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Brasileiros dominam o garimpo no Suriname

Valor Econômico, Especial, A16
10 de Set de 2013

Brasileiros dominam o garimpo no Suriname

Por Maíra Magro
De Paramaribo, Suriname

Na corrida do ouro, exploradores se aventuram por terras perigosas e praticamente esquecidas na fronteira norte do Brasil, pela floresta amazônica. O destino é o Suriname, um pequeno país de colonização holandesa onde cerca de um quinto do PIB de US$ 5 bilhões vem do trabalho individual dos garimpeiros, que são principalmente brasileiros e não têm vínculos com as grandes mineradoras. A importância do metal é tamanha que, além de inflar as cifras da economia, ele serve nas frentes de trabalho para pagar desde salário de cozinheira até o dízimo.
Da produção anual de US$ 1,6 bilhão com a extração de ouro no Suriname, os garimpeiros contribuem com mais da metade: US$ 900 milhões. O restante fica a cargo das empresas mineradoras. Não se sabe ao certo quantos são os garimpos, mas quem se arrisca pelo interior, onde 95% das terras são ocupados pela vegetação amazônica, relata que são centenas.
Na capital, Paramaribo (lá se diz Paramáribo), a vida corre em ritmo lento às margens do rio Suriname, quase à beira do oceano Atlântico. Os exploradores aguardam o início de uma nova empreitada hospedados em hotéis espartanos na rua Tourtonnelaan, um aglomerado de comércio brasileiro ao norte da cidade. A região pouco lembra o centro histórico, com suas casas brancas de madeira em estilo colonial holandês, permeadas vez por outra por uma mesquita, em pleno clima quente e úmido do Caribe.
Na Tourtonnelaan quase tudo é escrito em português e não na língua oficial, o holandês. O bairro foi apelidado de "Belenzinho" devido à grande concentração de paraenses, que hoje já sofrem a concorrência dos maranhenses. Um dos hotéis mais procurados pelos garimpeiros é o Comfort, onde um cartaz escrito à mão estabelece regras nada condescendentes: "Se você não está hospedado aqui não pode ficar sentado fazendo hora".
Então é na rua que o maranhense José Airton, 40, apelidado de "Louro" por causa da pele e dos cabelos claros que contrastam com o tipo físico dos demais, prefere passar o tempo conversando com os amigos que esperam os últimos preparativos para explorar uma "fofoca" - o movimento de quando se descobre que o ouro "está dando" em algum lugar.
Falta só o conserto de uma moto para partirem em direção ao rio Maroni, que separa o Suriname da Guiana Francesa, chamada por eles de "França" (trata-se de um departamento ultramarino desse país). Lá, eles esperam tirar de 60 a 80 gramas de ouro por mês, cada um, pondo abaixo um barranco. Uma quantidade dessas pode render de US$ 2,4 mil a US$ 3,2 mil.
O município mais próximo no trajeto, Albina (pronuncia-se Albiná), a 150 km da capital, ainda guarda sequelas dos conflitos de 2009, que deixaram dezenas de brasileiros feridos. Na noite de Natal, após uma discussão que culminou no assassinato de um surinamês, os maroons (quilombolas locais) queimaram e destruíram acampamentos de brasileiros, saquearam o ouro até dos chineses, feriram dezenas de garimpeiros e violaram mulheres - há relatos de que buscariam metal escondido nas partes íntimas. Alguns brasileiros ainda temem passar por lá.
Os exploradores garantem, porém, que o episódio foi só um ponto fora da curva, que não ilustra a boa convivência entre as nacionalidades no garimpo. "Hoje tudo está mais calmo", diz Louro.
Mas há casos de violência causada também por brasileiros. No ano passado, a polícia prendeu no Amapá Manoel Ferreira Moreira, o "Manoelzinho", acusado de comandar uma gangue que atacava e roubava ouro de garimpeiros no Suriname e na Guiana Francesa, que teria inclusive cometido assassinatos. "Todo lugar é perigoso pra quem sai arriscando pau na cabeça", minimiza Joseli da Silva e Silva, 36, o Deuseli, que viajará com o grupo de Louro.
Deuseli ainda lamenta ter deixado uma área mais ao sul, perto de Benzdorp, também na fronteira com a "França", botando abaixo só uma banda de uma montanha de 70 metros - não contou com o aval do dono para destruir tudo. Agora vai trabalhar de forma independente, livre para derrubar barrancos inteiros e, se tudo der certo, ganhar mais.
O garimpo no Suriname, dividido em concessões, não é considerado pelos exploradores tão anárquico e perigoso como o da Guiana Francesa. Vez por outra os "gendarmes", os policiais locais, fazem rondas de carro.
As regras tacitamente em vigor são rústicas e rígidas. Xingar a mãe ou mexer com a mulher do outro são motivos suficientes para tirar o revólver. Roubar não se admite. Quem causa confusão por bebida (o chamado "pé inchado") ou drogas (o "noiado") não sobrevive.
