O Globo, País, p. 8
24 de Mar de 2018
Brasil joga pelo ralo 38% da 'água com boa'
Sob o mito da abundância e como preço de anos de investimento insuficiente, o Brasil desperdiça anualmente 38% do volume de "água boa" - ou seja, tratada e pronta para uso - que deixa as empresas de abastecimento e saneamento rumo às casas e fábricas. Perdas são comuns nas redes mundo afora. Mas o desempenho do país é significativamente pior do que os de Austrália (7%) e EUA (13%), e até mesmo dos de China (22%) e Rússia (23%).
O desperdício do valioso recurso natural, em pleno século da escassez, se dá por meio de reservatórios que transbordam e de vazamentos em tubulações de distribuição antigas e mal cuidadas. De acordo com dados da "Conjuntura dos recursos hídricos do Brasil 2017", da Agência Nacional de Águas (ANA), órgão regulador federal, atualmente 35% das redes do país têm vazamentos significativos.
Não bastassem as deficiências estruturais, o brasileiro ainda tem maus hábitos de uso da água, que os leva a jogar literalmente ralo abaixo parte do dinheiro pago às distribuidoras. Lavar a calçada com mangueira ou deixar a torneira aberta enquanto se escova os dentes, por exemplo, são práticas ainda comuns. E que agravam as condições de abastecimento em períodos de restrição hídrica, como o enfrentado por São Paulo em 2014, ou como ocorreu mais recentemente no Distrito Federal.
- A perda é tudo aquilo que foi tratado, colocado na rede de distribuição, mas que ninguém usou, e as concessionárias também não receberam por esse consumo. Tem também a perda comercial, que é fruto de fraudes ou de hidrômetros que fizeram a medição errada - explica Alexandre Lopes, presidente do Sindicato Nacional das Concessionárias de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Sindcon).
ÍNDICE DE PERDAS CHEGA A 70% NO AMAPÁ
No Brasil, o padrão de desperdício de água é elevado em todo o país. Chega a estratosféricos 70,49% no Amapá, mas tem nos 30,23% de Goiás o mínimo registrado. O Sudeste tem a menor média entre as regiões, 34,7%.
Combater esse tipo de desvio depende de investimentos das concessionárias, que nem sempre acompanham as necessidades da rede.
- É preciso fazer a medição das vazões por regiões menores, aí se melhora o controle e se consegue fazer a gestão da perda. É preciso saber para onde a perda vai. E é preciso fazer a renovação da rede e a atualização dos hidrômetros, o que deveria ser feito a cada cinco anos - explica Lopes.
O grupo Águas do Brasil, que abastece 15 municípios brasileiros, implantou um projeto de modernização e campanhas educativas em Niterói ao assumir a concessão, em 1999. Quase 20 anos depois, tem resultados expressivos: o índice de perdas, que era de 40%, caiu a 16%. A economia seria suficiente para abastecer uma cidade com 150 mil pessoas.
Giuliano Dragone, diretor técnico da GS Inima Brasil, que tem concessões em Araçatuba e Ribeirão Preto, estado de São Paulo, afirma que também atua junto às famílias, com educação ambiental, focada nas escolas, e na avaliação permanente dos grandes consumidores. Consumo elevado à noite, por exemplo, é sinal de vazamentos. Ainda assim, diz Dragone, é difícil mudar a cultura do consumidor brasileiro:
- Os maiores desperdícios ocorrem onde há uma abundância visível maior de água. Essa visão faz o Brasil ser um dos campeões em gasto desnecessário.
Fora das concessionárias também há iniciativas para a redução do desperdício de água. A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) do estado de São Paulo, por exemplo, tem entregue projetos residenciais com medição individual da água. Em vez de a conta ser emitida para o condomínio, sendo rateada igualmente entre todos os apartamentos, cada residência recebe uma fatura, o que favorece o aumento da conscientização.
