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Boi, soja e floresta

Sustenta n. 3, dez. 2008 - jan. 2009, p. 52-56
Autor: WEIS, Bruno
31 de Jan de 2009

Boi, soja e floresta

Apontados como grandes vilões do desmatamento, fazendeiros da Bacia do Xingu, no Mato Grosso, abrem a porteira para a recuperação ambiental de suas propriedades. Mais do que preocupados com o futuro da Amazônia, eles estão interessados em garantir a sustentabilidade de seus negócios

Por Bruno Weis, de Canarana (MT)*

"A recuperação precisa ser feita pelos produtores, governo e sociedade"
Rodrigo Junqueira, coordenador da Campanha Y IKatu Xingu

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), até setembro passado o desmatamento acumulado na Amazônia em 2008 superou 62 mil hectares, ou 62 mil campos de futebol. Essa área, mais de quatro vezes o tamanho da cidade de São Paulo, se soma aos cerca de 75 milhões de hectares desmatados até hoje - quase 18% do território total da chamada Amazônia Legal. Depois do Pará, o Mato Grosso é o estado que mais derrubou ou queimou árvores - 22 milhões de hectares até o final de 2007, o que representa 25% de seu território.
No Mato Grosso, mais de 5 milhões de hectares viraram lavoura de soja, e outros 22 milhões, pasto.
O chamado Arco do Desmatamento, que abrange o sul de Rondônia, todo o norte mato-grossense, o sul e sudeste do Pará e o oeste do Maranhão, encontra no nordeste do Mato Grosso uma de suas mais contundentes traduções. Naquela região de transição entre Cerrado e Floresta Amazônica, onde mais de 2 milhões de campos de futebol foram desmatados, o que se vê é um sem-fim de pastos e plantações de soja. Berço de mais de 22 mil nascentes, muitas das quais formam o rio Xingu, que por sua vez é um dos grandes afluentes do rio Amazonas, a região é cada vez mais quente, seca e árida.
É nesse pedaço desertificado do Mato Grosso, cuja única grande ilha de vegetação preservada é o Parque Indígena do Xingu, que um grupo de grandes produtores rurais começa a reverter um longo processo de destruição ambiental. Cansados de serem apontados, por parte do governo e da sociedade, como os maiores vilões do desmatamento, esses fazendeiros estão mudando a forma de cultivar soja e criar gado para conciliar as atividades econômicas com as exigências legais para a preservação das matas, solos e rios. Sem nenhum heroísmo, querem recuperar seus passivos ambientais e garantir a própria sustentabilidade de seus negócios. Para isso, estão abrindo a porteira de suas fazendas para pesquisadores e especialistas em recuperação florestal, investindo em novas tecnologias agropecuárias e colocando dinheiro do próprio bolso. Assim, abrem espaço para que suas propriedades conjuguem boi, soja e... floresta.
No esforço para se modernizar, esses pecuaristas e sojicultores fundaram em 2004 uma organização não-governamental chamada Aliança da Terra. O autor da iniciativa é o americano John Carter, nascido no Texas e dono de uma fazenda de 4 mil hectares em Bom Jesus do Araguaia (MT), na qual cria 2 mil cabeças de gado.
Carter se mudou para o Mato Grosso em meados dos anos 1990 para casar com uma brasileira. Diz ter visto muita floresta desaparecer diante dos olhos ao longo do tempo até lutar por regras economicamente viáveis para quem mora na região. Sua visão é pragmática. "A lei que funciona hoje aqui é a da oferta e da demanda, então queremos quantificar os custos de produção e conservação para criar um selo e ter o reconhecimento do mercado." De acordo com Carter, os principais frigoríficos da região estão interessados em agregar valor ambiental a suas cadeias produtivas. "O cenário é favorável. Existem uma pressão mundial pela preservação da floresta e recursos disponíveis. O que me deixa mais otimista, no entanto, é a vontade dos produtores de mudar."
A Aliança da Terra tem atualmente mais de 2 milhões de hectares cadastrados em fazendas em Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará. Em parceria com pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a ONG dos fazendeiros avalia as condições do solo, dos rios e da vegetação remanescente, além dos aspectos sociais e trabalhistas de cada uma das propriedades cadastradas.
