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Big Brother na Sevana Africana

O Globo, Sociedade, p. 28
10 de Jun de 2015

Big Brother na Sevana Africana
Cientistas analisam comportamento de animais em 1,2 milhão de fotos

Renato Grandelle

De certa forma, parece um eterno Big Brother. Tem provas de resistência, competições pela liderança e constantes riscos de paredão. Tudo exibido para milhares de espectadores. O cenário é a savana africana. Lá, entre 2010 e 2013, pesquisadores americanos e ingleses registraram o vaivém de mais de 322 mil mamíferos - ao todo, são 40 espécies. A megaprodução contou com 225 câmeras, dispersas por todo o Parque Nacional de Serengeti, um patrimônio mundial da Unesco na Tanzânia, e acionadas por calor ou movimento. Ao todo, foram mais de 1,2 milhão de retratos, agora disponíveis em um site (www.snapshotserengeti.org), onde os cientistas recrutam internautas para ajudá-los a desenvolver um estudo.
A meta é registrar o comportamento das espécies - por exemplo, se os predadores dividem a mesma presa e o horário em que vão atrás dela. Algumas imagens impressionaram os pesquisadores, como a agressão de leões a guepardos, ou a convivência harmônica entre as arredias e noctívagas raposas-orelhas-de-morcego e os chacais-de-dorso-preto. As câmeras penduradas em árvores e postes também fizeram flagrantes mais divertidos, como a insaciável exibição das zebras, que estão presentes em 70 mil fotos, e das gazelas, que se aproximavam da câmera a ponto de parecerem interessadas em um "selfie".
Com a imagem das câmeras, faltava alguém para traçar um "dossiê" dos animais - identificar a espécie, onde fica, como se desloca, do que se alimenta, com quem interage. A pilha de fotos foi postada na internet em 2012, e 28 mil pessoas já se cadastraram para ajudar o trabalho científico.
- Como queremos cobrir uma área de 1,1 mil quilômetros quadrados, precisamos de muitas câmeras. Só assim é possível ver se os animais estão se evitando, ou mudando suas presas e o horário em que caçam - revela Margaret Kosmala, pesquisadora do Departamento de Ecologia da Universidade de Minnesota e coautora do estudo, publicado ontem na revista "Scientic Data". - É o retrato de um conjunto. E isso só foi possível porque temos milhares de voluntários que não são cientistas.
A equipe de Margaret desenvolveu um algoritmo para agregar as informações fornecidas pelos usuários de cada imagem, até chegar a um consenso no "diagnóstico" dos animais.
- Mostramos cada imagem para, pelo menos, dez voluntários. Se nove dizem que o animal é um elefante e um afirma que é um leão, então concluímos que registramos um elefante - explica a pesquisadora. - Já testamos este método em mais de 4 mil imagens e ele tem 97% de precisão.
Coautora da pesquisa, Alexandra Swanson admite que o levantamento não seria possível sem "a participação do cidadão".
- Este é o maior estudo com câmeras de monitoramento realizado pela ciência até hoje. Queremos analisar como predadores e suas presas coexistem em uma paisagem dinâmica. Se estivéssemos interessados apenas em leões e leopardos, por exemplo, poderíamos ter classificado as imagens nós mesmos - assegura Alexandra, pesquisadora do Departamento de Física da Universidade de Oxford. - Mas são centenas de milhares delas, então simplesmente não conseguiríamos dar conta das fotos que estavam sendo produzidas.
Alexandra e Margaret fazem rondas entre as centenas de câmeras para mudar as pilhas gastas e recuperar os cartões de memória já usados. A equipe se surpreendeu com a quantidade de danos nos equipamentos.
- Os herbívoros esfregam-se neles, as hienas roem, os elefantes derrubam o equipamento que está nos postes. Às vezes eu preciso juntar pedaços de uma câmera caídos por toda parte - lembra Alexandra, que estima que há mais de 200 mil cartões de memória nas máquinas à sua espera.
As câmeras ainda estão ativas. Segundo Margaret, o registro contínuo não fará o trabalho cair em um repeteco.
- Quanto mais imagens, mais perguntas - ressalta. - Por exemplo, podemos descobrir se a interação entre os animais muda durante uma estação seca ou chuvosa mais longa. E também queremos mais detalhes sobre o momento de caça das espécies, e como os herbívoros conseguem evitar os carnívoros e encontrar boas plantas para comer.
Para Beto Verissimo, pesquisador sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, um levantamento semelhante poderia ajudar os cientistas a descobrir novas espécies na floresta brasileira.
- Esta iniciativa é um exemplo de como a ciência cidadã deve ser acolhida. Com o aumento da qualidade de dados, não precisamos depender apenas de especialistas. As pessoas que vivem no local pesquisado conhecem aquela realidade e podem contribuir com informações valiosas - elogia. - Nenhum satélite, por mais acurado que seja, registra uma espécie. Para isso, dependemos de câmeras. Se elas estiverem em todas as partes, como estão fazendo na África, vamos colher resultados espetaculares.

O Globo, 10/06/2015, Sociedade, p. 28

http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/cameras-espalhadas-p…

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