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Brasileiro tem maior aceitação de sua origem miscigenada

OESP, Especial, p. H6
Autor: MAGNOLI, Demétrio
19 de Set de 2009

'Brasileiro tem maior aceitação de sua origem miscigenada''

Entrevista - Demétrio Magnoli: doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Andrea Vialli

O maior número de brasileiros que se autodeclaram pardos - de 42,5% da população em 2007 para 43,8% em 2008 - sugere maior aceitação das origens mestiças. Essa é avaliação do sociólogo Demétrio Magnoli, que afirma que esse processo de autoaceitação já influencia estatísticas desde a década de 1940. Eis alguns trechos de sua entrevista ao Estado.

O que explica o aumento no número de pardos?

Isso vem acontecendo desde 1940, quando foram consolidadas as cinco categorias de raça, e é um duplo fenômeno: aumenta o número de pessoas que se declaram pardas, e diminui tanto o número de brancos quanto o de pretos. Isso ocorre pela continuidade do processo de miscigenação da sociedade. A diminuição dos pretos e dos brancos não é marginal, é um fenômeno muito grande. O segundo motivo, uma hipótese que eu levanto, é maior consciência e aceitação da miscigenação.

Então, o brasileiro hoje se aceita?

No pensamento racista, isso é explicado como sendo uma rejeição de ser negro e uma tentativa de branqueamento da cor da pele. Mas essa explicação só poderia ser aceita se se reduzisse o número de pretos, mas não o de brancos. Mas não é o que acontece. Cada vez mais pretos e brancos mudam para a coluna de pardos. Os pardos não estão insatisfeitos. Mas na cabeça das pessoas que fazem a declaração, a pessoa pensa: "não sou nem branco nem preto, não tenho raça, sou uma mistura", então se declara como pardo. Se houvesse a categoria mestiço, teria até mais pessoas se declarando como tal. Pardo é uma palavra com certo estigma. Temos uma sociedade no Brasil que cada vez menos se amolda aos dois polos raciais tradicionais. Que se vê como misturada e a Pnad revela a continuidade disso. Em décadas, teremos 70% de gente se dizendo parda. É uma maior aceitação da miscigenação. E uma das características mais importantes do racismo é ser antimistura. Os textos racistas do século 19 tratam miscigenação como degeneração. Quando os brasileiros se misturam e se declaram como mestiços, eles declaram não acreditar nesse racismo, o que é positivo.

Existe algum reflexo das políticas de cotas nas estatísticas?

Creio que é muito cedo para se fazer uma afirmação direta desse tipo, mas possivelmente tem algum efeito e isso contribui para um processo de "pardização" dessas pessoas que se diziam brancas. O que não é oportunismo.

OESP, 19/09/2009, Especial, p. H6

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