"Estes fatores são mensurados para gerar um diagnóstico com pontos positivos e negativos. A partir daí o fazendeiro se compromete a adequar a propriedade", explica Marcos Reis, técnico da Aliança da Terra.
O biólogo Oswaldo Carvalho, do Ipam, tem trabalhado nas fazendas cadastradas com o objetivo de reduzir os custos de preservação dos fazendeiros. Ele diz que o foco do trabalho é recuperar as áreas de preservação permanente (APPs), como as matas de beira de rios, lagos e encostas, cujo custo varia de mil a 4 mil reais por hectare. "Nosso esforço é baixar esse custo para que deixe de ser uma barreira às ações de recuperação." O pesquisador afirma que a adesão dos produtores na bacia do Xingu, após muitos anos de resistência, vem aumentando - desde que os passivos de cada propriedade não ganhem publicidade. "Para abrir a porteira, eles pedem a garantia do anonimato."
Um novo código
A principal razão para a existência de grandes passivos ambientais em praticamente todas as fazendas daquela região do Mato Grosso, dizem os produtores, é a alteração no Código Florestal por Medida Provisória em 1996, que passou a estabelecer o limite de desmatamento em 20% da área de cada propriedade localizada na Amazônia. "A regra foi mudada no meio do jogo, então é difícil que estejam dentro da lei. Até porque ainda é barato ficar ilegal", diz Marcos Reis, que ressalta que a maioria dos produtores foi incentivada a ocupar e desmatar a região durante décadas, contando inclusive com programas de crédito do governo federal. O especialista admite que nenhum dos proprietários cadastrados na Aliança da Terra cumpre a exigência de manter 80% de suas terras preservadas em forma de Reserva Legal (RL).
Enquanto poucos produtores cumprem a regra, os representantes do setor em Brasília buscam aproximar a lei à realidade na região. Uma nova mudança no Código Florestal, reduzindo a reserva legal para 50%, é a principal bandeira da bancada ruralista no Congresso Federal. Em meados de novembro, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, apresentou proposta com nove alterações na legislação, como a possibilidade de recomposição das APPs com espécies exóticas, a inclusão das APPs na área de RL e, claro, a redução da Reserva Legal na Amazônia de 80% para 50% da área de cada propriedade.
Índios e gaúchos
Em outubro passado, parte desses fazendeiros participou de uma feira de projetos socioambientais em Canarana (MT ), cidade de 17 mil habitantes fundada por colonos gaúchos na década de 70. A feira colocou lado a lado fazendeiros, índios, assentados, ativistas, funcionários do governo, pesquisadores e estudantes. Cada um no seu estande, mostrando o que tem sido feito para recuperar ambientalmente a região. Na primeira noite do evento, a apresentação de danças típicas dos povos indígenas do Alto Xingu e da tradição gaúcha resumiu a variedade de culturas que convivem naquela parte central do país.
Luiz Carlos Castelo, cuja fazenda em São José do Xingu produz por ano 3,5 mil cabeças de gado, participou da feira de Canarana. E teve o que mostrar. Há quatro anos, o pecuarista iniciou o reflorestamento das margens dos córregos e rios de sua propriedade. O passivo de Castelo, que era de 350 hectares degradados em APPs, caiu hoje para quase 100 hectares. O fazendeiro afirma que o avanço se deve à tecnologia empregada. No caso, uma técnica de plantio de sementes nativas junto com duas variedades de feijão que crescem rápido e ajudam na recuperação do solo. "Plantamos mais de 70 mil mudas e 1,5 tonelada de sementes", afirma Castelo. "Com o solo adubado e sombreado,a umidade voltou, trazendo pássaros e pequenos animais", comemora o fazendeiro.
