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Billings: óleo veio de desmanche

JT, Cidade, p. A4
11 de dez de 2004

Billings: óleo veio de desmanche

Amanda Romanelli, Cylene Souza e Fábio Fleury

Proprietários de terreno vizinho, utilizado como estacionamento nos fins de semana, temem que o vazamento atrapalhe o movimento
A polícia descobriu um desmanche de caminhões no depósito de onde vazou óleo diesel para a Represa Billings. A retirada da mancha, que media de 300 a 400 metros de comprimento por 3 de largura, da superfície da represa deve levar três diasO vazamento de óleo diesel que atingiu a Represa Billings na noite de anteontem aconteceu em um galpão que abrigava um desmanche de caminhões, no bairro de Riacho Grande, em São Bernardo, região do ABCD, na Grande São Paulo. Localizado na Rua Adonis, próximo ao trevo entre a Estrada Velha de Santos e o km 29 da Via Anchieta, o edifício foi alugado havia pouco mais de um mês.
Homens da Polícia Civil abriram o galpão no final da tarde de ontem, depois que um mandado de busca e apreensão foi expedido em São Bernardo. Ao abrirem as portas, eles encontraram três cabines de caminhão, inúmeras peças, pneus, chassis, tanques de combustível, maçaricos, óculos de solda e até uma empilhadeira.
O óleo que vazou para a represa estava em uma canaleta que atravessa toda a estrutura, desce pela encosta, passa por baixo da estrada e deságua na represa. O galpão foi aberto às 17h45, por Antônio Caldas Mesquita, delegado-titular da Delegacia de Investigações sobre Infrações e Crimes contra o Meio Ambiente de São Bernardo, que pediu o mandado à Justiça.
A abertura foi feita na presença do empresário Salvatore Drago, dono do terreno. Ele disse à polícia que não tinha mais as chaves do galpão desde que alugou a área para um homem que foi identificado apenas como Sandro. Drago não foi detido, mas terá de prestar esclarecimentos. Os inquéritos do crime ambiental e do desmanche serão presididos por Mesquita.
A retirada da mancha de óleo, que media de 300 a 400 metros de comprimento por 3 de largura, da superfície da represa deve levar três dias. Desde a noite de anteontem, uma equipe de 70 pessoas da Defesa Civil de São Bernardo do Campo, Cetesb, Sabesp, Transpetro, Dersa, Petrobrás e Polícia Ambiental foi mobilizada para conter e retirar o óleo.
Limpeza da água na Billings
A operação de limpeza vai envolver o uso de caminhões-vácuo, bóias de contenção e turfas, um tipo de material absorvente. Parte da vegetação das margens será retirada. Segundo a Cetesb, não houve morte de peixes ou outros animais da fauna local.
A represa é utilizada pela Sabesp para a coleta de água para abastecimento de dois milhões de pessoas em São Paulo, Santo André, São Bernardo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
"Ficamos preocupados ontem, porque esse braço do Rio Grande abastece 8% da região metropolitana, mas felizmente o vazamento foi contido e não vai haver interrupção do abastecimento", diz Mauro Arce, secretário de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento.
A Cetesb e a Sabesp monitoraram a área durante todo o dia e não identificaram alterações na qualidade da água.
De acordo com a Sabesp, não houve danos porque a captação é feita a 200 metros do local e a seis metros de profundidade, enquanto o óleo, mais leve que a água, fica na superfície.
"A Sabesp está preparada para emergências. Caso houvesse contaminação, a captação seria interrompida e a população seria abastecida por um reservatório que tem autonomia para 12 horas. Depois desse período, se fosse necessário, o abastecimento seria remanejado para outros mananciais", afirmou Arce.

Ambientalistas: impacto exige recuperação intensa
O impacto ambiental causado pelo vazamento de óleo diesel na Represa Billings ainda não foi medido, mas representantes de entidades ambientalistas acreditam que haverá prejuízo para o entorno.
"Por menor que seja a extensão da mancha, há um impacto que exige recuperação intensa, já que é preciso retirar parte da terra e da vegetação das margens (como parte do processo de limpeza)", diz Carlos Bocuhy, conselheiro do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema).
"Qualquer subtração de vegetação nativa tem impacto negativo na flora, na fauna e na qualidade da água. A vegetação das margens funciona como um filtro da represa. Quanto menor o contato humano, maior a qualidade da água", explica Nelson Pedroso, vice-presidente do comitê da Bacia do Alto Tietê.
Para Bocuhy, a estocagem de materiais tóxicos ou poluentes deveria ser proibida nas áreas de manancial. Ele considera necessário um levantamento dos focos de risco urbano nas áreas de manancial. Para Pedroso, o maior problema é a ocupação irregular, que lança esgoto na represa. A Secretaria de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento informa que há um projeto do governo do Estado, em parceria com as prefeituras da região e o Banco Mundial, para urbanização das favelas, construção de espaços de lazer que preservem a vegetação e coleta e tratamento de esgoto.

Pescador avisou casal, que acionou a GCM
Por volta das 18h de quinta-feira, um homem que pescava no Braço do Riacho Grande, na Represa Billings, em São Bernardo, notou que a água estava com uma mancha de óleo. Ele alertou os donos de um terreno que fica entre a represa e a Estrada Velha de Santos, na altura do km 29 da Via Anchieta.
A dona de casa Elianeide Almeida Rocha, acompanhada pelo marido, Luiz Custódio Rocha, foi para a beira da água e constatou que a mancha se espalhava. Logo em seguida, ela avisou um homem da Guarda Civil Metropolitana, que acionou as autoridades.
"Quando ele (o pescador) nos avisou, o óleo já estava descendo para a represa pela canaleta de águas pluviais", contou Elianeide. Ela e o marido utilizam parte do terreno como estacionamento para pessoas que andam de jet ski no Riacho Grande. Eles temem que o vazamento possa prejudicar o movimento.
Segundo a dona de casa, seu terreno é procurado justamente por ficar em um local onde a água é mais limpa que no restante da represa, e é mais reservado do que a Prainha do Riacho Grande, distante cerca de dois quilômetros.
"Fica muito ruim para a gente. As pessoas vêem que a água está contaminada e não vêm mais para cá. Esperamos que limpem a represa logo", disse a dona de casa. "A água já não está mesmo muito boa. Falta oxigênio para os peixes, vários aparecem mortos."

JT, 11/12/2004, Cidade, p. A4

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