo o estoque de cacau. Para viabilizar o negócio, ajudou a cooperativa a montar a infraestrutura para beneficiar cacau em duas pequenas comunidades ribeirinhas que vivem entre o rio e a floresta, sem energia elétrica e água encanada.
Na fábrica da Hachez, em Bremen, as amêndoas são torradas e transformadas em dois tipos de chocolate: o Wild Cocoa de Amazonas (ao leite, com 45% de cacau) e o meio amargo Wild Cocoa de Amazonas (com 70%).
"Fizemos um estudo sobre o volume de cacau disponível no sul do Estado do Amazonas. Por enquanto, a remessa produzida pela Cooperar é bem pequena, cerca de 10 toneladas por ano. Se aumentar, estamos prontos para dobrar nossa produção de chocolate especial", diz Kropp-Buttner.
Por enquanto, as barras feitas com cacau nativo são vendidas só na Alemanha, Estados Unidos e em alguns países da Europa. "Com esse tipo de cacau é possível fazer um chocolate com gosto muito característico. Tanto faz se é uma barra ao leite ou amarga. Ela será diferente porque o cacau é diferente", explica.
Além das qualidades das amêndoas, Kropp-Buttner tem um motivo pessoal para usar uma matéria-prima tão cara: "Esses chocolates são meus favoritos", diz.

OESP, 14/04/2011, Paladar, p. P7

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