O Globo, O Pais, p.11
04 de Out de 2005
Bispo reitera a Lula que não suspende greve de fome
Luiza Damé, Ricardo Galhardo e Letícia Lins
Em carta de próprio punho, o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, reiterou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não suspenderá a greve de fome, iniciada no último dia 26 de setembro, enquanto não receber um documento assinado por Lula revogando e arquivando o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco. A atitude do bispo, que está em Cabrobó (PE) e vem recebendo apoio de líderes religiosos e da oposição, preocupa o Planalto.
No último sábado, Lula mandou um emissário levar uma carta a dom Luiz, em que apela ao diálogo e à ponderação. Mas em sua resposta, o bispo não fez concessões:
Confirmo minha decisão de permanecer em jejum e oração enquanto não chegar em minhas mãos o documento assinado pelo senhor revogando e arquivando o atual projeto de transposição, diz dom Luiz na carta a Lula, datada de 1 de outubro.
Ontem à noite, Lula admitiu que a atitude do bispo cria um impasse em torno da obra e disse que continua disposto a negociar com dom Luiz. Ele recorreu a uma passagem bíblica para explicar sua posição.
No São Francisco estamos com um problema. Não tenho muito o que fazer. Nem começamos as obras e o frei mandou uma carta para mim e entrou em greve de fome. Mas tenho uma paciência de Jó disse Lula.
O presidente lembrou que 12 milhões de famílias serão beneficiadas pelo projeto, que retirará apenas 1% da água do rio e, em compensação, garantirá 0,25% do orçamento da União para obras de revitalização. Com isso, deu a entender que não pretende desistir da obra.
Greve de fome é judiar do próprio corpo O presidente lembrou que já fez greve de fome, quando era líder dos metalúrgicos do ABC, mas foi demovido da idéia pelo arcebispo de São Paulo, dom Cláudio Hummes, na época bispo de Santo André.
Greve de fome é judiar do próprio corpo disse Lula.
Dom Luiz disse estar disposto a dialogar com o governo após a suspensão da transposição e indiretamente criticou o processo de discussão do projeto.
Depois de não termos mais, sobre nossas cabeças, o fantasma do projeto de transposição, estamos inteiramente abertos para um amplo diálogo e debate nacional, verdadeiro e transparente, discutindo alternativas de convivência com o semi-árido e a oportunidade ou não de realizar a transposição, disse o bispo.
Na carta que enviou ao bispo, no fim de semana, o presidente pediu: Que o senhor nos dê o direito a um novo diálogo e que o esgotemos, como é próprio de pessoas democráticas, antes de gestos definitivos.
Mais de duas mil pessoas são esperadas hoje no sítio Boa Vista, em Cabrobó, onde irão engrossar o movimento para barrar a obra. Ontem o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) distribuiu nota afirmando que a manifestação do religioso e a transposição revelam a face perversa do governo.
Ato no aniversário do rio e do bispo
Heliana Frazão
Mais de 30 ônibus saíram de cidades baianas e de Sergipe e devem chegar hoje a Cabrobó (PE) para uma manifestação de solidariedade ao bispo Luiz Flávio Cappio. Em 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, são comemorados os 505 anos de descoberta do Velho Chico e o aniversário do bispo, que completa 59 anos.
A manifestação começa cedo. Haverá uma caminhada até a Capela São Sebastião, às margens do rio, onde o bispo se encontra. O ato será encerrado com uma celebração eucarística presidida pelo próprio bispo, caso o seu estado físico, já bastante debilitado, permita.
Em Salvador, também está programada uma caminhada da Praça da Piedade, no Centro, até a Igreja de São Francisco, no Pelourinho. Ontem, o bispo recebeu a visita de sua irmã mais velha, Rita de Cappio, que mora nos Estados Unidos. O frei também foi visitado por três bispos de Sergipe: dom José Lessa (Aracaju), dom Mauro Fisieri (Propriá) e dom Docênio Fontes de Matos, bispo auxiliar de Sergipe.
Durante todo o dia, representantes do Fórum Permanente de Defesa do Rio São Francisco, das Cáritas brasileiras, da Comissão Pastoral da Terra e do Movimento dos Trabalhadores Desempregados se reuniram em vigília na porta do Ibama em Salvador.
Obra agora depende do Ibama
O início das obras de transposição das águas do Rio São Francisco depende apenas da licença de instalação, que deverá ser concedida pelo Ibama até o fim desta semana. Antes de emitir o parecer, a equipe técnica da Diretoria de Licenciamento e Qualidade Ambiental do órgão está examinando se o Ministério da Integração, responsável pela obra, elaborou projetos de compensação do impacto ambiental provocado pelo desvio do curso de parte do rio.
No dia 29 de abril, o Ibama concedeu uma licença prévia autorizando a transposição do rio, desde que o ministério realizasse planos básicos para garantir a conservação mínima do meio ambiente, como o monitoramento do processo erosivo nas proximidades do rio. Esses planos foram entregues em 8 de setembro e estão na fase final de análise.
Segundo o ministério, as obras começam na semana seguinte à concessão da licença do Ibama. A primeira parte levará dois anos para ser concluída.
O Globo, 04/10/2005, p. 11
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