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22 de Jul de 2019
Bolsonaro quer acesso a dados sobre desmatamento antes da divulgação
Presidente vem criticando os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais sobre a Amazônia. Diretor do Inpe confirmou as informações sobre desmatamento.
O presidente Jair Bolsonaro voltou a cobrar que os dados sobre o desmatamento no Brasil passem primeiro por ele, antes de serem divulgados. E disse que o ministro da Ciência e Tecnologia vai cobrar esclarecimentos do chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Faz dias que o presidente Jair Bolsonaro vem criticando os dados do Inpe sobre desmatamento na Amazônia. Na sexta (19), ele afirmou que, se fosse mesmo toda essa devastação, a Amazônia já teria sido extinta e insinuou que o diretor do instituto estaria a serviço de alguma ONG.
No sábado (20), o diretor do Inpe, Ricardo Magnus Osório Galvão, reiterou os dados do desmatamento: "Ele fez acusações indevidas a pessoas do mais alto nível da ciência brasileira. Não estou dizendo só eu, mas muitas outras pessoas. Esses dados sobre desmatamento da Amazônia, feitos pelo Inpe, começaram já em meados da década de 70 e, a partir de 1988, nós temos a maior série histórica de dados de desmatamento de florestas tropicais, respeitada mundialmente. Fazer uma acusação em público, esperando que a pessoa se demita. Eu não vou me demitir".
O mandato de quatro anos do diretor termina em 2020. No início da tarde, funcionários do Inpe fizeram um protesto em frente ao instituto, em São Paulo. "O Inpe nunca teve um ataque tão drástico e ainda mais agravado por ser feito por parte do presidente da república que, em última análise é quem comanda, dirige o Inpe, por ser um órgão da administração direta", afirmou Gino Genaro, membro do conselho técnico-científico do Inpe.
No fim de semana, Bolsonaro pediu providências aos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes.
Nesta segunda-feira (22), em nota, Marcos Pontes ressaltou apreço pelo Inpe, mas compartilhou "a estranheza expressa pelo presidente quanto à variação dos últimos resultados", disse que "a contestação de resultados, assim como a análise e discussão de hipóteses, são elementos normais e saudáveis do desenvolvimento da ciência, suas teorias e metodologias" e informou que o ministério "está solicitando ao Inpe um relatório técnico completo contendo os resultados da série histórica dos últimos 24 meses, assim como informações detalhadas sobre os dados brutos, a metodologia aplicada e quaisquer alterações significativas desses fatores no período".
O ministro condenou a reação do diretor do Inpe às críticas de Bolsonaro: "Embora entenda o contexto do fator emocional, discordo do meio e da forma utilizada pelo diretor, visto que não corresponderam ao tratamento esperado na relação profissional, especialmente com o chefe do Executivo do país. E, em consequência, o diretor do Inpe foi convidado pelo ministério para esclarecimentos e orientações. A partir dessa reunião serão definidos novos passos".
Nesta segunda, o presidente voltou a criticar a divulgação dos dados do desmatamento. A informação saiu no início deste mês. O Inpe detectou 920 quilômetros quadrados de floresta desmatada só em junho - 88% mais que no mesmo período do ano passado. Jair Bolsonaro reclamou dos números, que considera um exagero, e disse também que não gostou de ter sido pego de surpresa.
"Estou acostumado com hierarquia e disciplina. E um governo - sei que a grande maioria são civis -, nós devemos, no mínimo, ter isso também. No mínimo. Então quando o Inpe lá detecta um dado qualquer, ele tem que subir esses dados - no caso ao ministro Marcos Pontes, de Ciência e Tecnologia, antes passando pelo Ibama -, para divulgar. Não pode, na ponta da linha, alguém simplesmente resolver divulgar esses dados, porque pode haver algum equívoco, pode. Eu não posso ser surpreendido com uma informação tão importante como essa daí, eu não posso ser pego de calças curtas", falou Bolsonaro.
Segundo o Inpe, os dados são enviados todo mês ao Ministério de Ciência e Tecnologia e quase diariamente ao Ibama. E os relatórios ficam disponíveis no site do instituto.
O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Ildeu Moreira, considerou infundada e preocupante a crítica ao Inpe e à qualidade do trabalho de décadas: "Se existem dúvidas quanto a dados e, na ciência o tempo todo o questionamento é permanente, isso deve ser discutido. Mas não colocar daquela maneira, que inclusive atingiu o diretor da instituição, o doutor Ricardo Galvão, que é um colega amplamente reconhecido pela sua competência, pela sua história, pela sua honestidade intelectual".
Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental, avalia que o problema não está nos números preocupantes, mas na falta de uma clara política contra o desmatamento: "As críticas são direcionadas ao mensageiro, e não ao problema. É uma tentativa de desqualificar o trabalho de uma instituição de pesquisa, sem dialogar com aquilo que é o objetivo do governo brasileiro. Existe uma lacuna de informação sobre se o desmatamento é legal ou ilegal. Isso não cabe ao Inpe estabelecer. Isso são os órgãos ambientais, o Ibama, a política do ministério do Meio Ambiente é que têm que trabalhar os dados do Inpe e associar essa informação. E aí dizer, a partir desses dados, qual é a política que o governo brasileiro quer fazer".
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