O investimento já agrega valor a seu produto. Ao certificar seu gado com um selo que garante o manejo adequado da propriedade, incluindo a recuperação de nascentes, Castelo passou a fornecer carne para a rede Pão de Açúcar e para um número maior de frigoríficos. A recuperação ambiental da propriedade gerou outros benefícios. "Quando o solo vai se recuperando, o uso de agrotóxicos é menos necessário, o que representa economia para o produtor", explica Ladislau Skorupa, pesquisador do centro de Meio Ambiente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que presta assessoria aos produtores na região do Xingu. Para ele, a integração entre lavoura e pecuária - por meio de rodízios de áreas e cultivos em seqüência - é outra tecnologia que permite a intensificação do uso do solo, reduzindo a pressão sobre as áreas de floresta.
Para Rodrigo Junqueira, agrônomo do Instituto Socioambiental (ISA) e um dos coordenadores da Campanha Y Ikatu Xingu, a articulação no setor produtivo tem mais chance de vingar do que as regras impostas pelo governo federal para recuperar as regiões. "É melhor apostarmos em ações de base, que busquem a recuperação ambiental sem tirar do horizonte a sustentabilidade dos negócios", afirma. "É fundamental que as iniciativas saiam dos gabinetes e venham para o chão, e não somente como controle e punição." Com o apoio da campanha, diz Junqueira, 500 hectares em fazendas estão sendo recuperados com o plantio de sementes ou mudas.
O clima mudou
O engenheiro agrônomo José Oscar Yoshimine, dono de uma fazenda de 5,6 mil hectares em Canarana, na qual planta soja e cria gado, vem cercando as nascentes e conectando as áreas de floresta da propriedade. "Estamos também protegendo as represas que se formaram com as chuvas, e agora estamos criando peixes como tambaqui e matrinxã. Vai dar até para vender na região." Quando Yoshimine chegou a Canarana, 90% da fazenda era floresta. "Nós derrubamos muita mata mesmo, viemos para trabalhar, não para fazer algo ilegal", explica. "Eu mesmo vim para ajudar a erguer a cidade de Querência, onde só havia mato." Ao contrário de outros fazendeiros da região, o produtor enxerga outro motivo para reverter a situação, além da garantia de mercado e do cumprimento da lei: as mudanças climáticas. "Sentimos muito as mudanças na região, pois o regime de chuvas mudou, o período de estiagem está maior, os rios estão secando, então realmente agora é a hora de tomarmos uma atitude."
A maior fazenda da região, uma das maiores do Brasil, começa também a mudar de postura. A fazenda Roncador, em Querência, tem números impressionantes. São mais de 96 mil cabeças de gado em uma área maior que a cidade de São Paulo, equipada com aeroporto e mais de 600 quilômetros de estradas pavimentadas. Apesar da riqueza, a fazenda enfrentou conflitos com comunidades indígenas por desviar rios e ficou marcada por ser acusada nos últimos anos pelo Ministério Público de utilizar mão-de-obra escrava. "Ficamos muito envergonhados com a acusação", diz Caio Penido, neto de Pelerson Penido, o dono da fazenda. Caio, 35 anos, começa a assumir a administração da propriedade e quer mudar a mentalidade na gestão do negócio. "Estamos fazendo inventário florestal e indo atrás da licença ambiental do estado. Mas as dificuldades são muitas, principalmente se não temos o poder público ao nosso lado", diz o fazendeiro, que contratou a Aliança da Terra para saber o tamanho do passivo ambiental.
Veredas mapeadas
As mudanças na bacia do Xingu encontram paralelo em outras regiões do Mato Grosso. Em Lucas do Rio Verde, município responsável por mais de 1% da produção nacional de grãos, a prefeitura está liderando um projeto para regular o uso de defensivos agrícolas e catalogar veredas, rios e nascentes a partir de um plano de manejo elaborado por técnicos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP). Os produtores rurais que adotam práticas sustentáveis merecem o aplauso de todos, mas ainda há muito que fazer. "O desmatamento das matas ciliares na região das nascentes do Xingu continua a acontecer", afirma André Villas Bôas, coordenador do ISA no Xingu. "É preciso que as ações pontuais desses fazendeiros sejam ampliadas e consigam aumentar a recuperação local." (*Bruno Weis viajou a convite da Campanha Y Ikatu Xingu)

Sustenta n. 3, dez. 2008 - jan. 2009, p. 52-56

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