As condições de alojamento são precárias. Os garimpeiros dormem em redes, nos galpões, ou em barracas improvisadas de lona plástica, algumas vezes acompanhados de morcegos. Frequentemente pegam malária e dengue, além de chateações como fungos nos pés, devido às botas molhadas 18 horas por dia. Sem falar em doenças causadas pela água contaminada, que leva alguns a gastar todo o ouro em remédio e condução.
O impacto ambiental também é grande. Os homens usam mangueiras para derreter montanhas inteiras com jatos d'água. A lama depois é "lavada" em uma máquina para separar o ouro, forrada por um carpete que funciona como filtro. A floresta vira uma espécie de atoleiro.
Na divisão da receita, 10% do ouro ficam para o dono da concessão da terra e cerca de 15% a 18% para os trabalhadores do barranco. O restante é do patrão, o dono da máquina, que paga salário em ouro para cozinheira e operadores, além de arcar com despesas de peças e combustível.
A venda do metal se dá principalmente em Paramaribo, nas chamadas "compras de ouro", empresas com licença do governo para adquirir o minério. As principais estão na rua Tourtonnelaan, a dos brasileiros.
A definição do preço faz parte de uma política do governo surinamês para tentar impedir o contrabando. O garimpeiro recebe US$ 41 por grama, um valor considerado bom, somente 6% abaixo do negociado na bolsa de Londres. Esses 6% restantes são distribuídos entre a compradora de ouro, impostos para o governo e royalties para o Banco Central.
Há quatro meses a Ourominas, uma das principais compradoras, recebia cerca de 200 garimpeiros por dia, mas com a queda do preço do ouro a partir de abril, hoje o movimento não chega a 15% disso, segundo funcionários. A venda do metal no mercado internacional é feita por poucas empresas com licenças de exportação.
Fica a cargo do Banco Central registrar todo o ouro retirado e exportado do país. Mesmo assim, o comércio informal sobrevive. Nos garimpos, as pedras amarelas servem como moeda de compra e podem ser trocadas por dinheiro com os chineses.
As culturas diversas nas frentes de trabalho se separam também por funções. Os brasileiros em geral são os donos das máquinas ou os operários do garimpo. Os maroons ou são proprietários da terra ou trabalham para os brasileiros. Os chineses se dedicam ao comércio de alimentos e combustível.
Cada "corruptela", o povoado que se forma em torno do garimpo, traz consigo uma "cantina", uma tenda dividida em uma espécie de mercearia e salão para festas e shows. O prostíbulo é conhecido como "cabaré". Mais recentemente chegaram as igrejas evangélicas, que recolhem o dízimo em ouro. As mais fortes são a Assembleia de Deus e a Deus é Amor. Só no garimpo de Benzdorp, um dos maiores do país, existem três igrejas.
Os cultos só não ocorrem aos domingos, como na cidade, por influência das festas na cantina e as movimentações no cabaré. No sábado à noite começa um som alto de "melody" e tecnobrega, em português mesmo. Enquanto assistem a shows de striptease, os garimpeiros se embriagam com uísque, cerveja e energético. O aglomerado aumenta com pessoas de outras corruptelas, informadas por anúncios em papel A3. Nos jogos de bingo, o prêmio varia entre barras e correntes de ouro, um porco, uma moto e, vez por outra, uma menina.
As histórias fabulosas do garimpo se dividem em sucesso e fracasso. Alguns ganharam muito e perderam tudo, outros compraram casas para a família no Brasil, ou viraram empresários. O maranhense José Paulo Ribeiro chegou ao Suriname em 1996, contando com uma vaga em um barranco que acabou não saindo. Trazia US$ 180, três mudas de roupa e uma máquina de cortar cabelo.
Sem dinheiro para arcar com as diárias e refeições na capital, recorreu ao único equipamento que tinha e virou barbeiro. Logo comprou uma balança de precisão e passou a comprar e guardar ouro dos amigos.
Hoje tem quatro escavadeiras e explora ouro no distrito de Brokopondo, no interior do país. Autodidata, é coautor de um livro que traduz a língua crioula local, o "sranan tongo", para brasileiros. Criou uma ONG para auxiliar imigrantes no Suriname e virou ponto de contato para os garimpeiros. "Onde tem ouro, vou atrás", conta, com os olhos brilhando.
Enquanto aguardam o dia de embarque, na Tourtonnelaan os novos garimpeiros desfrutam da companhia dos conterrâneos que criaram restaurantes, lojas de maquinário, roupas e serviços diversos que surgiram em torno da exploração do ouro.
"Aqui tenho mais oportunidade e toda a ajuda dos brasileiros", diz Ocye Brito, 43, que veio há oito anos de Belém para Paramaribo, onde é cozinheiro na churrascaria Petisco. Edna Carneiro, 47, dona do salão de beleza Rafael, menciona a segurança maior em relação ao Brasil. "A vida aqui para quem trabalha é muito melhor. Ganho mais, tenho mais estabilidade e, se quiser, deixo minha casa com a porta aberta com todas as coisas dentro."

