VOLTAR

Bolívia tem disputa com muita cor

OESP, Internacional, p. A18
11 de Dez de 2005

Bolívia tem disputa com muita cor

Nas eleições presidenciais e parlamentares do próximo domingo, a questão étnica é um dos principais componentes
Roberto Lameirinhas Enviado especial EL ALTO
Ninguém pode acusar a Bolívia de ser inconstante. No período em que a América do Sul era dominada por ditaduras militares, o país era recordista em golpes de Estado. Mesmo depois da democratização que varreu a região na década de 80, a Bolívia manteve a tradição do entra-e-sai de chefes de governo. Nos últimos três anos, foram três presidentes, dos quais dois expulsos por grandes convulsões sociais. No próximo domingo, os bolivianos voltam às urnas para eleger um novo presidente, um novo Parlamento e não há nada no horizonte que indique uma calmaria no cenário político.
Os ativistas indígenas de El Alto - o distrito da zona metropolitana de La Paz onde fica o aeroporto internacional - estão em alerta neste período eleitoral na Bolívia. A sede da Federación de Juntas Vecinales de El Alto, a Fejuve, está lotada de militantes voluntários. A maioria, disposta a trabalhar pela campanha do candidato indígena Evo Morales, do Movimento ao Socialismo (MAS). O cocaleiro Morales, que apareceu nas últimas eleições, em 2002, quando conquistou 21% do eleitorado, é o líder das pesquisas. E, se não for o vencedor ou, ainda, caso vença, mas não consiga confirmar seu triunfo no Congresso, os militantes estão dispostos a coordenar operações de bloqueio de estradas para paralisar La Paz.
Na Bolívia, oito candidatos concorrem à presidência, mas a disputa está mesmo entre Morales, o ex-presidente conservador Jorge (Tuto) Quiroga e o empresário Samuel Doria Medina. Caso nenhum deles obtenha 50% mais um voto no próximo domingo, os dois melhores colocados serão escolhidos pelo novo Parlamento em janeiro.
Morales é o expoente mais visível, mas está longe de ser o único da vertente indigenista. O movimento na Bolívia, ao contrário do que acontece no Equador, é muito pulverizado. Na arena política, o cocaleiro Morales divide o eleitorado que apóia a causa indigenista com Felipe Quispe - o candidato presidencial do movimento neotrotskista Pachakuti. E perto de Quispe, Morales está à direita de Gêngis Khan. Embora Quispe ressalte que os grupos indígenas já não tenham como defender a expulsão de todos os brancos para a Europa, ele ataca Morales por não defender a nacionalização radical de toda a produção de gás natural e petróleo da Bolívia, um tema de grande sensibilidade para a Petrobrás, que já investiu US$ 1,5 bilhão no país. "Evo é indígena, mas seu cérebro já não é mais", disse Quispe na semana passada, criticando uma proposta de Morales de promover um pacto nacional, caso seja eleito presidente.
Rostos escuros não são novidade nas eleições bolivianas. O mestiço Jaime Paz Zamora assumiu o governo no final dos anos 80 e o líder aimará Victor Hugo Cárdenas foi vice-presidente entre 1993 e 1997. Na galeria de presidentes bolivianos, que começa com Simon Bolívar, há algumas caras morenas. O diferencial dessa eleição que acontece na próxima semana é que o líder das pesquisas é um candidato de origem indígena que representa um movimento com forte componente de identidade étnica.
Durante as décadas de 60 e 70, era forte a identidade de classe dos associados da Confederación Sindical Única de Trabajadores Campesinos de Bolivia (CSUTCB), uma das maiores agremiações bolivianas com grande presença na região do Altiplano. Uma série de fatores mudou isso. No campo externo, a queda do Muro de Berlim causou uma crise nos partidos e sindicatos de esquerda. Esse fenômeno foi mundial e não poupou a Bolívia. Além disso, a influência de pensadores nacionalistas provocou a 'indianização' da identidade de classe. A partir desse ponto, o ambiente político e econômico boliviano serviu como uma incubadora.
Com os programas de ajustes adotados a partir dos anos 80, houve uma deterioração das condições de vida no campo. E, como esse processo coincidiu com a abertura política, o ambiente se tornou mais permissivo, e as manifestações aumentaram em todas as regiões. Foi nesse contexto que o braço político do movimento floresceu na Bolívia, país onde cerca de 60% da população têm origem indígena. Em poucos anos, seus representantes passaram a ocupar cargos nos planos municipais, regionais e nacional.
