VOLTAR

A batalha da água

O Globo, Sociedade, p. 18
12 de Jan de 2015

A batalha da água
Escassez de chuvas no Brasil estimula procura por novas tecnologias em uso pelo mundo

Renato Grandelle

RIO - Um pequeno gole para o homem, um grande recado para a Humanidade. Ao investir em um equipamento que transforma excrementos humanos em água potável - e beber o resultado na semana passada -, Bill Gates empurrou a crise hídrica mundial para os holofotes. No Brasil, a pauta, que por décadas foi adotada exclusivamente pelo poder público, transbordou para pequenas iniciativas particulares. De um grupo de surfistas na Amazônia a professores de Medicina em Minas Gerais, há um leque de projetos que tentam combater o descaso histórico com a água. Segundo o Instituto Trata Brasil (ITB), cerca de 3,5 mil piscinas olímpicas de esgoto são despejadas diariamente em rios e mares no país.
- O estresse hídrico na Região Sudeste tem um ponto positivo: finalmente somos forçados a olhar além do horizonte - avalia Edison Carlos, presidente do ITB. - Agora que não temos água em abundância, precisamos procurar novas tecnologias, como programas de dessalinização e reúso da água. São projetos usados em todo o mundo, mas ignorados aqui. Há tempos sabíamos como nossa dependência de reservatórios nos deixa vulneráveis. Agora, este equilíbrio se rompeu.
Edison propõe soluções caseiras para áreas isoladas, como kits para purificação de água. Um surfista americano entrou na onda e, em 2009, criou o programa "Waves for Water" (em tradução livre, "Ondas para a Água"). Jon Rose navegava em um barco próximo à costa da ilha de Sumatra, na Indonésia, quando soube de um terremoto que arrasou a cidade de Padang, em outra ilha do país. Entrou nos escombros em busca de vítimas, mas sua maior contribuição foi entregar os dez filtros de água que carregava, além de aulas improvisadas sobre como capturar água da chuva.
O episódio se repetiu no ano seguinte, em outro sismo avassalador, desta vez no Haiti. Rose voltará ao país este mês para conferir a quantas anda a situação hídrica do país. Do terremoto asiático ao latino-americano, o surfista carimbou o passaporte em diversos países e, com outros colegas de prancha, distribuiu filtros mundo afora. Entre os mais de 40 projetos, um de seus destinos preferidos foi a Amazônia. Calcula que, com o pacote de aulas e kits, levou água potável a 20 mil comunidades indígenas no Norte do Brasil.
- Não queremos nos ater a uma região. Qualquer pessoa pode levar filtros para onde for viajar. Um equipamento de US$ 50 pode servir para até 100 pessoas - estima. - Atuamos em áreas atingidas por catástrofes naturais, como as Filipinas, regiões miseráveis na África, comunidades esquecidas no Brasil. Mesmo sendo um projeto pequeno, já levamos água limpa a milhões de necessitados.
SANEAMENTO PRECÁRIO
Enquanto Rose esbarrou por acaso em sua primeira missão, o médico Marcus Vinicius Polignano fundou o seu projeto sabendo de cada detalhe. Afinal, o cenário era um velho conhecido. Quinze anos atrás, embarcou na bacia hidrográfica do Rio das Velhas convicto de que ali nascia as doenças que davam tanto trabalho aos seus colegas, professores da Faculdade de Medicina Preventiva da UFMG.
- O meio ambiente era tão pobre que afetava diretamente a qualidade de vida das pessoas - lembra. - Vimos que, sem atuar naquele ecossistema, era inviável manter a saúde coletiva. Não bastava medicar a população aqui e ali. Precisávamos combater a causa das doenças. E elas estavam na falta de saneamento, que degradava o corpo d'água.
O Projeto Manuelzão, como foi batizado, angariou o apoio de outros departamentos da universidade, como engenharia e geografia, além de parcerias com o poder público e a iniciativa privada, que discutem ações de revitalização para os rios locais.
- A área geográfica da bacia tem quase 800 quilômetros de extensão, é habitada por 4,5 milhões de pessoas e abrange 51 municípios, inclusive Belo Horizonte. Manter sua integridade deve ser uma missão incontestável - ressalta Polignano. - Nosso projeto nasceu simples, mas agora tem grande porte. E seu fortalecimento foi devido à noção de que a crise hídrica brasileira não é um problema momentâneo. Trata-se do fruto de um sistema capenga, de exploração insustentável, e que não dá mais conta da demanda da população.
