OESP, Vida, p. A20
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
21 de Jul de 2005
As boas notícias têm futuro
Marcos Sá Corrêa
E depois ainda dizem que os hipocondríacos são eles, os ambientalistas, que encheram Brasília no fim de semana para tratar de assuntos menos sombrios que os da política nacional. Vindos de 70 países, eles espalharam pela cidade celebridades que geralmente os nativos só vêem em capa de livro, e assim mesmo porque não adianta procurá-los em capa de revista, onde raramente aparecem. Puseram 1,6 mil pessoas em auditórios, para ouvir pesquisadores falando, em inglês, sobre 950 trabalhos científicos. E passaram em brancas nuvens pelo noticiário da semana, porque os brasileiros estavam ligados nesta versão local do apocalipse que é a crise do governo Lula.
O Congresso Internacional da Sociedade para a Biologia da Conservação não chegou a ser uma festa como a do livro em Paraty. Mas fez tanto movimento na capital da República que o Instituto Brasileiro de Pesquisas Ecológicos, ONG que na vida real atende pelo nome de Ipê, aproveitou para anunciar a construção de uma escola superior do Meio Ambiente no interior de São Paulo. O projeto foi lançado domingo à noite na Oca da Tribo, restaurante natural com chefe angolano e decoração do Xingu. Numa hora dessas, a simples promessa já seria um sinal de que o ambientalismo brasileiro, apesar dos pesares, está ficando maduro e olhando o futuro com otimismo. Mas ela é bem mais do que isso.
O Ipê nasceu em 1992 - por sinal, o ano em que um governo desabava, no impeachment do presidente Fernando Collor. Veio ao mundo em berço tão modesto que, nos primeiros tempos, fazia reuniões plenárias na cama de casal de seus fundadores, em Piracicaba, por falta de cadeiras na sala para a magra equipe. Treze anos depois, com patrocínio da Natura, que fabrica cosméticos, a ONG está pronta para erguer em Nazaré Paulista 5 mil metros quadrados de salas, laboratórios e varandas. Serão a base de um campus para incubar as próximas gerações de profissionais do ambientalismo.
Nos traços do arquiteto Newton Massafumi, a escola parece um modelo de leveza. Ancorados em colinas, seus pavilhões de madeira se lançam sobre a copa das árvores como grandes ninhos geométricos. Mas, por dentro, o projeto é pesado. Mistura biologia, ética, climatologia, história, filosofia, economia e até "medicina da conservação" na receita de "um centro de referência na formação de líderes da conservação ambiental". E não é aposta feita no escuro.
Desde 1996, o Ipê dá brilho teórico e polimento de campo a diretores de parques nacionais, administradores de reservas estaduais, pesquisadores acadêmicos e voluntários de outras ONGs na sede de Nazaré Paulista. Hoje há, entre seus 1.190 ex-alunos, quem cuide de araras-azuis em Mato Grosso do Sul, de floresta amazônica em Mamiraruá e de santuários naturais em Cuba. Com apenas 16 vagas por ano, seu currículo mais ambicioso, o Curso Latino-Americano de Biologia da Conservação e Manejo da Vida Silvestre, lastreado num programa da Smithsonian Institution, já formou 141 especialistas.
Tudo porque a conservação da natureza, além da vontade de salvar o mundo, exige competência técnica. A começar por Claudio Padua, que criou o Ipê depois de dez anos estudando biologia. Antes, ele era só presidente de empresa. Sua mulher, Suzana Padua, fez doutorado em Educação Ambiental. E a equipe que os dois comandam tem 12 mestres, 4 doutores e uma fila de candidatos ao diploma de pós-graduação.
Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)
OESP, 21/07/2005, Vida, p. A20
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