Quando Paz Zamora fez um acordo com o ex-ditador Hugo Bánzer para assumir a presidência em 1989, o movimento cortou seus laços com o programa esquerdista do partido MIR. Mas mesmo tendo rompido com a esquerda tradicional, o movimento não abandonou a maior parte de suas bandeiras.
Pelo que diz a maioria dos analistas, o futuro do movimento passa pelo El Alto. À frente da Federación de Juntas Vecinales de El Alto, a Fejuve, está Abel Manami, jovem dirigente carismático. Para muitos, Manami, de 37 anos, é o sucessor natural de Morales na liderança política do movimento indígena.
Embora tenha surgido no cenário político durante as ações violentas dos piquetes e bloqueios de estrada que levaram à queda de Gonzalo Sánchez de Lozada em outubro de 2003, Manami é considerado um líder moderado num universo dominado pelo extremismo - um integrante do que os especialistas daqui chamam de "dirigência responsável".
Ele se contrapõe aos caudilhos indígenas que dominaram o movimento até o fim do século passado. "Manami tem o mérito de organizar as associações de bairros de El Alto e congregá-las na Fejuve, uniformizando objetivos e tornando viáveis negociações com o governo central", diz o sociólogo da Faculdade de Ciências Sociais da Bolívia, Néstor Cruz Ava‡aneda. Esses movimentos eram disformes e heterogêneos. Muitas vezes, disputavam entre si os benefícios concedidos por La Paz, como serviços de eletricidade e de fornecimento de água.
"El Alto é um microcosmo social da Bolívia de hoje", diz Manami para exemplificar o crescimento do poder indígena na Bolívia. "Quando falamos em El Alto, falamos de quase um milhão de pessoas, quase todas desempregadas e pobres", explica. "Conseqüentemente, sem forças para exigir do Estado os serviços básicos aos quais têm direito." Independentemente do julgamento que se faça das estratégias e da ideologia indigenista, é indiscutível que o movimento é formado "pelos mais pobres entre os pobres", como diz o Relatório de Desenvolvimento 2006, do Banco Mundial. "Falta emprego para todos, mas para os indígenas é pior", diz Juan, um estudante de La Paz.
A organização da Fejuve se espalhou por todos os territórios do Altiplano. As ações de pressão sobre o Estado também se ampliaram nesse contexto de uma nova organização da população indígena. Por causa da singular geografia da Bolívia, o bloqueio de três ou quatro estradas estratégicas pode isolar províncias inteiras. O movimento indígena também tem forte presença na direção de sindicatos operários e mineiros, que promovem greves capazes de causar perdas importantes para a frágil economia do país.
Na mobilização de 2003 contra Sánchez de Lozada, a população indígena ligada à Fejuve isolou La Paz de El Alto incendiando pneus e lixo na única via que une as duas cidades. De quebra, os manifestantes puseram fogo nas cabines de pedágio e na sede da prefeitura local.
Manami, originário de uma família de sindicalistas camponeses, coordenou os piquetes. Mas justifica sua atuação argumentando que, sem organização, eles poderiam ter saído ainda mais do controle e se tornado ainda mais violentos.
"A função do nosso movimento, que vai muito além das entidades puramente indígenas, é a de lutar por condições mínimas de sobrevivência. Não temos a intenção de promover quedas de governo, mas é preciso que os responsáveis entendam que vivemos no limite de uma explosão social", diz o líder. "Não espero uma grande convulsão social depois da eleição de domingo, vença Evo ou Tuto Quiroga. Meu grande temor é sobre o que ocorrerá depois de 22 de janeiro (data marcada para a posse do presidente). Temo pela reversão das expectativas em um governo de Evo, pois é certo que ele não vai nacionalizar o gás e o petróleo e, pragmaticamente, não entrará em confronto direto com os EUA", completa Manami.
Caso a expectativa da população não se cumpra, virão protestos contra ele como vieram contra os ex-presidentes Sánchez de Lozada ou Carlos Mesa. "Tento ser realista e fazer chegar às bases da Fejuve a mensagem de que precisamos de investimentos, e esses investimentos não virão de empresários bolivianos", prossegue Manami.
"Precisaremos de investimentos estrangeiros, mas o que reivindicamos são convênios justos. Que as transnacionais venham aqui, explorar nossos recursos, mas nos remunerem adequadamente por isso. Até agora, as empresas estrangeiras que chegavam aqui achavam que tinham comprado uma parte da Bolívia, é preciso deixar claro que isso não continuará." Se ganhar um dos candidatos brancos e mais liberais,os indigenistas devem aumentar as cobranças e as manifestações nas ruas.

