Jornal O Liberal
Autor: Thiago Vilarins
13 de Abr de 2008
Das 1.100 línguas indígenas, apenas 180 sobrevivem após cinco séculos
O Brasil é apontado como um dos países mais ricos em idiomas. Por toda a extensão do território nacional estão notificadas, hoje, cerca de 215 línguas, sendo mais de 80% faladas por índios. No entanto, a diversidade lingüística brasileira está longe de ser uma marca de orgulho. Por trás destes levantamentos esconde-se a imagem do País como um dos campeões no extermínio de idiomas. E são justamente as línguas faladas pelos índios as maiores vítimas. Em cinco séculos de ocupação portuguesa, o Brasil deixou de ter quase 1.100 línguas indígenas - atualmente, só existem 15% delas - aproximadamente 180 idiomas. E o processo de extinção continua.
Pelo menos um terço desses idiomas é considerado 'língua quase extinta', ou seja, fadada ao desaparecimento. São idiomas com registro inferior a 100 falantes e com transmissão considerada de alto risco. Elas não são mais usadas para a comunicação de pais com filhos e assim, sem ser repassada para as gerações posteriores, vão se acabando com a morte dos últimos conhecedores dela. Na Amazônia, cerca de 45 dessas línguas agonizam. A maioria delas não chega a registrar nem dez falantes, sendo todos eles com idade avançada.
É o caso de pelo menos quatro línguas indígenas do Pará. O kuruáya, praticado em Altamira, tem atualmente o registro de três falantes - todos com idade de 80 anos, aproximadamente. O xipáya, também da mesma região, é a língua-mãe de quatro sobreviventes, com faixa etária muito parecida a dos kuruáyas. Mas as coincidências entre essas duas línguas não se limitam ao local de origem, a idade dos últimos falantes ou ao baixo número de conhecedores vivos. Maria Xipáya é uma referência nas estatísticas dos dois idiomas. Ela é identificada tanto nos números que indicam os últimos conhecedores do kuruáya (sua língua materna) e do xipáya (sua língua paterna).
E para entender melhor o fim de uma língua é importante observar o caso de Dona Maria Xipáya. A afirmação é da professora de Lingüística da Universidade Federal do Pará (UFPA) Carmem Lúcia Reis Rodrigues, que há 20 anos estuda o xipáya, ao lado de Maria. Durante todo esse tempo observou as nuances fonéticas e regras gramaticais do idioma. Recentemente, ela finalizou um dicionário para que mesmo com o desaparecimento da língua (sem registro de falantes), ela não seja extinta. 'Salvar uma língua da extinção é um desafio complexo. É necessário estabelecer uma ortografia para ela, já que esses idiomas são orais', ressalta Carmem.
A professora explica que a falta de alguém para conversar já limitou o conhecimento da língua. Hoje, Maria é considerada uma semi-falante, o seu conhecimento não é suficiente para manter uma conversa longa. Muito disso pela idade avançada - na cultura da tribo não há uma unidade de tempo que designe o ano, mas pelo registro da Funai, a data indicada do nascimento é 1928 -, e pela falta do hábito de usar a língua desde a adolescência.
'Os xipáyas deixaram de utilizar seu idioma quando abandonaram a tribo para viver na cidade. Hoje, nenhum deles tem fluência no idioma nativo. Alguns lembram de uma palavra ou outra, como os parentes mais próximos de Maria. Duas de suas primas, Izabel e Odete, se recordam de algumas frases. O seu marido, João Xipáya, conhece nomes de bichos e plantas. Mas isso é insuficiente para manter um diálogo', explica.
Especialista no Kuruáya, a também professora de lingüística da (UFPA) Gessiane Picanço tem Maria como fonte de estudo. Ela destaca que é irreversível o processo de desaparecimento da língua. Há dois anos morreram dois falantes e os três que ainda estão vivos são idosos. A professora explica que o principal sinal do fim de uma língua é quando ela deixa de ser ensinada para as novas gerações. 'Quando a língua deixa de ser transmitida às crianças, o final é quase irreversível. A língua é a expressão de toda uma cultura; quando ela morre desaparece toda essa cultura associada a ela', enfatiza Gessiane.
No território paraense ainda há o registro de quatro falantes do idioma anambé. Da região sudeste do Estado, às margens do rio Acará, os últimos falantes desse idioma não se diferenciam do perfil dos remanescentes das outras línguas em fase de desaparecimento. No entanto, no Estado já há uma língua considerada morta, ou seja, sem registro algum de falantes: o amanayé.
ONU teme desaparecimento de línguas
O desaparecimento de línguas no Brasil é uma preocupação mundial. O alerta é da Organização das Nações Unidas (ONU), que tem acompanhado o fenômeno do desaparecimento acelerado de idiomas em todo o planeta. A extinção de línguas no Brasil reverbera nas estatísticas mundiais: a cada 14 dias um idioma desaparece. Preocupado com esse cenário, o ano de 2008 foi definido como o Ano Internacional dos Idiomas.
Segundo a coordenadora do setor de cultura da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Jurema Machado, estão sendo monitoradas todas as ações do governo brasileiro, principalmente as lideradas pelo Iphan, com vista ao reconhecimento das línguas como patrimônio. 'É importante que se tenha noção que os prejuízos da extinção de uma língua não se resumem apenas com a perda de um sistema de códigos. A língua revela uma visão de mundo, traz conhecimentos próprios de uma sociedade'.
A Unesco também tem acompanhado as línguas indígenas brasileiras em fase de extinção. Para Jurema, por irreversível que seja esse processo, o desafio é tentar retardar ao máximo o desaparecimento. 'Uma língua se encontra em risco quando se tem um pequeno número de falantes e esses falantes não estão conseguindo transmiti-la. Interromper esse processo é impossível, a gente sabe que a longo prazo a tendência é a redução. Esse processo vem se deteriorando, mas podemos tentar retardá-lo ao máximo possível, reajustar as nossas línguas que estão em vias de desaparecimento, e perceber que junto com as línguas há um conjunto de hábitos culturais, ancestrais conhecimentos de gerações. Com a morte das línguas, esse conhecimento também fica inacessível'.
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