O Globo, Tema em Discussão, p. 6
Autor: CLEIDE, Fátima
24 de Abr de 2007
Biocombustíveis
Nossa opinião
Luz no túnel
Por razões ambientais e também pelo enorme crescimento de economias asiáticas, o mundo passará por uma transformação no campo da energia e na produção de alimentos.
Os países da Ásia, que mais crescem hoje, estão com suas fronteiras agrícolas esgotadas, e os avanços tecnológicos não têm sido suficientes para manter a produtividade na agropecuária, afetada por desequilíbrios ambientais.
Como as economias asiáticas estão em plena revolução industrial, com rápida urbanização, a demanda por energia vem se expandindo de forma acelerada.
Suprir essa demanda apenas com combustíveis fósseis é algo impensável, seja pelas restrições de oferta, seja pela pressão da opinião pública mundial (que influencia cada vez mais os mercados consumidores nas nações ricas) para se evitar a emissão de gases que contribuem para o aquecimento global.
Desse modo, se por um lado as empresas brasileiras estão sofrendo uma concorrência terrível das exportações procedentes da Ásia, por outro o Brasil é hoje quase imbatível no agronegócio, e pode se tornar peça chave no fornecimento de alimentos e dos chamados biocombustíveis, que são fontes renováveis de energia. Em ambos os casos é possível se expandir consideravelmente a produção com baixo impacto ou até mesmo recuperação ambiental.
Os maiores exemplos vêm da cana, para produção de etanol e açúcar, com a ocupação de áreas de pasto degradadas, especialmente na região dos cerrados. Na Amazônia, esse tipo de produção é inviável, técnica e economicamente.
Mas a Região Norte terá sua oportunidade com a produção de óleo de palma (dendê) que tem se revelado como uma das melhores matérias-primas para fabricação do biodiesel. A palma convive muito bem com as florestas nativas, e para os pequenos agricultores da Amazônia pode ser opção mais rentável do que a criação de gado. Trata-se de uma verdadeira luz no fim do túnel.
Outra opinião
Cautela e atenção
Fátima Cleide
Sou nativa de Rondônia. Nasci e cresci num mosaico amazônico cravado no coração da América do Sul - que infla sufocado em desenvolvimento intenso e desordenado, feito de atividades econômicas ambiental e socialmente degradadoras, além de ilegais. Em Rondônia, como em praticamente em toda a Amazônia, essas atividades, tão ilegais quanto degradadoras, deslocam multidões, empregam muita gente, movimentam grande parte das economias locais e produzem uma elite econômica de grande influência política no estado.
Enquanto isso, ecoam os alertas sobre as graves alterações ambientais em curso no mundo, diretamente associadas ao uso indevido do solo e dos recursos naturais vitais, apontando possibilidades de curto prazo que partem do drástico onde estamos a extremos de calamidade global.
Diante disso, a Amazônia exige cautela e atenção às relações comerciais em perspectiva entre Brasil e EUA, no referente à produção de biocombustíveis e seus impactos na vida nacional e no ambiente mundial.
Portanto, a escolha que precisamos fazer neste momento não se restringe a definir uma matriz energética, entre o petróleo ou os biocombustíveis. Importa transformar as atuais condições de produção e consumo desses recursos. Importa aprimorar nossa própria tecnologia para sanar nossas graves e reais necessidades. Caso contrário, em curto prazo, teremos coberto nosso imenso e diversificado território com a monocultura transgênica, desgraçando nossa gente e nosso futuro tão pródigo, para sustentar o monopólio transnacional privado da produção mundial de combustíveis - enquanto crescem as multidões arruinadas e esgotam-se as fontes da vida neste planeta.
Contudo, dialeticamente, pode não ser este o nosso destino. Temos tudo: os recursos naturais, o território, a tecnologia, a necessidade e a oportunidade. Este é o momento que cabe a nós interromper o processo suicida que acomete a Humanidade e nos dedicar a desacelerar o aquecimento e acelerar o crescimento da ética e da solidariedade, aprimorando e fortalecendo criativamente os processos democráticos de produzir soluções justas e tomar decisões sustentáveis sobre nosso destino.
Fátima Cleide é senadora (PT-RO).
O Globo, 24/04/2007, Tema em Discussão, p. 6
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