Ovaradouro - https://ovaradouro.com.br
03 de Fev de 2026
Do rio Uatumã ao Parque Nacional do Jaú, estudos de longa duração mostram perda de biodiversidade, biomassa e resiliência em áreas úmidas submetidas a interferências humanas e eventos climáticos extremos
As florestas alagáveis da Amazônia, presentes ao longo de rios como o Uatumã e em áreas protegidas como o Parque Nacional do Jaú, vêm sofrendo transformações profundas nas últimas décadas. Pesquisas ecológicas de longa duração revelam que barragens hidrelétricas, secas extremas e incêndios florestais têm alterado o pulso natural de inundação desses ambientes, com impactos diretos sobre a biodiversidade, o estoque de carbono e o modo de vida de populações que dependem dessas áreas.
As chamadas áreas úmidas, também conhecidas como zonas úmidas - que incluem várzeas, igapós, buritizais, baixios e extensas porções de campinaranas - ocupam cerca de 2,3 milhões de quilômetros quadrados da Bacia Amazônica. Situadas na transição entre ambientes terrestres e aquáticos, elas funcionam como reguladoras do clima, amortecem cheias e secas e sustentam uma biodiversidade altamente especializada.
"As áreas úmidas da Amazônia funcionam como um sistema de regulação natural. Quando o pulso de inundação é alterado, como ocorre em rios barrados ou durante secas extremas, os impactos extrapolam a floresta e atingem diretamente comunidades ribeirinhas, municípios inteiros e centros urbanos como Manaus, explica Jochen Schöngart, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e coordenador do projeto de Pesquisa de Longa Duração "Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas Amazônicas" (Peld-Maua).
Qualquer alteração nessas dinâmicas naturais reverbera para além da floresta. Municípios inteiros, comunidades ribeirinhas, povos indígenas e centros urbanos, como Manaus, sentem os efeitos da intensificação de cheias históricas e secas severas, cada vez mais frequentes neste século.
A seca artificial no rio Uatumã
Um dos casos mais emblemáticos ocorre no médio rio Uatumã, no Amazonas. A construção da Hidrelétrica de Balbina, no fim dos anos 1980, rompeu o regime natural de cheias e vazantes a jusante da barragem. Entre 1987 e 1989, o represamento do rio provocou uma seca artificial nas áreas de igapó, eliminando o pulso de inundação essencial para a manutenção desse ecossistema.
O resultado foi a morte de grandes extensões de floresta alagável ao longo do rio. Décadas depois, os sinais desse impacto permanecem visíveis. Estudos mostram que, embora tenha ocorrido uma regeneração natural, a floresta que voltou a ocupar essas áreas apresenta menos espécies e uma composição muito diferente da vegetação original.
"No rio Uatumã, a barragem de Balbina provocou uma seca artificial que eliminou o regime natural de cheias a jusante. Nossos dados mostram que, mesmo após quatro décadas, a floresta de igapó não conseguiu se recuperar plenamente, com perda de diversidade e mudanças profundas na composição das espécies", diz Carla Iara Dantas, pesquisadora colaboradora do Maua. "Os impactos não ficaram restritos às áreas próximas à barragem. Detectamos alterações na vegetação até 120 quilômetros rio abaixo, o que evidencia a escala territorial desse tipo de intervenção", acrescenta.
Levantamentos florísticos realizados em parcelas distribuídas até 120 quilômetros rio abaixo da barragem indicam redução significativa da diversidade de árvores e alterações estruturais persistentes. Nas áreas mais próximas à hidrelétrica, predominam espécies associadas a ambientes degradados, com crescimento rápido, menor longevidade e baixa capacidade de estocar biomassa - o que compromete a função dessas florestas como sumidouros de carbono.
Igapós sob fogo no Parque Nacional do Jaú
Outro cenário crítico foi identificado no Parque Nacional do Jaú, na Amazônia Central. Ali, pesquisas acompanharam ao longo de 36 anos a recuperação de florestas de igapó atingidas por incêndios florestais associados a secas severas, intensificadas por eventos de El Niño.
Durante períodos de estiagem extrema, áreas tradicionalmente alagadas passam a acumular grandes volumes de serapilheira. Com o solo mais seco, esse material se torna altamente inflamável, abrindo caminho para incêndios que não fazem parte da dinâmica natural dessas florestas e que, em geral, dependem de ação humana para se iniciar. "Durante períodos de seca extrema, especialmente associados ao El Niño, áreas de igapó no Parque Nacional do Jaú passam a acumular grande quantidade de material seco. Isso cria uma condição inédita para essas florestas, que se tornam altamente vulneráveis ao fogo", esclarece Gildo Vieira Feitoza, pesquisador do Inpa e do INCT WetScape. "O incêndio não faz parte da dinâmica natural das florestas amazônicas. Quando ele ocorre, geralmente há uma ação humana envolvida, e os danos são severos", diz.
Os dados são alarmantes. "Em um único evento de fogo, até 90% das árvores podem ser perdidas. O mais preocupante é que, mesmo após quase quarenta anos, a floresta recupera apenas uma fração da biomassa original e cerca de metade da diversidade de espécies que existia antes do incêndio", alerta Feitoza.
Impactos de longo prazo e decisões no presente
Os resultados desses estudos reforçam o alerta que os impactos sobre as áreas úmidas amazônicas são profundos, duradouros e muitas vezes irreversíveis. A baixa resiliência dos igapós diante de secas extremas, incêndios e barramentos contrasta com a velocidade de expansão de projetos hidrelétricos e com o avanço das mudanças climáticas na região. "Esses estudos deixam claro que os efeitos de barragens, secas extremas e queimadas não são temporários. São impactos de longo prazo, que precisam ser considerados no planejamento energético e ambiental da Amazônia, sobretudo em um cenário de intensificação das mudanças climáticas", reforça Jochen Schöngart.
Ao revelar como florestas alagáveis respondem - e não conseguem se recuperar plenamente - após décadas de distúrbios, as pesquisas lançam luz sobre a necessidade de incorporar efeitos ecológicos de longo prazo no planejamento energético e ambiental da Amazônia.
Sobre o Peld-Maua
Na quarta fase, o Peld-Maua é um dos projetos mais importantes de monitoramento ecológico de longa duração nas áreas úmidas da região amazônica, com foco na investigação dos impactos de distúrbios naturais, como cheias e secas extremas, e de ações humanas, como queimadas e hidrelétricas. Coordenado pelo Inpa e pelo Grupo Maua, o projeto atua em diferentes tipos de áreas úmidas, promovendo ciência colaborativa, formação de jovens pesquisadores e geração de dados essenciais para a conservação da sociobiodiversidade amazônica.
Com informações da Assessoria de Comunicação do Inpa
https://ovaradouro.com.br/barragens-e-secas-extremas-comprometem-flores…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.