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A bolha de carbono

O Globo, Economia Verde, p. 28
Autor: VIEIRA, Agostinho
25 de Abr de 2013

A bolha de carbono

AGOSTINHO VIEIRA
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde

"Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher". Essa frase famosa do Woody Allen foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao ler o relatório produzido pelo professor Nicholas Stern, da London School of Economics, e pela Carbon Tracker Initiative.

O estudo sugere que o mundo está caminhando para uma nova e grave crise econômica.
Desta vez causada por uma série de investimentos irracionais em combustíveis fósseis. A chamada "bolha de carbono" seria o resultado de um excesso de valorização das reservas de petróleo, carvão e gás que estão nas mãos das 200 maiores empresas do setor. O problema é que dois terços desta riqueza não poderão ser usados se os países cumprirem os acordos de limitar o aquecimento global a 2o C.
Ou seja, segundo o trabalho de Stern, divulgado na última sexta-feira, o mercado está apostando todas as fichas no aquecimento. Não leva a menor fé nos compromissos assumidos. Por isso valoriza muito ativos que, em tese, não poderão ou não deverão ser utilizados. E é essa a encruzilhada. Se o mercado estiver certo, o planeta aquecerá mais do que poderia e teremos consequências graves para a vida das pessoas. Se o mercado estiver errado, podemos ter uma nova crise financeira e consequências igualmente graves para a vida de todo mundo.
Para quem acha que este é só mais um estudo acadêmico, é bom lembrar que ele recebeu o apoio de instituições como o HSBC, o Citibank, a agência Standard & Poor's e a Agência Internacional de Energia. O Banco da Inglaterra reconheceu que um eventual colapso no valor dos ativos de petróleo, gás e carvão representa um potencial risco sistêmico. Em especial para o sistema financeiro britânico, que vem fazendo apostas significativas em carvão.
O documento do professor Stern mostra que, em vez de reduzir os esforços para desenvolver combustíveis fósseis, as 200 empresas gastaram, só em 2012, US$ 674 bilhões para explorar novos recursos. O equivalente a 1% do PIB global. Há alguns anos, outro relatório feito por Stern, a pedido do governo inglês, dizia que 1% do PIB seria o valor anual necessário para levar o mundo em direção a uma economia de baixo carbono. Mas quase nada aconteceu.
Em entrevista ao jornal britânico "The Guardian", Paul Spedding, analista de petróleo do HSBC, disse que os dados revelados pelo estudo são espantosos e que continuar no mesmo curso não é uma opção viável para o setor. O valor das 200 maiores empresas no mercado gira em torno dos US$ 4 trilhões, com uma dívida acumulada da ordem de US$ 1,5 trilhão.
Já James Leaton, da Carbon Tracker, acha que parte do problema está numa excessiva visão de curto prazo: "Os analistas dizem que você deve ficar no trem até pouco antes de ele cair do penhasco. E cada um pensa que é inteligente o suficiente para escapar a tempo. Só que nem todos poderão passar pela porta ao mesmo tempo".
O relatório calcula que as reservas mundiais de combustíveis fósseis equivalem a 2,86 bilhões de toneladas de CO². No entanto, para termos 80% de chances de o aquecimento global ficar em 2o.C, só 31% poderiam ser usadas. Para 50% de chances, 38% das reservas estariam disponíveis. Outro cenário considerou as tecnologias de captura e armazenamento de carbono em pleno funcionamento, o que não acontece hoje. Mesmo assim, o uso das reservas subiria apenas 4%. Resumindo: numa avaliação otimista, o uso das reservas acumuladas chegaria a 42%.
Todo o resto precisaria ficar enterrado, sem uso.
De acordo com o "The Guardian", as agências de rating já expressaram suas preocupações. A Standard & Poor's acredita que o risco elevado pode levar ao rebaixamento de algumas empresas nos próximos anos. Segundo Stern, "a crise de 2008 já mostrou claramente o que acontece quando os riscos se acumulam de forma despercebida".
Um momento crucial dessa discussão acontecerá em 2015, quando os governos do mundo se comprometeram a chegar a um acordo global para limitar as emissões de carbono. Se der certo, todos ganham, mas muitos perdem. Se der errado, todos perdem, mas alguns podem continuar ganhando. Seja qual for o caminho, o risco é grande demais. Não dá para ignorar esse elefante na sala. Como diria Woody Allen, o pessimista garante que já chegamos ao fundo do poço. O otimista sempre acha que dá para cair um pouco mais. Ele tem razão.

US$ 674 bi
Foram investidos pelas 200 maiores empresas mundiais de petróleo, carvão em gás, só em 2012, para explorar novos recursos. Cerca de 1% do PIB global. Dinheiro que pode acabar "enterrado" se os compromissos de limitar o aquecimento global a 2o.C forem cumpridos.

O Globo, 25/04/2013, Economia Verde, p. 28

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