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Buraco de ozônio no PAC

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: VENTURA, Zuenir
24 de Jan de 2007

Buraco de ozônio no PAC

Zuenir Ventura

Justo no momento em que o mundo dá sinais de que finalmente começa a se preocupar com o agravamento da crise ambiental, o Brasil não está nem aí para a questão, a julgar pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que acaba de ser lançado. Como quarto maior contribuinte ao aquecimento global, e isso graças à queima e derrubada de nossas matas, o país tinha a obrigação de incluir no badalado pacote a demonstração de que o modelo de desenvolvimento adotado concilia progresso e respeito à natureza, como a proteção da floresta amazônica. 0 que fazer, por exemplo, para evitar, prevenir ou amenizar a seca extrema que, segundo previsão de cientistas, deve assolar a região até 2070?

É evidente que não se esperava nada que se assemelhasse ao plano apresentado na semana passada pela União Européia, propondo aos seus 27 membros reduzir a emissão de gás carbônico em 20% em relação a 1990. Talvez porque estejam sentindo na pele as drásticas mudanças climáticas calor como se fosse verão, neve derretendo e plantas florescendo como se não estivessem no inverno - os europeus querem liderar o mundo no que chamam de "revolução pós-industrial". Não é um gesto romântico, mas a formulação de uma política energética que, sem perda de competitividade, racionalize o uso de recursos naturais, aumente o consumo de combustíveis renováveis, que, enfim, preserve o meio ambiente. Em abril, representantes do continente e dos EUA vão se encontrar para discutir energia. Em junho, este será também, junto com clima, o foco da reunião de cúpula do G-8.

Até Bush, pressionado por grandes corporações que estão aderindo aos grupos ambientalistas, elegeu o tema como uma de suas duas preocupações atuais - a outra continua sendo o Iraque. Escrevo antes de seu discurso de ontem, que prometia um plano ousado para diminuir o consumo de combustíveis fósseis num país que ele mesmo reconheceu ser "viciado em petróleo". Isso, sem falar na atitude do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, propondo um corte de 10% na emissão de gases das refinarias de petróleo e produtores de gasolina.

Enquanto isso, é como se aqui embaixo estivéssemos fazendo nosso dever de casa. Se dessa vez a questão ambiental não foi considerada entrave aos investimentos em infra-estrutura, como tem sido na prática, houve pelo menos omissão e descaso em relação a ela na parte que prevê a abertura de estradas e a construção de hidrelétricas na Amazônia. Como esses avanços serão feitos sem agressão ao meio ambiente? Quais serão as medidas de proteção da floresta? Há outras falhas no PAC que estão sendo apontadas por especialistas, mas esse furo ambiental é uma espécie de buraco de ozônio no pacote de Lula.

O Globo, 24/01/2007, Opinião, p. 7

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