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Bioeconomia prospera em paraíso quilombola

Valor Econômico, Especial, p. A16.
Autor: CHIARETTI, Daniela
05 de Set de 2022

Bioeconomia prospera em paraíso quilombola
Em Oriximiná, no norte do Pará, comunidades quilombolas aumentam renda com produtos não-madeireiros, preservam a floresta e melhoram a merenda escolar

Daniela Chiaretti

05/09/2022

A assistente social ministrava um treinamento sobre como preparar pão com farinha de castanha em uma comunidade quilombola no norte do Pará. Em certo momento pediu aos participantes que "dobrassem a receita". Uma das mulheres a interrompeu: "É para dobrar o papelzinho?", perguntou, mostrando a folha onde anotava os ingredientes. Outra dúvida havia sido em relação ao que significava "um terço de xícara". Há neste relato pistas do contexto atual de comunidades afrodescendentes espalhadas em Oriximiná, no maior mosaico de áreas protegidas da Amazônia - dificuldades com matemática básica, maneiras diferentes de se expressar, projetos de geração de renda, melhora da alimentação escolar e esforços para manter a floresta em pé.

Oriximiná é um dos maiores municípios do país e um canto do paraíso na Terra. Na margem esquerda do Amazonas, ao longo do belo rio Trombetas e seus afluentes, vivem nove mil a dez mil quilombolas em 37 comunidades. São descendentes de escravos que fugiram dos maus-tratos nas lavouras de cacau de Óbidos e Santarém a partir da segunda metade do século 18. Foram entrando na mata densa e por ali ficaram. Oriximiná é o berço do movimento quilombola do Brasil. A primeira titulação de terras coletivas -os territórios quilombolas- ocorreu nesta região.

Foi também nesta área que pesquisadores do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) começaram um projeto de desenvolvimento territorial e sustentabilidade, o Florestas de Valor. "Aqui trabalhamos com as cadeias de valor mesmo. Buscamos treinamento para fazer a extração no campo, depois o beneficiamento da biodiversidade, o envase do produto e até montar a cooperativa para escoar a produção", conta Marina Piatto, diretora-executiva do Imaflora. "Vamos evoluindo com a comunidade no desenvolvimento local", segue ela.

Agora os quilombolas que vivem espalhados em 27 milhões de hectares, na região conhecida por Calha Norte, procuram ter renda de produtos florestais não madeireiros como o cumaru, a andiroba, a castanha e a copaíba, ao mesmo tempo em que garantem a floresta preservada. O mesmo caminho vem sendo percorrido por assentados rurais e povos indígenas como os waiwai, que plantam, cultivam e colhem um mix de pimentas, por exemplo. Todos escoam os produtos através da Cooperativa Mista dos Povos e Comunidades Tradicionais da Calha Norte, a Coopaflora. É um exemplo de bioeconomia que prospera na Amazônia.

"Historicamente, essa região difere do resto do Estado", diz o livro "Florestas de Valor", do Imaflora, pontuando projetos e arranjos envolvendo o poder público, o setor privado e a sociedade civil. "Um reflexo disso é que cerca de 82% das terras foram destinadas à conservação da biodiversidade e ao usufruto de povos indígenas e populações tradicionais por meio de unidades de conservação federais e estaduais, terras indígenas, terras quilombolas e projetos de desenvolvimento sustentável". O Pará é um dos campeões de desmatamento pelos índices do Deter/Inpe. Mas não em Oriximiná.

A semente de uma árvore grande conhecida por cumaru é o item de maior valor da cesta da sociobiodiversidade que existe hoje na região. Em cada fruto, uma só semente. Secas ao Sol e comercializadas pela Coopaflora rendem R$ 50,00 o quilo para os extrativistas - ou R$ 25,00 o quilo da semente verde. Em 2021, mais de 200 extrativistas se beneficiaram com a venda das sementinhas negras apelidadas de "baunilha da Amazônia". Os maiores produtores são assentados do Projeto de Desenvolvimento Sustentável de Paraíso, no município de Alenquer. Em 2022, a produção terá boa participação de quilombolas e indígenas.

A empresa inglesa de cosméticos Lush é uma grande compradora do cumaru da região. Entre 2017 e 2021, foram vendidas à Lush mais de 26,6 toneladas de sementes secas de cumaru, movimentando quase R$ 1,5 milhão. "A madeira da árvore de Cumaru é muito apreciada. A valorização da semente é fundamental para fazer frente à exploração predatória da madeira", diz o biólogo Léo Ferreira, coordenador do projeto Florestas de Valor, iniciativa que recebe patrocínio da Petrobras através do programa Petrobras Socioambiental. "O cumaru também é utilizado na alta gastronomia, mas os volumes ainda são bem menores", diz.

A venda de castanha beneficiou 283 pessoas na última safra e saltou de R$ 245 mil comercializados em 2020 para R$ 645 mil em 2022. Na época da safra, famílias vão aos castanhais, montam acampamentos e ficam por lá meses. Tem ainda a andiroba, um repelente natural que ajuda na dor de garganta e o mix de pimentas assîssî, que são plantadas, colhidas e beneficiadas por mulheres do povo waiwai.

A copaíba, por sua vez, beneficiou outros 108 extrativistas. O valor da venda pela cooperativa vem crescendo - R$ 55,6 mil em 2020 e R$ 191 mil em 2021. É uma atividade muito forte nas comunidades do Alto Trombetas, onde mora o instrutor quilombola Aldo Souza Pita, que está em Jarauacá para treinar os interessados em extrair o óleo que ajuda na cicatrização e age como anti-inflamatório, além de outras propriedades. "Onde vivo, cada árvore de copaíba tem uma placa com um número e a data da última extração", diz Aldo Pita a quem o escuta no galpão onde está acontecendo a capacitação. É um quilombola falando a outros, uma troca de tecnologias de manejo da floresta e conhecimentos tradicionais.

