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A Batalha do Paraíba

O Globo, Economia Verde, p. 24
Autor: VIEIRA, Agostinho
27 de mar de 2014

A Batalha do Paraíba

Na língua Tupi, Paraíba quer dizer mar ruim. E é exatamente por este "mar ruim" do Paraíba do Sul que as duas maiores metrópoles do país estão brigando. Na verdade, a batalha é antiga. Ela só ganhou as manchetes agora porque se tornou grave, urgente. Os moradores das cidades se assustam com o possível agravamento da falta d`água e os políticos temem uma consequente escassez de votos nas urnas.

No meio do debate, sobram bravatas, de todos os tipos. O governador Geraldo Alckmin, por exemplo, diz que o rio Jaguari, um afluente do rio Paraíba do Sul, pertence aos paulistas, assim como a baía de Guanabara pertenceria aos cariocas. Com isso, ele estaria livre para fazer o que bem quisesse com as suas águas. É como se fosse possível fechar todas as pistas da Via Dutra, na altura de Resende, sem se preocupar com os problemas que isso causaria em São Paulo.

O mesmo Alckmin afirmou que o Rio não sentiria tanta falta assim do Paraíba do Sul, já que grande parte da vazão do rio é usada para produzir energia e não para abastecer a população. Conversa fiada. Ele sabe que o sistema elétrico no Brasil é interligado. Portanto, não dá para garantir que o que se produz no Rio, no Nordeste ou no Sul do país vá abastecer exatamente essas regiões. É provável, aliás, que São Paulo, pelo tamanho de sua economia, seja o estado mais beneficiado.

Mas o governador paulista não tem o monopólio das sentenças sem sentido. Sérgio Cabral também produz as suas: "jamais permitirei que se retire água que abastece o povo do Estado do Rio de Janeiro". Esse, inclusive, pode ser um bom exercício. Quando um governante, de qualquer esfera, juntar palavras como "jamais", "nunca" e "povo" numa mesma frase, é bom desconfiar. O que Alckmin e Cabral realmente queriam dizer era algo do tipo: "Caro eleitor, veja como eu estou sendo firme na defesa dos nossos interesses".

O fato é que se os dois tivessem sido realmente firmes, a situação não teria chegado ao ponto que chegou. É justo reconhecer, porém, que o estresse hídrico enfrentado por Rio e São Paulo não é mérito apenas destes governadores. São anos de consistentes demonstrações de descaso e irresponsabilidade. Um dos exemplos mais claros é o nível de desperdício de água. Os dados oficiais indicam que ele seria de 34% em São Paulo e de fantásticos 50% no Rio.

As estações de tratamento da Cedae produzem, em média, 45 mil litros de água por segundo. Cerca de 500 litros por habitante/dia. Uma pessoa consume, normalmente, algo em torno de 200 ou 220 litros por dia. Logo, estamos falando de 300 litros de água por dia, por habitante, que estão sendo jogados fora. Um volume mais do que suficiente para resolver todos os problemas. Em qualquer parte do mundo, um índice de desperdício superior a 15% ou 20% é considerado absurdo. Aqui ele faz parte da nossa história.

A mesma que mostra como os nossos rios e mananciais sempre foram tratados. Houve um tempo em que a população do Rio era abastecida pelas águas do rio Carioca, aquele que nasce no Cosme Velho. Época em que ainda era possível nadar no Tietê. Depois vieram as grandes obras como as represas Billings e Guarapiranga, em São Paulo, e a adutora do rio Guandu. Hoje, o Carioca, o Tietê e o Guandu são rios mortos. Este último sobrevive graças à transposição das águas do rio Paraíba do Sul. Se tivessem sido preservados, a polêmica atual não aconteceria.

Um levantamento recente feito pela Fundação SOS Mata Atlântica em 96 rios, córregos e lagos de sete estados das regiões Sul e Sudeste mostrou que a água de 40% deles tem qualidade péssima ou ruim. A prática é a mesma há muito tempo e em todo o país. Usa-se o rio até que ele fique esgotado e então parte-se para buscar água cada vez mais longe e pagando-se por obras cada vez mais caras.

O Brasil possui o maior potencial de água doce do planeta, mais ou menos 12% das reservas mundiais. Talvez isso tenha causado a falsa impressão de que este recurso seria infinito. Não é. Até porque 80% dessa disponibilidade hídrica estão na Amazônia. O relatório "Atlas Brasil - Abastecimento Urbano de Água", de 2010, mostra que a situação não é nada confortável. Em 2015, 55% dos municípios brasileiros já estarão sofrendo por conta de déficit no abastecimento.

Tudo isso sem considerar os efeitos do aquecimento global, que deve fazer com que a estiagem deste ano passe a fazer parte da paisagem. A hora é de botar os pés no chão e encarar o problema com seriedade. Sem demagogia. Não dá para virar as costas à situação crítica de São Paulo. Mas também não é possível continuar adiando a solução dos problemas reais: recuperar os nossos rios e acabar com vergonhosa situação do saneamento.

O Globo, 27/03/2014, Economia Verde, p. 24

http://oglobo.globo.com/blogs/ecoverde/posts/2014/03/27/a-batalha-do-pa…

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