País se orgulha da sua diversidade étnica e cultural

Por De Paramaribo, Suriname

Com 560 mil habitantes, o Suriname é um dos países menos povoados da América do Sul. A população é um mosaico de etnias, cada qual mantendo sua língua, cultura e religião próprias.
O grupo mais numeroso é o de afrodescendentes, que somam 35% da população - 19% de crioulos (mestiços de europeus com negros que habitam a região da costa) e 16% de "maroons", os quilombolas que vivem no interior.
Com a abolição da escravidão no país, em 1863, a mão de obra nas lavouras de café e cana-de açúcar foi substituída por trabalhadores vindos da Índia e da ilha de Java, na Indonésia - onde a Holanda também manteve colônias. Hoje, cerca de 29% da população é formada pelos chamados "hindustanos", que emigraram da região da Índia. Os javaneses somam 15%, e os chineses, outros 5% da população.
A língua é outro exemplo da diversidade. O idioma oficial é o holandês, mas também se falam a língua franca "sranan tongo", diversos dialetos crioulos e, em geral, o inglês. A religião se divide em hindu, protestante, católica e muçulmana, além das crenças locais.
Os espanhóis foram os primeiros a chegar à região, no século XVI, encontrando índios nativos. Depois os holandeses começaram a disputar o território com o Reino Unido. O Suriname passou de vez para a mão dos holandeses em 1667 devido a uma troca: a Holanda entregou aos britânicos a então Nova Amsterdã, atual Nova York, no território que viria a ser os Estados Unidos. Os britânicos, por sua vez, cederam o território que em 1815 se tornou a Guiana Holandesa. O Suriname só ganhou este nome com a independência da Holanda, em 1975.
Os surinameses têm orgulho de apontar, como sinal do apreço pela diversidade, uma sinagoga e uma mesquita construídas lado a lado em Paramaribo. Um pouco mais distante está uma catedral católica em estilo gótico, em madeira pintada de amarelo e azul.
Estima-se que existam atualmente de 15 mil a 30 mil brasileiros no Suriname. O total varia segundo as flutuações no preço do ouro e a atuação da imigração local. Vários entram ilegalmente pela floresta para trabalhar no garimpo. As mulheres, muitas vezes, acabam partindo para o mercado do sexo. Quem não chega pela floresta se aproveita de um visto de turista para ficar mais tempo que o permitido.
A forte presença de brasileiros, mesmo que nem sempre regular, contribui para reforçar os laços sul-americanos no país. "O governo vê o Brasil como um parceiro muito importante, e o brasileiro é visto como alguém que contribui para a boa situação econômica do país", diz o embaixador do Brasil no Suriname, Marcelo Baumbach.
O Suriname é parte da Comunidade do Caribe (Caricom) e, neste ano, virou membro associado do Mercosul. Também é parte da Organização para a Cooperação Islâmica.
Não existe qualquer estrada que ligue Paramaribo ao Brasil, e a fronteira é preenchida por mais de 500 km de reservas naturais. (MM)

Presidente já foi condenado por tráfico

Por De Paramaribo, Suriname

O presidente do Suriname, Desiré Bouterse, tem ficha suja na Justiça internacional. Existe um mandado para que cumpra 11 anos de prisão na Holanda, onde foi condenado à revelia em 1999 por tráfico de cocaína.
Bouterse se valeu à época da falta de um tratado de extradição entre os dois países para se livrar da sentença. Hoje, conta com a imunidade de chefe de Estado. O presidente sempre contestou a condenação, dizendo que o processo teria se baseado em uma única testemunha.
No Suriname, Bouterse enfrenta outro julgamento pela morte de 15 opositores políticos quando era ditador do país. Ele tomou o poder pela primeira vez com um golpe de Estado em 1980, cinco anos depois de o Suriname se tornar independente da Holanda. Renunciou sete anos mais tarde sob pressão internacional. Acabou voltando por meio de eleições indiretas.
No atual mandato, Bouterse nomeou seu filho, Dino, como chefe da unidade antiterrorismo no país. No dia 29 de agosto, Dino foi preso no aeroporto do Panamá, acusado de tráfico de drogas e de armas, em uma operação organizada por agentes americanos. Ele foi levado aos Estados Unidos, onde é processado em uma corte de Nova York.
A prisão ocorreu na véspera da reunião de cúpula da União de Nações Sul Americanas (Unasul), em Paramaribo, no dia 30 de agosto, quando o pai faria as vezes de anfitrião. A presidente Dilma Rousseff foi um das chefes de Estado que compareceram. Bouterse estava presente e nada sobre Dino foi mencionado, pelo menos publicamente. Mas a abertura da cúpula atrasou cerca de quatro horas.
Dino já havia sido preso outras vezes no Suriname. Em uma ocasião, foi acusado de envolvimento no roubo de armas da agência de inteligência. (MM)

Valor Econômico, 10/09/2013, Especial, A16

http://www.valor.com.br/internacional/3264326/brasileiros-dominam-o-gar…

http://www.valor.com.br/internacional/3264328/pais-se-orgulha-da-sua-di…

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