Santa Cruz quer mais dinheiro e mais autonomia Província boliviana diz que produz 40% da riqueza do país e recebe de volta do governo central apenas 12%
"Autonomia já!" A gigantesca faixa na frente do elegante Club Social 24 de Septiembre, na praça principal de Santa Cruz de la Sierra, dá o tom da aspiração dos crucenhos. "Produzimos aqui pelo menos 40% da riqueza do país, mas o governo central nos devolve 12%", diz ao Estado Júlio Durán Ordo‡ez, membro da organização Nación Camba. A entidade é mais radical dos grupos que exigem mais autonomia do Departamento (província) de Santa Cruz em relação ao governo central, identificado com a Bolívia andina.
A maioria de origem indígena de La Paz, no entanto, considera a campanha pela autonomia um movimento separatista - temperado por boas doses de racismo. Os líderes dos movimentos indígenas embaralham os conceitos de autonomia, separatismo e racismo para convencer suas bases de que os oligarcas e as elites de Santa Cruz têm por elas um ódio racial e seu propósito é desintegrar e apropriar-se dos recursos do país. O radicalismo de movimentos como a Nación Camba, que prega o estabelecimento de um Estado quase totalmente independente do poder central, lhe dá argumentos. Por "cambas" se identificam os habitantes dos departamentos do leste do país, originariamente descendentes dos espanhóis que colonizaram a Bolívia. Eles se contrapõem aos "collas" ou "cholos", os indígenas que predominam no Altiplano. Os três termos são pejorativos e denotam diferenças raciais, mas acabaram adotados pelos respectivos grupos.
"O racismo sempre foi um elemento constante da sociedade boliviana, mas as disputas políticos recentes provocaram episódios muito mais graves, como os de violência racial", explica Josefa Salmón, socióloga da Universidade de New Orleans, nos EUA, que está na Bolívia para acompanhar as eleições no país onde nasceu. "Manifestações como bloqueios de estradas, piquetes e protestos com explosivos, como as que causaram a queda de Gonzalo Sánchez de Lozada e de seu sucessor Carlos Mesa, estão causando pânico na população que não se acha indígena e provocando em todos os níveis reações que demonstram o racismo latente da estrutura social."
Há algumas décadas, em locais de maioria camba, aceitava-se tacitamente o fato de que cada grupo social tinha "seu lugar". Em Santa Cruz, pais brancos - ou quase brancos - evitavam matricular seus filhos em escolas onde a maioria dos alunos era indígena. Índias com suas roupas coloridas e carregando crianças nas costas postavam-se na praça diante das janelas do Club 24 de Septiembre, o mesmo da faixa pela autonomia, para assistir aos bailes dos brancos no salão, entre candelabros de cristal e talheres de prata.
"Nunca proibimos a entrada de nenhum convidado aqui, seja branco, índio ou marciano", diz ao Estado, um pouco irritado, um funcionário do clube. Indagado sobre quantos sócios índios conhece, ele parece desconversar: "O clube já promoveu shows com vários grupos de folclore indígenas. Decididamente, não há racismo."
Os descendentes dos colonizadores europeus e os grupos indígenas, principalmente aimarás e quíchuas, nunca miscigenaram-se de forma significativa. Há pouco menos de 30% de bolivianos considerados mestiços e 55% de indígenas. Os brancos são apenas 15%.
"Durante muito tempo, a realidade racial definia a social na Bolívia", explica a professora Josefa. "As identificações étnicas estavam muito ligadas às identificações profissionais, como foi o caso dos mineiros ou camponeses, por exemplo. Hoje, no entanto, começam a surgir as elites sindicais, políticas e culturais indígenas e essas elites já não se conformam apenas com o direito de freqüentar as mesmas festas dos brancos. Reivindicando uma identidade étnica própria, estão lutando pelo direito de ascender ao poder."

OESP, 11/12/2005, Internacional, p. A18

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.