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Biodiversidade não pode ser um almoxarifado intocável

O Globo, Página 2, p. 2
Autor: PINTO, Angelo da Cunha
23 de Abr de 2014

'Biodiversidade não pode ser um almoxarifado intocável'

Angelo da Cunha Pinto, químico: Especialista do Instituto Militar de Engenharia (IME) pesquisa remédios na natureza e produz um banco de dados de extratos de uso terapêutico na UFRJ.

ENTREVISTA A:
PEDRO MOTTA GUEIROS
pedromg@oglobo.com.br

"Sou químico, tenho 65 anos, e estudo a biodiversidade em busca de substâncias de alto valor agregado. Mais do que nunca tenho que acreditar no meu trabalho. Tive um câncer e faço quimioterapia com um remédio derivado de um planta. Estou me aproveitando daquilo que procuro desenvolver".

Conte algo que não sei.
As plantas devem ser olhadas não só pela beleza, mas como biofábricas altamente especializadas.
Até hoje, cerca de 30% dos fármacos da terapêutica médica são obtidos, derivados ou sintetizados, a partir de produtos naturais.

Qual o tamanho da nossa farmácia a céu aberto?
O Brasil abriga um quinto do total global das plantas superiores e, no entanto, só tem um fármaco industrializado, um anti-inflamatório de uso tópico.
Nossa produção está restrita aos cosméticos e suplementos alimentares. Não chega à indústria farmacêutica.

O olhar estrangeiro é predador ou revelador da nossa riqueza?
O que chamam de biopirataria hoje não é mais um grande problema. Qualquer substância que entre na clínica você tem como rastreá-la. Se veio de uma planta brasileira, pode provar e buscar reparação.
Nossa legislação não permite a patente de nenhuma espécie da flora. Mas, se eu trabalho em alguma planta usada por determinadas comunidades, tem que haver repartição dos direitos caso surja algum produto.

Mas a descoberta do princípio ativo não tem dono?
Se os resultados do estudo são publicados na comunidade internacional, eles são de domínio público. O estado de São Paulo criou uma rede virtual para sequenciar o DNA de uma bactéria que causava o amarelinho, uma doença que traz prejuízo incrível ao cultivo da laranja. Os resultados foram publicados na capa da "Nature" em 2000. A partir daí, surgiram pequenas empresas que se dedicam ao estudo de sequenciamento genético e de novos fármacos. É o modelo para biodiversidade: negociar o conhecimento agregado.

O que se tem feito no Rio?
Hoje temos um grande projeto, o &Flora, para o levantamento dos 8% que restam da Mata Atlântica no Rio. Estamos construindo um banco de extratos dessas plantas, que nos permite estudar seu uso contra doenças que não têm medicamentos convencionais e alguns tipos de vírus, como o da Aids.

Como beneficiar todos sem prejudicar a comunidade que produziu o conhecimento?
O problema é a dificuldade criada aqui no Brasil. Para eu estudar uma planta, tenho que ter a permissão do Ministério do Meio Ambiente. Você não pode ter um banco que seja quase um almoxarifado intocável.

O poder das plantas floresce na comunidade e dá fruto nas corporações?
Temos que mudar o paradigma para aproveitar tanto o conhecimento tradicional quanto o conhecimento tecnológico disponível nas grandes corporações.
Só se avança com esse equilíbrio.

O suposto atraso dos índios brasileiros, que viviam da conservação na natureza, é o paradigma do futuro?
A gente começa a perceber que eles tinham e têm um conhecimento que foge à nossa visão ocidental clássica. O conhecimento ancestral é fundamental.

A perda de espécies causada pelo desmatamento é uma viagem sem volta?
Em vez de ficar lamentando, temos que aproveitar aquilo que temos. A nossa grande perda é não extrair tudo o que nossa biodiversidade oferece.
Nós somos os grandes culpados da situação atual.

O Globo, 23/04/2014, Página 2, p. 2

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