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Biodiversidade e agro forte são trunfos do Brasil para ser líder em ingredientes plant-based

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29 de mar de 2021

Biodiversidade e agro forte são trunfos do Brasil para ser líder em ingredientes plant-based
Enquanto governo prepara plano nacional de proteínas alternativas, avançam pesquisas e experimentos com feijão, mandioca, amendoim, ervilha, lentilha e grão-de-bico

LEANDRO BECKER
29 MAR 2021
*Publicada originalmente na edição 424 de Globo Rural (março/2021)

A escalada dos produtos à base de plantas abre uma oportunidade para o Brasil se consolidar como principal fornecedor de ingredientes da nova indústria de proteínas alternativas. Entre os trunfos estão a biodiversidade única e a potência de um agronegócio forte e respaldado pelo mercado internacional.
A ascensão do setor já chama a atenção do Ministério da Agricultura, que pretende lançar um plano nacional de proteínas alternativas ainda neste ano. O primeiro debate público, com foco nesse tema e novos ingredientes, foi neste mês, durante a FoodTech Expo.
Ao mesmo tempo, Embrapa e organizações como o The Good Food Institute (GFI) têm investido em pesquisas para agregar valor a culturas já tradicionais no país, como feijão, mandioca e amendoim, e a outras incipientes, como ervilha, lentilha e grão-de-bico.
"As empresas buscam ingredientes nacionais porque isso reduz custos e aumenta a competitividade. E, com preços melhores, a tendência é aumentar ainda mais o consumo", destaca Katherine Matos, diretora de ciência e tecnologia do GFI Brasil.
O GFI já dispõe de um diretório colaborativo com mais de 100 pesquisadores de 44 instituições no Brasil. Em nível internacional, mantém, desde 2019, um programa internacional de incentivo à pesquisa sobre proteínas alternativas. No ano passado, três iniciativas brasileiras foram aprovadas e receberam, juntas, R$1,7 milhão para estudos sobre mandioca, caju e feijão.
A expectativa é de que mais estudos avancem pelo país, inclusive incentivados pelo governo - o fomento à pesquisa é um dos pontos do plano nacional de proteínas alternativas. Segundo Katherine, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação também está mapeando produtos em potencial. Procurada, a pasta não respondeu aos questionamentos da revista Globo Rural.
"Se o governo atua como articulador, ele cria um arcabouço para isso crescer. É preciso organizar, identificar necessidades e até possíveis mudanças na lei. Até porque o produto final à base de plantas depende de uma matéria-prima confiável", destaca Marcelo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe).
Segundo ele, esse novo mercado tem potencial e, no caso do feijão, uma possibilidade é agregar valor, por exemplo, aos grãos partidos (quebrados ou sem casca), que hoje vão para ração animal só porque a "estética" prejudica as vendas ao consumidor.
"Cerca de 7% da produção brasileira de feijão, em torno de 200 mil toneladas, não chega ao supermercado por causa disso. Mas, em termos de qualidade nutricional, não há diferença nenhuma. Então, pode ser uma boa alternativa para agregar valor", aponta Lüders.
Ele afirmou que o potencial do mercado de proteínas alternativas já vem sendo discutido internamente pelo setor. "Aumentar a produção não é problema. A maior necessidade é investimento para elevar a produtividade e reduzir a perda de grãos na colheita", ressalta.
Avançar no mapeamento de fontes de proteínas é crucial para o Brasil liderar o mercado de ingredientes. "Temos grande potencial, mas ainda precisamos descobrir as melhores formas de produzir valorizando as culturas já estabelecidas", avalia Janice Ribeiro Lima, engenheira de alimentos da Embrapa Agroindústria de Alimentos.
"O Brasil atualmente importa cerca de 70% da ervilha, 98% do grão-de-bico e quase 100% da lentilha"
Marcelo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe)
A unidade, sediada no Rio de Janeiro, trabalha com duas linhas de pesquisa. Uma está focada no uso do bagaço de caju para obter fibra; a outra é voltada a leguminosas como feijão, grão-de-bico, lentilha e ervilha. "Elas têm capacidade de absorção de água, óleo e emulsificação, permitindo que a indústria use para produzir vários alimentos", diz Lima.
Apesar de cobiçados pela indústria de proteínas alternativas, ervilha, grão-de-bico e lentilha ainda são culturas inexpressivas no Brasil. "Importamos atualmente cerca de 70% da ervilha, 98% do grão-de-bico e quase 100% da lentilha. E não é porque não tem potencial de consumo, mas porque é caro. Se produzirmos aqui, é possível reduzir o valor e triplicar o consumo muito rápido", destaca Lüders, do Ibrafe.
Mostrar esse potencial ao produtor é um dos propósitos da Embrapa Hortaliças. Warley Nascimento, chefe-geral da unidade, diz que já há um trabalho com cooperativas do Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo, visando ampliar a produção e fazer testes de campo.
"Essa oportunidade é muito grande. Na hora em que os produtos começam a se popularizar usando essas leguminosas, é preciso ter matéria-prima. E, tendo produção nacional, fica mais interessante para o mercado e o produtor", explica Nascimento.
