OESP, Economia, p. B10
29 de Out de 2004
Biocombustível é um sucesso, mas tem problemas
Analista elogia potencial brasileiro e produtores criticam falta de planejamento
Gustavo Porto
A crise mundial do petróleo e iminente adesão da Rússia ao Protocolo de Kyoto fizeram com que o mundo voltasse, neste ano, sua atenção para o Brasil, considerado o único país do mundo com capacidade agrícola e tecnológica para tentar suprir uma demanda pelos combustíveis renováveis.
O diretor da consultoria F.O. Licht, Christoph Berg , afirma que a indústria de biocombustíveis está passando por "uma época fascinante", com quebras de recorde de produção. "E o Brasil é um fornecedor muito potente e o crescimento, pois tem abundância de matéria-prima, tecnologia e habilidade empresarial".
Mas a euforia do analista sobre o potencial brasileiro no setor bate de frente com a realidade. Lideranças do setor sucroalcooleiro não negam que há uma falta de planejamento para um longo prazo na produção de biocombustíveis no País. "Infelizmente ainda há muito Gerson no setor sucroalcooleiro", compara o empresário do setor, Luiz Guilherme Zancaner, sobre o etanol. Zancaner cita uma propaganda cigarros da década de 70 - na qual o ex-jogador Gérson vendia uma marca para "os que queriam levar vantagem em tudo" - como exemplo da mentalidade de alguns colegas seus.
"Não dá para ter credibilidade se não há um equilíbrio no preço de um produto como o álcool, que é estratégico", afirmou. "Não é interessante para ninguém o litro do álcool custar R$ 0,75 no começo do ano, cair para R$ 0,38 em fevereiro e estar agora R$ 1 em plena safra", completou Zancaner, presidente das Usinas e Destilarias do Oeste Paulista (Udop), uma das entidades de classe do setor.
Nem mesmo o recorde de exportações de etanol brasileiro, que chegarão a 2,2 bilhões de litros na safra 2004/2005, pode ser comemorado.
Com estoques altos no começo do ano e preços muito baixos, o País conseguiu exportar para destinos como os Estados Unidos, por exemplo, volumes altos de etanol apesar das altas tarifas cobradas pelo combustível. "Só que as usinas contrataram um volume de exportação muito acelerado e não cuidaram do mercado interno", disse o diretor-superintendente da trading Crystalsev,Ricardo Ferreira Santos. Com isso, o cenário para até abril de 2005 é de preços altos para o álcool, o que será uma forma indireta de restringir a demanda interna e evitar o desabastecimento.
Enquanto isso, o biodiesel, combustível feito a partir de uma mistura de etanol e uma oleaginosa, como soja ou mamona, caminha para a regulamentação no Brasil. Os primeiros testes com veículos já foram concluídos e o governo, que o considera indispensável na matriz energética, deve autorizar para o próximo mês a mistura de 2% ao diesel de petróleo.
No entanto, por considerar que há ainda uma falta de coordenação nas pesquisas desse combustível, o governo federal tentará centralizá-las no Pólo Nacional de Biocombustíveis, em Piracicaba (SP), anunciado em janeiro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que será inaugurado em 5 de novembro. "Há uma falta de ordenação e buscamos resolver esses gargalos, já que o Brasil, como nos outros combustíveis, busca a liderança mundial com o biodiesel. O produto surge como uma nova estrela e precisamos trabalhar mais nisso", avaliou o presidente da Câmara Setorial do Açúcar e do Álcool do Ministério da Agricultura, Luiz Carlos Corrêa Carvalho.
OESP, 29/10/2004, Economia, p. B10
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