"Sou nascido e criado em Oriximiná. Para mim, a floresta só tem valor se estiver em pé", diz o técnico florestal comunitário. "Estou aqui para trazer boas práticas na extração de copaíba", segue Aldo Pita mostrando o instrumento usado para furar a árvore e o recipiente onde se guarda a resina. Ele deixa claro que é preciso tampar o furo depois, para que a copaíba possa se refazer. "A copaibeira é como um banco. Se trabalharmos com boas práticas sempre vai ter algum dinheiro ali", diz ele. "Não é para furar baixinho no tronco, ou se mata a árvore", ensina. Jovens da comunidade o escutam com atenção.

"A questão dos jovens preocupa muito. Tem alguns que vão estudar na cidade e não voltam. Tem a questão do tráfico, nas cidades e no interior. Por isso quando planejamos cursos de capacitação, como o de copaíba, queremos dar preferência aos jovens", diz Daiana Figueiredo, presidente da Coopaflora. "Queremos mostrar a eles que mantendo a floresta em pé dá para tirar o próprio sustento, fazer o próprio horário, tirar a economia da floresta e manter ela viva. A floresta é tudo para a gente, é a nossa vivência, o lugar onde tem remédio. Nosso jovem tem que dar mais valor a ela", diz Daiana. "Na cidade, meninos se envolvem com drogas e meninas engravidam", diz uma jovem comunitária.

Roseneide Silva da Cruz, 26 anos, jovem comunitária de Jarauacá, sonha em fazer odontologia. "Trabalho aqui é mais na roça. Na cidade, é só trabalho doméstico", diz ela. "Eu queria era ser dentista", continua. Ao seu lado, Raene Silva da Cruz, 25 anos, é professora da escola de Jarauacá, no rio Erepecuru. São 170 alunos. A moça dá aula de tudo, de matemática a geografia passando por ciências e português. "A internet é lenta e não supre as nossas necessidades", diz ela, enquanto alunos de outra comunidade chegam em barco. "Na seca é difícil pra eles virem à escola", observa.

"Espero que nosso povo, principalmente a juventude, vá estudar e volte para colocar as políticas públicas de pé", diz Lenivalda de Souza Xavier, presidente da Associação de Mulheres de Oriximiná e também coordenadora de articulação da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo da Área Trombetas (Acorqat). "Temos que ter logística para ir às comunidades, que são muito distantes, e falar de feminicídio, de racismo, de violência, do resgate da cultura quilombola, que está se perdendo", diz ela.

O Imaflora ajudou a organizar a produção da copaíba, a estabelecer padrões de qualidade, a criar a arquitetura jurídica e comercial, a encontrar os compradores, a formar a cooperativa. O processo levou alguns anos. "Fomos tirando os atravessadores da cadeia de valor", diz Léo Ferreira. O mesmo processo aconteceu para a castanha, a andiroba, o cumaru. "Na parte da produção dos não-madeireiros, melhoramos a renda das comunidades com algo que já existia. Mas no caso da merenda, o Florestas do Valor viabilizou uma receita totalmente nova", diz ele.

Nas quatro grandes áreas quilombolas de Oriximiná foram erguidas quatro agroindústrias. Foi em uma delas que aconteceu a dúvida de "dobrar a receita", do primeiro parágrafo. "Havia uma demanda das comunidades de melhorar a alimentação escolar e colocar o produto deles na merenda, como também de aumentar a renda", diz Léo Ferreira. Os estudantes quilombolas vivem na frente de rios e em vilas onde sempre há galinhas ciscando, mas comem salsichas e enlatados na merenda. Há frutos de todos os tamanhos e cores nas comunidades, mas na escola tomam "suco de pozinho". "A prática é desconectada da riqueza do território", diz Léo Ferreira.

Em 2009 se definiu que o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) de cada município deve investir 30% dos recursos em compras diretas da agricultura familiar. Era uma grande oportunidade de geração de renda para as comunidades. Um dos primeiros passos foi buscar preencher os requisitos da legislação com os documentos necessários como a Declaração de Aptidão ao Pronaf (Dap).

Outro ponto foi conseguir recursos para construir as agroindústrias e comprar os maquinários - um projeto do Fundo Amazônia, que funcionava à época, foi fonte importante de financiamento. Outro passo foi discutir qual seria o cardápio ideal nas escolas. Peixes e galinha caipira exigiam o ok da vigilância sanitária e foram descartados naquele momento.

A estratégia foi começar a desenvolver uma linha de assados (como pães e biscoitos) nas agroindústrias e, depois, uma linha de polpas de frutas como açaí e sucos como caju e taperebá, que estão nas roças dos vilarejos. A pandemia atrasou os planos, que estão voltando agora.

Na comunidade de Aracuã de Baixo, no rio Trombetas, a agroindústria é toda branca, tem painéis solares e ali já assam pães enriquecidos com farinha de castanha para as crianças. "Foi um processo de fortalecimento da agricultura familiar para culminar nesse novo empreendimento", diz Mateus Feitosa, assistente técnico de projetos do Imaflora. "Antes a gente só trabalhava na roça, e não era nada fácil", diz Ediane Costa Andrade, uma das 15 pessoas que está na agroindústria. "Eu ia comprar suco na cidade. Esse projeto veio valorizar nossos produtos, que antes não tinham valor nem pra nós", diz ela.

A jornalista viajou à Oriximiná, no Pará, a convite do Imaflora.

Valor Econômico, 05/09/2022, Especial, p. A16.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/09/05/bioeconomia-prospera-…

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