Ele cita o grão-de-bico como um dos mais promissores. As vantagens vão desde o plantio no outono e inverno, sem competir com soja e milho, até o cultivo sem químicos. "Ele exige menos água e dá para fazer três safras no ano, sem contar que traz nutrientes para o solo e fixa nitrogênio."
Outro benefício é a rentabilidade, que, segundo Nascimento, pode chegar ao triplo do valor investido. "É muito interessante para o produtor. A dificuldade é que muitos ainda não conhecem. É preciso difundir mais."
É isso que o produtor de sementes Airton Cittolin tem buscado fazer no oeste do Paraná. Diretor técnico da Associação Regional dos Engenheiros Agrônomos de Cascavel, ele tem trabalhado com apoio da Embrapa para incentivar o plantio de grão-de-bico na região.
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Alguns médios e grandes produtores toparam testar. Em 2020, plantaram 20 hectares e, neste ano, a meta é ampliar para 300. "Pretendemos aumentar porque se mostrou viável. É uma planta que não dá praga, não tem risco de perda com a geada, como o trigo, e que não precisa abrir mão da safra de milho e soja", afirma.
Cittolin diz que a intenção é fazer a cultura ganhar peso comercial até mesmo na exportação. Para isso, porém, ele destaca a necessidade de mais apoio técnico. "Seria importante ter um centro de pesquisa ou estação experimental, além de ajuda de órgãos de pesquisa e governos para validar o trabalho e ganhar tempo e segurança."
Se o grão-de-bico ainda está na largada, outra alternativa já consolidada - e cheia de proteína - e que também pode virar ingrediente é o amendoim. "A cadeia produtiva é qualificada, com processos rigorosos e certificados, e o setor é bastante maduro para atender aos mercados internacionais", ressalta Taís Suassuna, pesquisadora e melhorista da Embrapa Algodão.
Segundo ela,o amendoim também é boa opção para o produtor, que pode diversificar e até fazer rotação com culturas como cana-de-açúcar, o que já ocorre em SãoPaulo. O potencial para agregar valor já está no radar dos produtores brasileiros, como o grupo Beatrice Peanuts, que planta 9 mil hectares em São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
"Nas feiras internacionais de que participamos, há cada vez mais consulta de indústrias sobre proteínas alternativas. A maioria de nossos clientes já tem área vegana ou voltada para isso. E o amendoim tem vantagens, como plantio em grande escala e não ser transgênico", diz Pablo David Rivera, gerente do grupo Beatrice Peanuts.
De acordo com ele, há uma demanda crescente por amendoim, especialmente na Europa. "Na Inglaterra, a importação deve aumentar mais de 20% só para atender ao mercado vegano e vegetariano. E, hoje, o mesmo cliente que compra nosso produto in natura já pede produtos processados", ressalta.
Além do amendoim, o mercado estrangeiro também está de olho em outra riqueza brasileira: a Amazônia, principal cartão-postal da biodiversidade nacional. Segundo o GFI Brasil, há uma iniciativa internacional interessada em financiar pesquisas na região. O mapeamento de produtos com potencial já começou, e a previsão é que o edital seja aberto ainda em 2021.
E já há provas concretas de que o bioma tem muito a oferecer. A foodtech brasileira Amazonika Mundi, fundada em 2020, usa ingredientes amazônicos em seus produtos à base de plantas, como hambúrguer e bolinho de "siri".
Entre eles estão tucupi preto, farinha de babaçu e pimentas. "Tem muitos ingredientes para produzir alimentos saudáveis. E é possível chegar ao mesmo aroma usando opções 100% naturais", destaca Thiago Rosolem, CEO da Amazonika Mundi.
O uso de ingredientes amazônicos já resultou em sondagens de Alemanha, Canadá, Austrália e países da Ásia. "A ideia, em um primeiro momento, é vender o produto pronto, mas há interesse deles também nos ingredientes", diz o empresário, que tem projetos em parceria com a Embrapa para descobrir novas matérias-primas.
Rosolem conta que a compra dos insumos é feita diretamente das comunidades locais. A mediação é feita pela Origens Brasil, rede idealizada pelo Imaflora e pelo Instituto Socioambiental que reúne 27 empresas e mais de 40 associações, cooperativas e ONGs.
"Temos a maior biodiversidade do mundo, uma biblioteca natural que a ciência ainda não identificou por completo. Por isso, é preciso investir mais em ciência. A pesquisa precisa estar perto do conhecimento tradicional dessas comunidades para descobrirmos, juntos, novos caminhos", afirma Luiz Brasi, coordenador de mercado da Origens Brasil.
Brasi avalia que o país tem condições de produzir ingredientes exclusivos e de alta qualidade, respeitando as comunidades e o ciclo da floresta, com uma agricultura sustentável. "Há vários exemplos de que a árvore vale mais em pé do que derrubada para extrair madeira. Precisamos quebrar a dicotomia de que conservação e produção não podem andar juntos."
Nesse contexto, Brasi vê o agro como peça-chave. "O setor tem papel fundamental na produção de alimentos. Mas precisa fazer isso sem desmatar, com rastreabilidade e transparência, pois isso agrega muito valor. Precisamos ter uma conciliação entre governo, empresas e demais setores para criar uma estratégia para a biodiversidade brasileira."

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