Colaborou Paulo Assad, estagiário, sob supervisão de Danielle Nogueira
Na capital federal, número de 'gatos' de água aumenta 90%
BRASÍLIA - Todo dia quando acorda, por volta das 6h, José Antônio Filho inicia o mesmo ritual: assenta dezenas de garrafas PET sobre a garupa de sua bicicleta e sai pela cidade em busca de água, numa verdadeira peregrinação. Quando retorna, só após conseguir encher os cerca de 50 litros, está na hora de preparar o almoço. Morador de Planaltina, região administrativa do Distrito Federal localizada a menos de 40 quilômetros do Plano Piloto de Brasília, o vendedor de picolé de 65 anos faz parte de uma parcela da capital do país que, pela falta de chuva e crescimento urbano desordenado, tem se habituado a lidar com a escassez extrema de água. Com pouco mais de 3 milhões de habitantes, e encravado no meio do Cerrado, o Distrito Federal nunca sofreu tanto com a baixa vazão dos rios.
Com a capacidade de abastecimento afetada, explodiu na capital do país o número de ligações clandestinas e os casos de furto de água. Dados da Companhia de Saneamento Ambiental (Caesb) do Distrito Federal, levantados a pedido do GLOBO, revelam a identificação, em 2017, de mais de quatro mil "gatos". O número representa um crescimento de 90% nas ocorrências ante 2016, quando 1,9 mil ligações clandestinas na rede de distribuição da companhia foram flagradas. As irregularidades resultaram em mais de 200 ocorrências policiais.
"Estima-se que tenham sido evadidos cerca de 727 milhões de litros de água em 2017 com essa prática. A depender da irregularidade, a Caesb registra ocorrência policial para apurar os responsáveis pelo furto de água, que responderão penalmente por sua conduta", diz a companhia. São dois tipos de irregularidades: hidrômetros danificados, que adulteram a medição, e as ligações clandestinas. Apenas em janeiro e fevereiro de 2018, outros 750 imóveis com "gatos" foram flagrados.
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Vizinho de Seu José, Mauro Ferreira Costa, de 43 anos, tem geladeira em casa, mas não a usa. Como não pretende cometer infração para ter acesso à água, contrata, toda semana, junto com os vizinhos, a entrega de água por meio de carros-pipa.
- Água é tudo na nossa vida. Só porque moramos em região pobre, nunca tivemos acesso. Estamos nessa luta há dois anos - diz.
Para não deixar que os reservatórios do Distrito Federal fiquem secos, a Caesb tem feito reparos em toda a sua rede de distribuição, com o objetivo de reduzir perdas. Desde 2015, a situação hídrica do Distrito Federal é considerada crítica. Segundo o presidente da companhia de saneamento, Maurício Luduvice, a empresa não investiu na captação em novos mananciais por 20 anos. Nesse período, diz, houve ocupação intensa e desordenada do solo da capital federal. E o plantio de soja e milho nas redondezas também diminuiu a vazão dos mananciais. Uma alternativa foi buscar água mais longe, a cerca de 70 quilômetros, na Barragem de Corumbá.
- Estamos trabalhando para evitar o colapso. Começamos a buscar água cada vez mais distante. Isso encarece o preço para o consumidor, porque há custos para vencer os relevos acidentados e de bombeamento - diz Luduvice.
O investimento do governo na obra chega à casa dos R$ 500 milhões, segundo o presidente da Caesb. O GLOBO viajou até o ponto de captação e encontrou sinais de obra parada: tubulações expostas, maquinário abandonado e poucos sinais de operários trabalhando. Ainda assim, o governo garante que a captação funcionará até o fim do ano e deverá garantir o abastecimento seguro do Distrito Federal pelos próximos 30 anos.
- Posso assegurar que este ano a gente vai sair do racionamento - disse o governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB), que também está promovendo uma campanha junto aos produtores rurais para combater os poços ilegais e buscar meios mais eficientes de irrigação.
O Globo, 24/03/2018, País, p. 8
https://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/sopa-de-lixo-no-pac…
https://oglobo.globo.com/brasil/na-capital-federal-numero-de-gatos-de-a…
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