A SOS Mata Atlântica, por sua vez, ataca a crise hídrica em duas frentes. Uma das iniciativas precisa passar por Brasília. A ONG quer alterar uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que divide a classificação do tipo de uso das águas em quatro classes. Para os ambientalistas, a legislação deve ser mais rigorosa e permitir apenas três divisões.
- Uma determinada classe permite que a água doce só seja destinada à navegação e à harmonia paisagística. É um uso insuficiente, que pode facilitar a contaminação de reservatórios e mananciais - critica Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da ONG. - Além disso, a resolução do Conama é baseada em uma legislação de 1977. Está muito defasada e não contempla tecnologias como os agrotóxicos, que foram melhoradas ou criadas desde então.
Há 20 anos a ONG, em parceria com universidades, usa kits para análise da água dos rios urbanos das principais capitais da Mata Atlântica. A classificação é dividida em cinco parâmetros: ótimo, bom, regular, ruim e péssimo. Mais de 70% dos rios se enquadram nas duas últimas categorias. Para Malu, este é mais um sinal de que as políticas públicas não vinculam o saneamento básico à saúde pública, um item considerado prioritário e dispendioso na agenda dos governos.
Segundo ela, a Mata Atlântica não conta com nenhum grande programa de referência na administração de recursos hídricos. O que teve melhor resultado, e ainda assim insuficiente, foi a despoluição do Rio Tietê. Iniciado há 23 anos, durante a Rio 92, o programa já consumiu R$ 2,3 bilhões. A mancha de poluição do rio, que se espalhava por 600 quilômetros, agora atinge apenas 70 quilômetros.
- Alguns municípios já usam as águas do Tietê para consumo humano, mas na capital o rio ainda parece morto - conta Malu. - É uma operação lenta e que ainda vai exigir muito investimento.
A ONG, agora, quer importar para o Rio Guandu um programa já aplicado no Tietê. Sua base é o preparo de líderes comunitários que moram na beira de córregos. Eles serão os fiscais da região ao seu redor, agilizando a recuperação de cada área. Entre as regiões acolhidas pelos monitores estarão a divisa dos estados do Rio e São Paulo, além da Baixada Fluminense.
A ambientalista, no entanto, destaca que observar os grandes rios não é uma operação completa, já que eles recebem dejetos que são jogados em córregos, muitas vezes a partir de habitações irregulares. Por isso, é necessário estender o monitoramento até a cada filete d'água. Um programa exemplar neste quesito é o Córrego Limpo, em São Paulo. Seus idealizadores querem limpar 194 córregos que passam por áreas carentes da capital paulistana. Até agora, conseguiram revitalizar corpos d'água de 40 favelas da cidade, valorizando as casas ao redor.
SETE MORTES POR DIA NO MUNDO
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, sete pessoas morrem por minuto no mundo por ingerir água insalubre. Entre as doenças mais comuns relacionadas com a falta de saneamento básico estão a diarreia e a malária. Em ambos os casos, mais de 90% das mortes registradas são de crianças com menos de 5 anos.
O desenvolvimento de novas fontes hídricas é fundamental para sustentar a necessidade de alimentos e de energia em um planeta que terá, em 2050, aproximadamente 9 bilhões de pessoas. Por isso, a máquina criada por Bill Gates para extrair água potável de fezes foi saudada por ambientalistas, especialmente nas nações pobres, mais acometidas por eventos extremos climáticos, como inundações e secas, que provocaram mais de dois bilhões de mortes na década de 1990.
As mudanças climáticas, aliás, dificultarão a busca pela água. No Brasil, por exemplo, o Leste da Amazônia passará por um processo de savanização, de acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. O índice de chuvas no Sul do país pode ser reduzido em até 30% durante o século. Pequenas iniciativas como as conduzidas por surfistas e médicos terão cada vez mais trabalho.

O Globo, 12/01/2015, Sociedade, p. 18

http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/escassez-de-chuvas-n…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.