O Globo, O Mundo, p. 22
10 de Dez de 2007
Brasil discute alternativa a mercado de carbono
Chanceler Celso Amorim propõe criação de fundo voluntário para financiar projetos de preservação ambiental
Gilberto Scofield Jr.
Enviado especial
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, decidiu mobilizar a equipe de diplomatas brasileiros que participa da 13ª Conferência da Convenção de Mudança Climática das Nações Unidas. O objetivo é criar, a partir de hoje, um novo grupo de países composto, basicamente, de nações que têm importantes reservas florestais ou matas que possam ser exploradas economicamente, mais ou menos como fizeram as pequenas ilhas-Estado, as mais ameaçadas pelo aquecimento global.
Trata-se de uma reação ao pequeno apoio que tem até agora o pais quando o tema ë o uso da floresta como forma de captar dinheiro para projetos contra o desmatamento.
Os países ricos pressionam os mais pobres
O Brasil defende que as florestas preservadas - o desmatamento evitado - não entrem no mercado de carbono. Por este instrumento, as florestas intactas viram créditos em carbonos que podem ser comprados pelos países ricos, os maiores geradores de gases do efeito estufa, para compensar suas emissões.
A sugestão do Brasil até agora é a criação de um fundo em que os países poriam dinheiro voluntariamente e este dinheiro serviria para financiar projetos de preservação. Num mundo dominado pela lógica do mercado, no entanto, os países ricos pressionam - com o apoio dos países emergentes, que precisam de' recursos para preservação, como Indonésia ou Papua Nova Guiné - para que esta preservação vire um crédito que possa ser comprado.
- Não podemos concordar com a idéia de usar a floresta como moeda para deixar que os países ricos continuem poluindo o planeta- afirmou o ministro Celso Amorim. - Se os projetos não forem administrados com cuidado, corremos o risco de perder a floresta e de ainda darmos permissão para que os ricos continuem emitindo.
Dificuldades para conciliar diversos interesses
Existem hoje quatro grandes grupos de lobby dentro da Convenção de Clima das Nações Unidas: os países do chamado G-77 + China, formado pela maioria dos países emergentes. Este também é formado por subgrupos que defendem seus próprios interesses, como o de nações africanas, o das pequenas ilhas-Estado e dos países mais pobres. Outros grupos de pressão são a União Européia, os membros da Opep, os Estados Unidos e o chamado conjunto guarda-chuva, que se compõe de Estados desenvolvidos que não fazem parte da UE, como Austrália, Canadá e Japão.
- Nem sei se nossa iniciativa dará certo, mas devemos incluir os países com florestas e outros que tenham interesses comuns aos nossos - afirmou Amorim.
Para ambientalistas, deve ser difícil o Brasil agregar países que enfrentam tantas dificuldades financeiras para manter suas florestas.
- Entendo a posição do Brasil, que tem recursos e um dos melhores sistemas de monitoramento de florestas do mundo - diz o presidente da ONG Conservação Internacional, Russell Mittermeier, parceira dos índios caiapós em projetos de preservação de floresta na Amazônia. - Mas a situação para muitos países com poucos recursos e extremamente ameaçados pelo avanço de empresas madeireiras ou mesmo fazendas, como a Indonésia, é difícil. Para eles, projetos no mercado de carbono são uma solução lógica.
O Globo, 10/12/2007, O Mundo, p. 22
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