OESP, Economia & Negocios, p.B1
25 de Abr de 2004
Brasil corre risco de 'apagão' no transporte Pelo menos 111 obras na área de rodovias estão paradas por falta de verba, revela estudo
Renée Pereira
A falta de recursos do governo federal para investir em infra-estrutura poderá provocar um "apagão logístico" no País. Levantamento do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon) revela que pelo menos 111 obras na área de transporte rodoviário estão paradas por falta de verbas. Isso significa R$ 1 bilhão de investimento a menos nas rodovias brasileiras, cuja qualidade está cada vez mais crítica e compromete a competitividade, principalmente a das empresas exportadoras. "O problema está se agravando", alerta o presidente do Sinicon, Luiz Fernando Santos Reis.
Segundo ele, das obras executadas em 2002 e 2003, o governo deve R$ 542 milhões às empresas de construção pesada. O pagamento do montante já foi negociado e renegociado algumas vezes, mas sem sucesso. Reis calcula que, se o ministério tirasse do orçamento o que ainda não pagou às companhias, sobraria cerca de R$ 1,75 bilhão para investir no setor, ou seja, R$ 146 milhões por mês. Mas esse é o valor que consta no orçamento, não o que foi liberado pelo governo ao ministério.
Apesar de a receita do Estado ter crescido muito nos últimos anos e a carga tributária ser uma das maiores do mundo, o País tem poucos recursos para infra-estrutura, argumenta o especialista em contas públicas, Raul Velloso.
Segundo ele, o governo cedeu às pressões para elevar gastos correntes e teve de fazer um ajuste nos investimentos. "Dinheiro tem, mas para outros fins, como pagamento de juros da dívida externa. Por mais que exista recurso, sempre faltará para alguém. E esse alguém é o mais fraco."
Na avaliação de Velloso, a alternativa é inverter a posição, gastar menos em gastos correntes e investir mais. "Caso contrário, veremos no transporte o mesmo que ocorreu no setor de energia elétrica, como o racionamento de 2001."
A lentidão dos investimentos em infra-estrutura de transporte rodoviário pode ser traduzida no volume de asfalto comercializado no País em 2003 - o pior número nos últimos dez anos, segundo o Sinicon. Resultado disso foi a redução dos postos de trabalho em 200 mil pessoas e a deterioração das estradas por todo o Brasil. Na semana passada, lembra Reis, a BR-135, entre Curvelo e Montes Claros, em Minas Gerais, por exemplo, foi interditada por causa das condições precárias da rodovia. Situações como essa têm sido comuns em todo o território nacional. Mas os casos mais críticos são verificados no Norte e Nordeste do País.
Um trabalho realizado pelo Centro de Estudos de Logística (CEL) da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostra que, de 1,5 milhão de quilômetros (km) de estradas existentes no Brasil, só 160 mil km são pavimentados. "Desse total, cerca de 80% estão em situação precária", diz o diretor do CEL, Paulo Fleury, autor do estudo Transporte de Carga no Brasil - Ameaças e Oportunidades para o Desenvolvimento do País.
Produtos ficam mais caros com estradas ruins Cerca de 60% da carga brasileira é movimentada pelas rodovias
As precárias condições das estradas brasileiras são um grande entrave para o desempenho da economia. Além de prejudicar a competitividade das empresas no exterior, também elevam o custo dos produtos consumidos no mercado doméstico. Segundo o gerente da Tintas Suvinil, Otávio Gerbasi, pelo menos 1% da carga transportada pela companhia sofre algum tipo de avaria até chegar ao destino. "Pode parecer pouco, mas o custo dessa perda é enorme."
Nos últimos anos, a empresa decidiu explorar outras formas de transportes, como a ferrovia e a cabotagem. Mas a maioria das mercadorias é entregue por rodovias, já que é a única alternativa para a distribuição final ao consumidor. Segundo dados do estudo do Centro de Estudos de Logística (CEL), da Escola de Negócios da UFRJ, o transporte rodoviário representa hoje cerca de 60% da carga transportada no Brasil. Enquanto isso, nos EUA essa participação é de 26%; Austrália, 24%; e China, 8%.
"O ideal seria termos uma malha ferroviária eficiente e que reduzisse os custos de frete", diz o presidente da trading SAB Company, João Batista de Paula. Segundo ele, os problemas nas estradas estão encarecendo demais o preço do produto nacional no exterior, "onde a competitividade é fenomenal".
A ineficiência do sistema de transporte brasileiro é medida pelo estoque das empresas. No Brasil, a indústria carrega em média 22 dias adicionais de estoque comparada à americana. Esse índice significa um seguro adicional para se proteger de um sistema pouco confiável, onde ocorrem atrasos constantes e perdas, devido a roubos, acidentes e avarias, explica Paulo Fleury, diretor do CEL. (R.P.)
Mais de 80% das estradas têm problemas Situação é mais crítica no Norte, Nordeste e interior de Minas Gerais
RENÉE PEREIRA
Mais de 80% das estradas brasileiras são classificadas como deficientes, ruins ou péssimas, segundo a Associação Nacional do Transporte de Cargas (ANTC). "Essa situação eleva consideravelmente o custo do transporte e o número de mortes nas rodovias espalhadas pelo País", afirma o assessor técnico da entidade, Neuto Gonçalves dos Reis. De acordo com as estimativas, 213 pessoas morrem a cada mil quilômetros de estradas pavimentadas no Brasil. Isso significa a morte de 34 mil pessoas por ano nas rodovias nacionais.
A precariedade das estradas é mais crônica nas Regiões Norte e Nordeste e no interior de Minas Gerais. Segundo Reis, um exemplo das deficiências do sistema rodoviário nacional pode ser verificado nas rodovias Belém-Brasília e na BR-163, que liga Manaus a Porto Velho: sobram buracos e falta segurança para os motoristas.
A reivindicação das entidades privadas é que o governo use mais recursos da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) para melhorar a rede rodoviária, em vez de gastar o dinheiro com despesas administrativas e financeiras. Dos R$ 2 bilhões que o governo federal arrecadou no primeiro trimestre deste ano com o tributo, apenas R$ 70 milhões foram destinados ao setor de transportes. Os dados fazem parte de um estudo do consultor Raul Velloso, encomendado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).
Obras Paralisadas País tem pelo menos 111 obras de transporte rodoviário paralisados
OESP, 25/04/2004, p. B1
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